Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

2018: quem no ora, no mama?

04 de Janeiro, 2018
Angolano volta a vencer a São Silvestre e a participação apenas foi de angolanos. Antes do ‘agostino’ Simão Manuel vencer esta 62ª edição, já havia ganho João Ntyamba em 1999 e 2000, colocando em pleno fim do século aquilo que comparo a um cadeado posto no bau do atletismo nacional com glória.
Eu lamento por não vir falar ou exaltar aspectos outros, que não seja o da pobreza e custos elevados que ainda por cima tem o desporto em geral, para os cofres do Estado. Mas, para chegar ali, eu primeiro preciso do radar sociológico, que sempre inclui algo que o ‘colono’ como se diz, nos havia dado. E deixado. A secretaria de estado SEEFD foi a prova disso.
Então, com alguma iluminação porventura, mudaram-se as regras à revelia da Constituição, que continua a ver dissimula­das iniciativas que era esperado cumprirem princípios básicos de qual­quer sociedade com aquilo que se chama educação, um produto que envolve a família, a escola e a comunidade, na construção de hábitos e comportamentos consentâneos com desenvolvimento e progresso. E isso assenta, como decorre de haver políticas para reger o caminho e essência de tudo o que levar a mão e a vontade do homem.
Políticas, política de saúde publica antes de mais, depois, política de desenvolvimento da população, e a seguir a política cultural, e no âmbito desportivo desta, primeiro haver política cultural recreativa e social. Podem ser evocados documentos vários, porém, o estado avulso dessa alegável norma deve ser tudo menos executiva, e daí não se ver os efeitos.
Os artistas já foram pedir apoio, ao apresentar cumprimentos ao novo mandatário da Nação. E como não foi algo feito mais uma vez para usufruto colectivo, mas de classe profissional, estou para ver se a seguir não vão reclamar os desportistas, depois o comité paralímpico, entre outras ordens de classe e associações de classes que certamente aspiram a ver pelo menos de perto o Presidente João Lourenço e ouvir preto no branco, da boca dele.
Mas o então candidato João Lourenço já havia estado com a maioria das classes, na campanha. O que ele tiver enunciado, certamente terá memória para oportunamente equacionar algo, contudo, algo podia vir ajudar o presidente quanto à materialização de condições para assinalar-se o início do reverso da situação decadente do desporto, partindo do umbigo da questão.
Para mim, o desporto tem mecanismos e um deles é a direcção executiva do seu projecto e tal é o umbigo da questão. E quem gera o ser do desporto sabe o papel e tratamento do umbigo, qual é. Assim, quando o governo já reconheceu o fiasco do sumiço do desporto escolar , assim como do cargo de director para as políticas desportivas, já deu um passo na direcção certa, mando apressar o parto do desporto escolar e a troca do diector para as políticas, pelo regresso do director nacional do desporto.
Mas não baste ter de volta a figura do director nacional do desporto; era importante saber com que linhas se vai o mesmo coser, qual o seu estatuto, poderes e prerrogativas, e conhecimento do ‘métier’. Depois constituir o mesmo um bom ‘portfolio’. Reunir-se dos assessores necessários – e se fosse inteligente criar um conselho para si, mas no papel, com todos os antigos directores nacionais. E saber contactar os antigos ministros e secretários de estado da época em que havia director nacional do desporto. Não estou a ensinar a missa ao padre, apenas a dizer que boa missa seria essa, do director.
Não é justo igualmente julgar o ex-director para as políticas desportivas após sabermos a que velocidade funciona a comissão da Assembleia Nacional que se ocupa da legislação desportiva, todavia, apoiada na produção e remissão que a base tiver, base essa do MINJUD. Portanto, só as duas Partes sabem em que maré anda a produção de legislação em falta no desporto.
Virtualmente o lugar do director para as políticas desportivas deve ser na sede do partido que governa, pois, é dali que as políticas orientadoras da acção governativa devem vir. Só não era assim quando o líder do partido foi igualmente o chefe do estado e então a figura do Executivo tinha uma relação directa com o MINJUD, que deslocava de posição o eixo das políticas. Não parece que o então surgido comité de especialidade tenha tido grande intervenção desde que nasceu, daí compreendermos que tudo se passava entre a Cidade Alta e a sede governativa do desporto.
O ‘board da inteligentsia do desporto’ é donde o partido governante deve extrair a seiva para injectar as suas políticas para o sector, definindo assim com visão, transferidor, régua, esquadro, compasso e competência, o conjunto das políticas, primeiramente de resgate do desporto, matéria em que aconselho partir-se da política de formação, de desportistas, dirigentes, técnicos e atletas, para o estado criar neles os reguladores metodológicos e técnicos dos projectos que forem depois lançados sobre as linhas orientadoras da ‘inteligentsia’ do partido, seja o comité de especialidade, ou antes, até, o secretário do seu partido e força política governativa, para o sector desportivo.
Dessa forma, seriam em princípio tais formandos os futuros directores desportivos e técnicos e, subsequentemente, os coordenadores, treinadores, instrutores, monitores, entre outros quadros técnicos e administrativos, de que o desporto angolano precisa, que aparecem, mas requerem muito mais competências. As próprias associações de treinadores devem auxiliar a fazer o recheio dessas políticas.
Assim e voltando ao antigo pomo da discórdia, a omnipresença da DND, histórica sigla da direcção nacional do desporto, é um purgante preciso para limpar grande parte dos dirigentes federativos e de clubes que têm feito da sua área o seu feudo.
O Estado pode por sua vez regular o seu papel não intrusivo se congelar o subsídio que não é obrigado a dar, a quem não seguir orientações políticas decorrentes do primado da Constituição, igualmente de olho posto na forma como obrigar os administradores municipais a mostrar mais papel no seio da respectiva comunidade, pois, a massificação não deve passar apenas pela escola, nem estas mandarem depois os alunos melhores futebolistas, para os clubes.
O administrador municipal deve dar igualmente desporto às crianças fora do sistema escolar, ou onde a escola ainda rudimentar e tradicional também precisa de bolas, além de giz e apagador.
O manual do desporto escolar, será que existe? Se não, deve ser elaborado também nas línguas nacionais, para servir de guia à organização e metodologia, para que haja um movimento sincronizado e não uma desgarrada pegada, onde cada um se limita a colocar as crianças em movimento, sem obedecer rigorosamente ao método do ensino escola da educação física.
Matéria-prima não falta, e que o digam as mais de quinze equipas masculinas e outras tantas femininas, de juvenis e juniores de andebol, a brindar o planalto central, primeiro Huambo, em juniores, e na segunda quinzena o Bié, em juvenis, para os campeonatos nacionais da modalidade. Quer dizer que nós podemos se o andebol pode.
E tal é a pura realidade. O estado tem uma Constituição e nenhuma organização ou iniciativa se lhe deve opor nem desviar, sob pena de inconstitucionalidade; e protegido por essa sombrinha, o director nacional do desporto deve seguir essa sombra da legalidade e pelo caminho ir apertando porcas e parafusos no mecanismo que o desporto actual tem.
A corrigir assim métodos e processos que prossigam, além do desporto de formação, também o desporto como cultura pública de recreação, estará o Director Nacional do Desporto, ‘DND’, com uma visão macro do fenómeno desportivo.
E é partindo dessa observação privilegiada, que o director nacional adquire a capacidade de monitorar cada situação e desprender esforços intuitivos que redundem no aprimorar de cada clube, de cada federação e sumamente de cada geração de desportistas angolanos, cujas carreiras merecem passar a ser escrutinadas para se acabar com o ‘igualitarismo’ que mina a distribuição acertada do orçamento do desporto angolano.
Pois, o Director Nacional do Desporto merece estar na discussão da partilha dos recursos, a cada ano. É preciso separar-se o trigo, do joio; por exemplo, os desportos de luta têm-se visto aflitos para crescer, ao contrário do ciclismo, ou do voleibol, que estão a voltar a dar sinais vitais.
O atletismo que gasta talvez mais numa São Silvestre, do que em competições locais, regionais e nacionais da modalidade, é outro paradoxo, entre tantos outros que tem desenvolvido o parque desportivo nacional, quantas vezes ao desabrigo das normas e regulamentos.
Essas situações criam desequilíbrio na medida em que o desporto requer que seja dado a cada um segundo a sua capacidade, sim, mas também segundo o plano estratégico que cada modalidade deve passar a ter em Angola, definido em conjunto pelos agentes desportivos implicados eo o MINJUD como actor principal, para se adequar aos angolanos, os desportos segundo as raízes e afinidades existentes, ou que se queiram cultivar.
Assim antevejo que o director terá ainda a prerrogativa de meter todos os agentes ou Partes, ao molhe, chamando as associações, assim como as individualidades que possam integrar ‘trabalhos de campo’ e ‘task forces’ que se ocupem de levantamentos e opiniões sobre os quais se construa, por fim, um pensamento único e nacional que constará das visitas de ajuda e controlo que deviam ser típicas da agenda e do calendário da Direcção Nacional do Desporto.
Portanto, como renovada contribuição ao processo, após a ressuscitação do Desporto Escolar, e do Director Nacional do Desporto, espero que não seja mais preciso ir ao palácio, nem chorar, para poder-se mamar também. Só que devem mamar consoante trabalharem...
ARLINDO MACEDO

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