Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

2019 Ano Zero da reconstruo nacional do desporto

07 de Fevereiro, 2019
Angola não está a perder uma única oportunidade de estar sentada à mesma mesa que a CPLP e a SADC para falar de juventude e desporto, o que é sempre uma oportunidade de estarmos em todas e não sair de lá de mãos vazias.
Recorda-me um episódio, em Janeiro do ano passado, à margem de um treino dos “Palancas Negras”, em Marrakech, no Marrocos, e em conversa com diplomatas nossos, ouvi que, a dois meses dali, ia haver uma ronda da comissão governamental mista Angola-Marrocos, sendo o desporto um dos domínios que não constava da agenda bilateral, para pasmo meu. Marrakech tem a melhor academia desportiva de África e anualmente acolhe conferências e estágios, inclusive de muitos campeões africanos, como a nossa antiga judoca Maria de Fátima ‘Faia’.
Antes disso já Angola está a militar numa das mais importantes comissões mistas que o país tem, Angola-Espanha, sem que até hoje haja substancialmente algo a apontar como interesse desportivo partilhado, sinal de que além de não termos o que intercambiar desportivamente, nem ao menos temos a curiosidade de ir aprender porque os espanhóis se tornaram tão bons em desporto nas últimas quatro décadas.
Quando em 1992 se realizaram os Jogos Olímpicos de Barcelona e Angola teve montra mundial pela primeira vez, havendo realmente alcançado grande impacto visual no Planeta, nomeadamente ao jogar competitivamente com o ‘Dream Team One’ de basquetebol masculino e depois derrotarmos a anfitriã Espanha, foi uma festa para a geração angolana de ouro sob o comando do Professor Victorino Cunha, mas foi maior a festa espanhola no final, pois haviam querido os jogos precisamente para mostrarem a evolução tecnológica e desportiva do país, que até hoje continua.
Mas apesar de ser a primeira potência desportiva da Europa ocidental, tendo igualado ou já ultrapassada à Alemanha, França e Reino Unido, assim como aproveitando a nossa semelhante linguística, a Espanha continua ali, brilhando desportivamente, e nós orgulhosamente impávidos e serenos com isso. Talvez isso explique porque o desporto nunca entrar na agenda bilateral de Angola, seja com a Espanha ou Marrocos; de resto, quem como nós desperdiça a proximidade com Cuba e o seu desporto, bem institucionalizado e servido, é porque literalmente quer dar mostra de não ter nada a beneficiar, para não dizer a aprender.
Falar destes nossos desperdícios traz-me a recordação de quando, até há poucos anos, a Embaixada da Alemanha em Luanda oferecia cabazes cheios de bolsas para técnicos em todos os desportos e idiomas que nos eram próximos, mas poucos aproveitavam e muito se desperdiçou, pois, essas bolsas deixaram de ser dadas. Ainda assim, foi na Alemanha que, em começos dos Anos 80, se formou a primeira geração de treinadores angolanos de atletismo, andebol, basquetebol e futebol, que haviam guindado o país à primeira explosão em todos os desportos, como se nunca antes tivéssemos tido recreio.
Os cursos não eram dados em português e para os angolanos isso é um quebra-cabeças, pois só nos sentimos dimensionados pelo espaço lusófono e então, só em português parece que nos entendemos, até entre nós (se virmos a frequência com que ouvimos jovens urbanos em dialecto). Vamos ver o que se nos vai oferecer de formação, doravante, graças ao envolvimento pessoal da Ministra da Juventude e Desporto, Dra. Ana Paula Sacramento Neto, quer na CPLP, quer na SADEC.
Ainda antes de abrir o salão ao tema concreto de hoje, queria aproveitar para sensibilizar cada leitor, ainda jovem ou já pai, para se iniciar em várias línguas, nacionais e estrangeiras, até mesmo mandarim, mas primeiro francês e inglês. Ali, já fora das nossas fronteiras, há outros povos, vizinhos, com quem podíamos jogar mais vezes à bola, mas com quem poucas trocas fazemos porque eles só falam francês e inglês.
De facto, os angolanos são tendencialmente uma minoria entre funcionários internacionais, diplomatas ou conferencistas nos foros e associações internacionais onde não se falar português, mas os nossos limites não devem ficar nos PALOP e na CPLP; senão ficamos a ver bilhas. Recordo como Angola perdeu uma receita mensal arredondada de mais que um par de milhões de dólares, em virtude dos enviados do nosso país não dominarem muito o inglês e não seguirem atentamente o que se discutia, que era precisamente um perda de receita por falta de um par de rádio-ajudas no corredor aéreo internacional; num caso deixara de haver gasóleo para o sistema não arrear, noutro fora o governador quem havia requisitado o gerador que servia o sistema.
Actualmente Angola tem somente um quadro sénior por confederação em África – Pedro Godinho (Andebol), Tony Sofrimento (Basquetebol) e o mais elevado de todos, director técnico da CAF, Raúl Chipenda (Futebol) – e não há mais angolanos nessas esferas porque o domínio de língua estrangeira é para nós como corrida de obstáculos, para outros barreiras; e por causa disso, até simples estágios e trocas de experiências é preciso procurar primeiro por treinadores como Mourinho, mas neste caso esperando até ele voltar a ter clube.
Mesmo sem ser um falante fluente é particularmente importante saber os nomes dos termos técnicos do nosso ‘métier’, usualmente em inglês técnico, pois, o conhecimento dessas expressões é uma porta aberta para o entendimento e algum diálogo. Mas, acresce-se ao nosso défice em línguas, o nosso jeito introvertido, vá lá, ‘low profile’ e retraído, tanto na aproximação quanto no desembaraço dos contactos, levando-nos a perder ‘deixas’ e oportunidades.
Já aqui havia contado a dificuldade que fora para Angola, indicar um treinador de basquetebol devidamente habilitado a treinar em inglês, a pedido de um antigo Ministro Sul-Africano do Desporto ao seu homólogo angolano. De resto, o angolano que desportivamente mais degraus pulou numa organização continental em África, é Rui Campos, actualmente membro do comité executivo da CAF (Futebol).
Outro exemplo concreto da importância primordial do inglês para se encetar uma carreira me África, é Artur Almeida; este actual presidente da FAF já se defende muito bem nos corredores, salas e salões da COSAFA, até à FIFA, prestando contas, intervindo e inclusive privando com Infantino sem a necessidade de um intérprete. Auguramos que estes dois exemplos do futebol contagiem outros desportos e angolanos.
Agora e falando da política real, não estamos a saber aproveitar o suficiente; mas se não for desfaçatez, queria dizer mesmo “não estamos a saber aproveitar (quase) nada”. Espanha e Marrocos, depois de Brasil e Portugal, são quatro exemplos donde não recebemos, nem damos ajuda desportiva, mas essas parecem ser as melhores parceiras desportivas que Angola podia ter se quisesse.
Por outro lado, as relações multilaterais nem sempre são o piquenique em que cada país leva algo para oferecer; podem ser como o almoço em casa de quem não está a ter a ajuda de ninguém. Não passam do traçar de linhas de força, sendo depois precisas forças para se seguir esse traçado e aí entram as sinergias, logo, primeiro que tudo, é preciso haver mais empatia e diálogo intra-institucional no desporto, para que os agentes desportivos se sintonizem e tenham estratégia comum.
De outra forma, não vamos passar do nível diplomático desportivo das questões e dos Parceiros, vivendo numa espécie de turismo de conferências e trocas de galhardetes e de encómios que desportiva e activamente não nos acrescentam algo que se veja, surta efeito ou cure a nossa acentuada crise, já não só de resultados desportivos, mas também de uma Academia do Desporto.
Ainda assim é muito importante haver políticas e soluções para a juventude, razão que acabou de levar Angola à reunião familiar da Lusofonia. O tema de fundo é a Juventude e não exactamente o seu desporto; só espero que fique recordado o que recentemente havia denunciado a Secretária de Estado da Juventude, Guilhermina Fundanga, quando confessou que haviam ficado mal-parados mais de 300 milhões de dólares de financiamento a projectos jovens. De facto, mais pareceu um investimento à delinquência e fraude empresarial...
Assim é de se desejar que em 2019 haja mais participações em conferências, a ver se nos movimentamos mais, e haja sobretudo controlo na alocação de verdadeiras pequenas fortunas para projectos jovens sem utilidade pública e que ainda beneficiem da impunidade, pois aquelas mais de trezentos milhões de descaminho teriam feito melhor ao país servindo ao desporto. Já basta este ficar com menos de 30 por cento do orçamento do sector...
Se está mesmo declarado “2019 Ano da CPLP para a Juventude”, vamos acreditar no slogan para ver as contribuições que o Executivo vai dedicar aos jovens, e talvez ao desporto, conforme é esperado ver-se e ouvir do próprio MINJUD. Segundo as notícias, o nosso objectivo é “reforçar o potencial transversal das políticas da juventude no plano nacional”, então o desporto é uma dessas vias, particularmente a formação técnica desportiva e em gestão e administração do desporto.
\"O ano da CPLP para a Juventude pretende fortalecer a participação efectiva dos jovens da comunidade no planeamento, implementação, monitorização e avaliação das políticas de desenvolvimento, designadamente, no quadro da realização bem sucedida dos ODS\", escreve uma nota do Ministério da Juventude e Desportos. Aí é que a porca pode torcer o rabo, como se diz.
Ora, os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são uma agenda mundial adoptada durante a cimeira das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em Setembro de 2015, que se compõe por 17 objectivos e 169 metas a serem atingidos até 2030. O mesmo documento afirma que, segundo o sector empresarial, os maiores desafios relacionados aos ODS são o estabelecimento de parcerias, a definição de indicadores e a definição das suas próprias metas. Quais são os de Angola?
Para podermos compreender os ODS primeiro devemos entender o que são os ODM (Objectivos de Desenvolvimento do Milénio). Estes objectivos foram estipulados pelas Nações Unidas, no dia 8 de Setembro de 2000, com prazo até 2015, e na altura foram adotadas pelos 191 estados membros. Hoje o prazo foi vencido, faz já quatro anos, e os objectivos até 2015 eram erradicar a pobreza extrema e a fome; haver ensino primário universal. Ora, só por aqui já vemos o pouco que se fez.
Prosseguindo, os restantes seis ODMs são, nomeadamente, promover a igualdade do género e transferir poder ou ‘empoderar’ as mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental; desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento. Bem, parece nem haver melhoria da nossa nota.
Para concluir, se “2019 é o Ano CPLP da Juventude” deverá ser também um ano Zero em prol da própria reconstrução nacional da Juventude e Desporto.
Arlindo Macedo

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