Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

aqui e agora que importa

06 de Setembro, 2017
Afim de se ganhar no desporto uma aposta do tamanho de “melhorar o que está bem e corrigir o que esta mal” vai ser preciso um pequeno vendaval nos usos e práticas condenáveis do ‘modus operandi’ da gestão do sector. Isso quer dizer ainda que valerá pouco querer melhorar no ministério se, entretanto, este não emendar a sua relação metodológica com os desportos, nem obtiver do parlamento políticas mais exequíveis, e que obriguem a fazer-se o investimento humano e cultural cuja rarefacção tem condenado o sector.

Um país a resvalar a olhos vistos para a monocultura desportiva do futebol não é um país desportivamente normal, sobretudo quando o próprio futebol já não tem mais a sua cultura – daí a falta de vigor logo na base, o futebol jovem – ao mesmo tempo que às crianças falta a cultura infantil do atletismo – aproveitando o factor natural de as crianças correrem, saltarem e arremessarem coisas – sendo portanto compreensível porque é que hoje, os nossos futebolistas nem direito sabem correr.

Mas nem tudo o que é preciso melhorar tem a ver com os métodos ou a técnica. A legislação não tem ajudado a fomentar o desporto, nem a nascer novos emblemas. Ao que sei, o desporto nos municípios nem parece que este costumava ser um país de campeões. Sem os subsídios chegarem às bolas, balizas e tabelas para poder haver jogos colectivos na modalidade, nem monitores a orientar, vai ser difícil despertar o desporto na Angola profunda.

É imperativo aligeirar a legislação que permite a criação de agremiações recreativas locais, como seja um grupo recreativo, sendo que ao mesmo é garantido o direito de se inscrever nas competições federadas. E que, ao contrário do que determina presentemente a lei, possa o grupo ter apenas um desporto, ou somente uma categoria para poder iniciar.

Se forem dadas as condições de base para o desenvolvimento local de modalidades desportivas sugeridas, até, pelas condições naturais e outras particularidades que estimulem desportos menos correntes do que os que se jogam na capital e litoral – a luta catch, o tiro com arco, a pega a cavalo, a canoagem, etc. – e que deviam constituir uma preocupação das entidades que devem fomentar localmente o desporto, mas não vemos os fomentadores a chegar até tão fora da cidade.

Sendo mais fácil deixarmos as coisas suceder ao natural, as crianças a fazer a sua própria bola de trapo e tentar metê-la entre duas pedras a demarcar uma baliza, só nos leva a poupar despesa que nos há-de prejudicar a dobrar, pois, não tarda e também será nosso ditado, dizer-se “de Angola nem bom futebol, nem bons atletas”.

Mas a base das nossas carências tem hoje um factor mais sério ainda que as falhas de legislação ou de orientação desportiva do país; os recursos humanos, esses necessários professores do desporto, são a principal condicionante do país neste momento. O país está sem treinadores e os que há também é preciso modernizá-los, pois um país que despendeu tantos em infra-estruturas, tem igualmente de acariciar as estruturas, ou o projecto foi falho. E tem sido, a julgar pela alienação vertiginosa e cada vez mais indisfarçável do património público desportivo, em grande parte dos casos a exigir uma reversão da situação de apropriação.

Se o próximo governo revir a alienação do património do estado, não deve apenas referir-se a empresas públicas, mas também a expropriações indevidas que ocorrerem em relação a infra-estuturas e um património que afinal era do povo, mas em que agora está difícil o povo aceder, desfrutar e realmente treinar o desporto que nos foi prometido e como havia sido prometido.

Obter isto não é pedir demasiado, porém, no desporto angolano actual há mais o que corrigir, do que a poder melhorar-se. Os últimos resultados desportivos estão a falar por si e não é uma questão de transição de gerações, mas de condição de sucessão geracional, pois as camadas jovens vêm sendo enfraquecidas pelas políticas internas dos clubes, cujas competições nacionais de jovens mostram bem e a cada ano, como a casa vai.

Há uma crescente redução de atletas praticantes, de treinadores no activo e de emblemas capazes de sobreviver à sofreguidão de gastos que conscientemente patrocinam a bem de uma ou duas modalidades, em desfavor das raízes e cultura desportiva dos clubes.

A base de tudo isso não é apenas de ordem política, ou metodológica; existe um poderoso complexo de impedimentos que já criaram caroço, a ponto de hoje ser um bico-de-obra encarar no desporto este desafio que paira no ar para “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”.

Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal é um desafio bem lançado à sociedade angolana que inclui naturalmente políticos, deputados, agentes da cultura e do desporto, tendo estas últimas a virtude de poder gerar espectáculo, área que os analistas consideram ser, a par das energias limpas e da agricultura, os únicos três sectores em que África e a sua juventude não precisam de investimento estrangeiro.

Cingindo-nos ao desporto, cada vez menos espectacular dentro de portas, é cada vez mais obrigatório assinalar alguma exemplaridade que há, presentemente, na area do andebol, onde o país tem sabido salvaguardar o ‘know-how’, isto é, o conhecimento adquirido. O mesmo não tem sido visto nas damas de companhia daquele, para mim, verdadeiro desporto-rei em Angola: o jogo de Sete.

As duas damas de companhia da rainha de facto eram sociologicamente as preferidas da nação, até se começar a fazer luz na sociedade aquando da campanha para a emancipação da mulher angolana, depois da igualdade do género, o que saltou do pressuposto politico, para a realidade de facto e registou-se uma explosão no desporto femininos dos Anos 80 e 90 que catapultaram a mulher, diria as raparigas ainda, para a prática do desporto de rendimento. Se bem que dali para cá, morreu o desporto escolar e reduziram significativamente os números, clubes houve, como Primeiro de Agosto, Petro Atlético e Académica e Maio, em Lobito e Benguela, que trouxeram qualidade, apesar da redução da quantidade. E disso tem vindo a sobreviver o andebol.

É de realçar que aqueles clubes, que criaram uma espécie de regime de academia nas suas fileiras, têm uma aposta no escalão juvenil, de fazer inveja ao basquetebol, futebol, ou mesmo hóquei em patins, para falarmos de desportos colectivos e que empregam maior massa de praticantes.

Fiquei pasmado ao saber que presentemente em Accra existem mais de 500 academias de futebol. Isso significa que não é tão caro fazer desporto de formação, mas se os clubes alijam essa carga para pretender tornar-se solventes, viáveis e estar de pé, saibam que é mais prejudicial o que daí advirá, do que aquilo que julgam que perdem por ter muitos putos em actividade.

É nesses viveiros que está a riqueza efectiva dos clubes, os seus atletas, mas que na sua maioria os dirigentes ainda não mostram suficiente sensibilidade para julgar, valorizar e equacionar acertadamente. O mais de meio milhar de academias, só da capital ganesa, são a prova de que uma legislação desportiva mais inclusive poderá redistribuir pela comunidade, as faltas de iniciativas a precisar de combate.

Enquanto ao andebol se oferece em Angola melhorar o que já nos oferece, lá o basquetebol e futebol precisam primeiro de olhar mais pelas suas proles, afim de garantir que os nossos jovens se comecem a exponenciar e crescer como desportistas com bases e uma carreira pela frentes. No entanto há-de se impor não aceitar-se renovar na continuidade, aquilo e quem estiver mal.

Não podemos continuar um país de espectadores indispostos com o espectáculo. Nem permitir que os insólitos do nossos desporto progridam e se multipliquem, e ainda desonrem as tradições do nosso desporto, outrora de facto glorioso. E doa a quem doer.

O futebol está a fazer um trabalho de contenção na desgraça, tanto mais agora que obtém um passé para irmos medir os nossos jogadores do ‘Girabola’ com outros congéneres de África, em Janeiro, no CHAN, no Quénia. Seja como for, desde já se nos impõe valorizar que, apesar de todas as dúvidas e amarguras, a nau Angola já está nas águas do estuário do CHAN. Com parabéns divididos também entre a direcção da federação e o Petro-Atlético, quem cozinhou um arranjo, quer contratual quer técnico, para o técnico Beto Bianchi segurar dois lemes de uma assentada. Falaram tanto, mas o brasileiro trouxe-nos a Nairobi e tem o Petro em destaque no Girabola…

Já o basquetebol, parece aos olhos de muitos a querer dar mostras de ter encontrado uma primeira solução, revitalizando a direcção técnica da federação, que formata a projecta a modalidade, escolhendo para seu cabeça, o outrora seleccionador e também campeão africano de selecções e de clubes, Raúl Duarte.
A julgar por conversas que não ficaram apagadas, sou hoje daqueles que passou a acreditar que a nossa bola ao cesto depressa reencontre a tranquilidade para nos levar de novo a jogos olímpicos, pan-africanos, da SADEC, CPLP e PALOP, onde se deseja poder estar, amadurecer e renovar a frescura do nosso basquetebol, tão apagado na maioria das frentes e com os anos contados, caso se mantenha neste declive actual.

Os longos anos que intercalam a época em que Victorino Cunha traçava a rota do basquetebol e aqueles marcados depois pelo estranho ocaso do então esplendoroso treinador Nuno Teixeira, quando passou a director técnico da FAB e gozou do mais longo consulado no posto, são os traços do tempo em que nos transfigurámos pateticamente, mergulhados em um desnorte com forte cumplicidade de outras altas esferas que ninguém sabe se emudeciam, se fingiam que não viam, mas a derrocada desportiva do país disto deriva, de facto.

A fusão recente de dois seleccionadores concorrentes, Jaime Covilhã e Gualberto Paquete, numa só dupla técnica, não voltou do Mali com mais do que o primeiro dos últimos lugares. O que falhou em Bamako vai naturalmente além do desempenho dos técnicos. Vais ao planeamento pouco correspondido e sobretudo à exaustão do banco, sem novas atletas da mesma igualha, pois as sub-17 e sub-19 de Angola, não estão a reflector a riqueza que já houve nas camadas jovens e isso tem explicações, umas sociológicas, mas outra e mais fundamental ainda, de atenção.

A leitura final que posso fazer é a de que as disputas intestinas havidas na federação de basquetebol nos últimos oito anos, centraram sempre os contendores nas meninas dos olhos que se haviam tornado as selecções seniores feminina e masculina, embora aleatoriamente uma ou outra selecção de Sub desfrutasse de um poucochinho mais de carinho, se os dirigentes sentissem primeiro o cheiro a medalha nessa equipa.

A par disso, nunca tanto como nos últimos quarto anos, se viu tanto antigo seleccionador de basquetebol no desemprego e sub-emprego. E é preciso os dirigentes desportivos saber copiar bons exemplos, como o da real federação espanhola, cujos treinadores devem ter todos emprego e assento num departamento de carácter consultivo e com quem trabalham os seleccionadores nacionais quando empossados.

Ninguém deve ser deixado na ociosidade, pois o desporto é dos sectores com mais vastidão de emprego e especialidades. Esse é também o caso da federação de França. No intuito de criar emprego para os seus nacionais, mas também de o sir desenvolvendo, são mandados regularmente para o estrangeiro técnicos no desemprego, mas que aceitam trabalhar em protocolos criados ao nível de federações, ou de programas de ensino do desporto nos liceus das antigas colónias francesas, das Antilhas ao extremo Oriente.

Acentuei a vertente da cooperação por ter por referência um episódio em que na década passada eu pudera testemunhar o insucesso do ministro sul-africano do desporto no dia em que abordou o seu homólogo angolano e pediu-lhe apoio para no nosso país arranjar um treinador de referência para melhorar e desenvolver o jogo dos sul-africanos. Bem, tudo aquilo acabou em abraços, mas dali não passou.

E foi uma pena, pois Angola só sairia a ganhar disso. Por um lado, o nosso técnico ‘voluntário’ iria abrir caminho à portagem de mais técnicos angolanos. A seguir aos técnicos, a oportunidade de ‘emigrar’ haveria de chegar aos atletas e sobretudo os carenciados juniores angolanos, a quem se abriria uma janela para jogar os minutos que no banco sénior dos seus clubes nem se sentam abrem um lugar.

Mas alguns ainda crêem que seria problemático, dada a nossa relação de antipatia com outras línguas, apesar de vivermos cercados de anglófonos e de francófonos, e com a agravante de que nenhuma dessas línguas se ensina comummente nas escolas angolanas, onde nem sequer ainda se aprendem as línguas nacionais, tão pouco.

A primeira causa gritante de atrofiamento da carreira dos treinadores, árbitros e dirigentes desportivos de Angola – entre outros – tem sido a sua dificuldade de se comunicar com outros povos, culturas e sobretudo línguas; diria que hoje em dia e se houvesse uma olimpíada multicultural de Angola, a língua estrangeira com mais falantes entre nós seria o Lingala. Mas além desta, também Suaíli, Inglês, Francês, Espanhol e, até, Mandarim e Árabe, são cada vez mais ferramentas de trabalho com futuro. E este é outro erro comum que é preciso corrigir.

Assim e como havia titulado, vou terminar: o importante da mudança é agora e aqui seria problemático, dada a nossa relação de antipatia com outras línguas, apesar de vivermos cercados de anglófonos e de francófonos, e com a agravante de que nenhuma dessas línguas se ensina comummente nas escolas angolanas, onde nem sequer ainda se aprendem as línguas nacionais, tão pouco.

A primeira causa gritante de atrofiamento da carreira dos treinadores, árbitros e dirigentes desportivos de Angola – entre outros – tem sido a sua dificuldade de se comunicar com outros povos, culturas e sobretudo línguas; diria que hoje em dia e se houvesse uma olimpíada multicultural de Angola, a língua estrangeira com mais falantes entre nós seria o Lingala. Mas além desta, também Suaíli, Inglês, Francês, Espanhol e, até, Mandarim e Árabe, são cada vez mais ferramentas de trabalho com futuro. E este é outro erro comum que é preciso corrigir.

Assim e como havia titulado, vou terminar: o importante da mudança é agora e aqui.
Arlindo Macedo

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