Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

preciso investir nos reis das pistas

22 de Fevereiro, 2020
A história do atletismo angolano remonta desde o tempo da “outra senhora”. Fazendo-se aqui um paralelismo com o período muito precedente ao da conquista da Independência Nacional do nosso país, a 11 de Novembro de 1975, é fácil depreender que Angola começou muito cedo a dar passos rumo a expansão da modalidade, forjando atletas que se revelavam desde já como referências a nível de provas de fundo e meio-fundo.
E, como não podia deixar de ser, a São Silvestre de Luanda, a tradicional corrida de fim-de-ano, que se disputa no país desde o longínquo ano de 1954, é uma das montras do atletismo que, desde muito cedo, começou a fazer despontar talentos nacionais.
Embora em 64 edições já disputadas o domínio da prova, que corre por várias artérias da capital angolana no último dia de cada ano, tem sido de atletas estrangeiros, sobretudo etíopes, os corredores nacionais têm dado alguma réplica.
Os atletas da Etiópia totalizam 20 conquistas, contra dezassete de atletas de Angola. As demais 27 edições tiveram como vencedores corredores portugueses, sul-africanos, zimbabweanos, moçambicanos, assim como fundistas da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), Quénia e Eritreia, respectivamente. Com se pode depreender a São Silvestre é uma prova com cariz internacional.
De 1954, altura em que se disputou a sua primeira edição até os dias hoje, Isidoro Louro (três vezes vencedor da prova e que abriu a senda dos campeões), António Esperança (quatro), Joaquim Morais e João Ntyamba (duas), Upanga Holua, Aurélio Mitty, José Ndala, Francisco Caluve e Simão Manuel e João Alexandre (uma cada), foram os angolanos que ousaram também a subir ao pódio. A nível feminino, pode se destacar nomes como os de Ana Isabel, conhecida como “gazela” do atletismo huilano, Ernestina Paulino, entre outras, que também já venceram esta prova que já foi apelidada por muitos de Demóstenes de Almeida, em homenagem a figura de um santomense de gema, que emprestou a sua vasta experiência ao nosso atletismo.
É sublime aqui destacar também que ao longo destes anos províncias como Huambo, Huíla e Bié converteram-se em verdadeiros viveiros do atletismo nacional, forjando corredores de referência obrigatória, mas que depois acabam por zarpar para “clubes grandes” da capital do país, Luanda, como 1º de Agosto, Petro, Interclube e Kabuscorp do Palanca, este último que já apostou também na nata estrangeira.
Porém, além de alguns nomes sonantes que já foram mencionados e que fizeram parte da elite de atletas nacionais, que já subiram ao pódio da São Silvestre, há no nosso mosaico desportivo outros que ajudaram a elevar o nosso atletismo além-fronteiras.
Barceló de Carvalho, que é conhecido nas lides da música angolana também como “Bonga Kwenda”, João Ntyamba, António Andrade, Paim, João Teixeira, António Andrade, Tiago Tchingui, Bernardo João, Augusto Diogo “Seco” e outros juntam-se nesse carrossel de antigos corredores, que elevaram o nome da modalidade dentro e fora das nossas fronteiras. E por falar nessas nomes sonantes, nunca é demais lembrar o facto de Bernardo João ser hoje o líder da Federação Angolana da modalidade, enquanto a “gazela” do atletismo huilano (Ana Isabel) dirige a Associação dessa província.
Outro facto relevante vai para as acções desencadeadas na Huíla e Bié por Augusto Diogo “Seco” e Tiago Tchingui. O primeiro, nas vestes de treinador, vai sendo responsável pelo surgimento de vários talentos na nossa praça, ao passo que o segundo que além de criar a Escola Boa Esperança na província situada no coração do país, é promotor do Projecto “Tulupuki”, expressão da língua umbundo que significa “vamos correr”, que visa promover a prática do atletismo no seio da juventude.
Contudo, é ponto assente que não basta algumas acções desencadeadas aqui e acolá. É importante também que o próprio Estado angolano, os Governos provinciais, o empresariado e todas forças vivas da sociedade emprestem o seu contributo para o atletismo, de formas a que a modalidade possa dar passos mais firmes.
Nesse quesito, vale ainda lembrar que o atletismo angolano já forjou também talentos, que viriam a consagrar-se campeões mundiais, particularmente na vertente de atletas adaptados. Nesse particular, José Armando Sayovo surge como uma referência obrigatória, tendo inclusive se criado em sua homenagem uma Taça com o seu nome, que, infelizmente, não se disputa há três anos, alegadamente pelo período de aperto financeiro que assola a maior parte das economias mundiais, sem escapar, naturalmente, a do nosso país.
Não obstante isso, é preciso investir-se mais em áreas como as do salto a vara, o salto em altura, o salto em cumprimento, os arremessos, de peso e de dardo, para que efectivamente continuem a surgir “reis” nas pistas do nosso atletismo. Mas, para tal, tem de fazer mossa ao velho aforismo popular, segundo o qual enquanto há vida, há esperança e trabalhar-se com afinco, para que o atletismo angolano se mantenha no lugar de destaque que sempre mereceu. Bem-haja, para o nosso desporto e para que o nosso “sprint” continue a dar cartas…
SérgioV. Dias

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