Jornal dos Desportos

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Opinio

A (in) eficcia do VAR

22 de Junho, 2018
O VAR, ou, se preferirem, vídeo-árbitro, é a grande novidade do Campeonato do Mundo, que decorre na Rússia, cuja tecnologia foi testada no Mundial de Clubes, realizado em Dezembro do ano passado no Japão. Quanto à sua eficácia está-se por saber. Talvez no fim do torneio possamos ter uma noção mais exacta, sobre as vantagens e desvantagens da sua introdução nos jogos de futebol. Mas fique, desde já, explicito que tem causado algumas nuvens cinzentas.
Pois, temos assistido ao recurso sistemático ao vídeo-árbitro a seguir a um determinado lance duvidoso. Penáltis foram marcados após consulta a esta ferramenta tecnológica, e golos também foram anulados. Passasse que ocorrem outras situações que dão lugar a dúvidas, que acabam por passar no barulho. Um exemplo claro, foi o empurrão a Miranda do Brasil, no jogo com a Suíça na primeira jornada.
Escapa também a sensação de que o recurso ao VAR, depende muito do bom humor do árbitro em campo. Houve, pois, situações em que o homem do apito ignorou completamente os apelos e as reclamações do banco da equipa que se achou lesada. Neste aspecto não sabemos, honestamente, o que recomendam as regras da sua utilização.
O que se espera(va) na verdade, é que este instrumento viesse a facilitar o trabalho dos árbitros em campo, e livrar as equipas de actos de sabotagem deliberados, e não beneficiar alguns em detrimento de outros. As inovações que se introduzem numa ciência devem ser, à partida, para facilitar as coisas a todos os seus actores.
As inovações no futebol não vêm de hoje. Remontam dos anos da sua invenção. A própria figura do árbitro, tão importante, surgiu muito depois. Por muito tempo, o árbitro de futebol foi considerado uma figura secundária, sendo que só com o passar dos anos, observou-se que o árbitro é a pessoa que, realmente, podia dirigir uma partida.
Antes, era o senso comum dos jogadores que dirigia os jogos. O que vale é que, à época, existia humildade entre os jogadores, e caso alguém gritasse que havia ocorrido uma falta, todos paravam, dizendo em coro: pára o jogo! pára o jogo! Um ou outro podia reclamar, mas o jogo acabava mesmo interrompido, porque ninguém mais corria atrás da bola e o senso comum prevalecia.
Sendo que com o passar dos anos, o senso comum já não garantia que as regras fossem cumpridas pelos atletas, foi criada, em 1881, a figura de árbitro. Antes disso, contam os manuais de futebol, quem cumpria este papel era uma comissão, que durante as partidas se posicionava numa tribuna, intervindo apenas no jogo, mediante a reclamação de uma das equipas em campo.
Portanto, todas as inovações que a modalidade registou ao longo dos tempos, surgiram apenas para a sua melhoria e evolução e não para contrariar algo já consolidado. O apito, por exemplo, surgiu muito depois, sendo que antes era aos gritos que o árbitro orientava o jogo em campo. Em resumo, o futebol não surgiu como é hoje. Tem muito mais que se lhe diga, até ter assumido o actual padrão.
Por exemplo, os cartões amarelos e vermelhos, também ligados ao serviço de arbitragem, e criados pelo árbitro britânico Ken Aston, só começaram a ser utilizados, para sancionar jogadores faltosos, no Mundial de 1970, no México. E até hoje continuam a ser de grande serventia. Queremos que o VAR também seja de grande utilidade, e não um instrumento auxiliar reprovado.
É certo que, com a evolução da ciência e tecnologia, se procure inovar cada vez mais, quanto mais não seja uma forma de tirar sobrecarga ao homem. Mas as invenções devem convencer pela eficácia e consistência. Inovar só por inovar pode ser nada. Basta-nos, se calhar, o exemplo da maldita \"morte súbita\" ou \"golo de ouro\", que nasceu já condenada à morte.
Até ao final da prova muita coisa, boa e ruim, ainda vamos ouvir sobre a prestação do VAR. No Brasil já muitos abominam este termo, talvez no Irão também. Embora no caso do golo do Irão, anulado no jogo contra a Espanha, nos pareça não haver motivo para reclamação. Estaremos atentos ao resto de reacções sobre o VAR.

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