Jornal dos Desportos

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Opinio

A aposta feita nos estrangeiros

12 de Maio, 2018
Para abordagem de hoje desta rubrica nos propomos a falar sobre a aposta dos clubes e das selecções de futebol recair, muitas vezes, para técnicos estrangeios. É uma situação que tem sido recorrente e daí a necessidade de se perceber, na sua essência, as razões que levam as direcções de clubes e o orgão reitor do desporto-rei a optar por essa via. Não faz muito tempo, ainda, que vimos a direcção do Atlético Sport Aviação (ASA), cuja equipa principal de futebol viu um percurso de 39 anos interrompido no Campeonato Nacional da I Divisão devido a época atribulada que teve em 2017.
Apesar de enfrentar, nesse momento, a pior fase de sempre da sua história, fruto do \"aperto\" da crise financeira que leva o clube a um período de mais de um ano sem salários, o grémio aviador contratou recentemente o técnico português José Dinis.
A contratação do técnico de 60 anos que há uns anos já esteve à frente dos destinos do ASA, deixa divididos os aficcionados e dirigentes do clube. Uns eram a favor da continuidade do técnico Paulo Alves “Paulão” e outros pela contratação de um novo.
Foi na sequência disso que num âpice a direcção do clube do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro optou por voltar a selar o “enlance” com José Dinis seis anos depois, que de resto conhece bem o grémio aviador e que nesta aventura surge com dois adjuntos. O treinador português assinou um contrato válido por uma época e outra de opção, mas resta saber até que ponto há-de conseguir, nesta “nova aventura” por Angola e pelo clube, materializar o objectivo supremo que passa pelo regresso do conjunto a I Divisão.
Nas hostes do clube o pomo da discórdia surge, sobretudo, pelo facto de a contratação do técnico português obrigar a dispensar somas em divisas, que na actual conjuntura convertidas em kwanzas dariam muito bem para suprir muitas das actuais dificuldades.
Essas dificuldades estão consubstanciadas sobretudo nos pendentes ligados ao pagmento de salários de atletas, técnicos e funcionários do clube, que faz muito tempo não vêem um tostão pintado.
E aí se levanta uma questão: vale a pena essa contratação? Se sim ou não, apenas a direcção do clube aviadora saberá dar resposta à altura das exigências por ser ela que gere os activos e recursos disponibilizados para o grémio que até 2017 era, à par do d’Agosto, um dos totalistas do agora denominado Girabola Zap.
José Dinis, que no país treinou já em 2003 o Petro de Luanda, em Portugal orientou em 2016 o Desportivo Vieirense de Leiria, agremiação com a qual iniciara a sua carreira como jogador de futebol na década de 1970.
Além do clube de Leiria, o actual treinador principal do ASA tem o registo de outras passagens por equipas do segundo escalão português. São os casos do Sporting de Covilhã, Varzim, Marco Naval, Feirense, União de Leiria, clube que como jogador ajudou a subir em duas ocasiões à I Dvisão de Portugal.
Apesar da folha de serviço que ostenta na sua carreira, resta saber se o experiente trinador há-de conduzir, de facto, a equipa aviadora neste objectivo supremo traçado pela direcção do clube, que passa pelo retorno à mais alta-roda do futebol nacional.
Na esteira ainda dessa abordagem em relação à aposta que se faz nos técnicos estrangeiros, recentemente o órgão reitor do futebol colocou o “preto no branco” a nível da Selecção Nacional de Sub-17, contratando igualmente um técnico português.
No caso em concreto trata-se de Pedro Gonçalves, de 44 anos, que rendeu no cargo de seleccionador nacional o angolano Simão Languinha. Antes da oficialização da sua contratação chegou a propalar-se na imprensa o nome do ex-internacional Arsénio Cabungula “Love” para substituir Simão Languinha.
Se a aposta no treinador português Pedro Gonçalves foi ou não a mais acertada, o que é facto o presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF) justificou a contratação deste alegadamente por os quadros nacionais se mostrarem indisponíveis para o efeito.Artur de Almeida Silva reconhece a qualidade dos técnicos nacionais, mas argumenta que além de muitos destes não domonstrarem “muita disponibilidade” há ainda pelo meio o facto de em vários casos os mesmos “recearem trabalhar” para o organismo.
O líder federativo admite não ser muito fácil trabalhar para o organismo, dado o facto de as pessoas – e treinadores no caso particular – terem receio de não ser devidamente compensados , daí o recurso recentemente em Pedro Gonçalves, que a seu entender é um quadro que pode ser uma mais-valia que o país precisa para o seu futebol.
“Na maioria das vezes são pessoas que vêm de outras realidades e muito mais evoluídas, para permitir também evoluir no que são os nossos interesses, mas não significa dizer que não temos quadros capazes. Os quadros capazes não estão disponíveis a servir a Federação”, disse na apresentação do novo técnico de Sub-17.
Além dos argumentos expostos por Artur de Almeida e Silva tem se dito também, amiúde, que nos dias que correm a contratação de um técnico estrangeiro acaba por ser, em muitos casos, menos honerosa do que a de um nacional.
A ser verdade isso resta saber se nesta fase em que as políticas cambiais estão bastante complicadas, sobretudo para a aquisição de divisas, se hoje porém a contratação de um técnico estrangeiro em detrimento do nacional torna-se menos dispendiosa ou não.Por outro lado, também já ficou patente, em anos passados, que em muitos casos não se dava o devido valor aos técnicos nacionais, chegando-se vezes sem conta a atribuir somas consideráveis a estrangeiros e aos angolanos valores muito abaixo da média.
E mais: é preciso, em meu entender, valorizar-se mais os técnicos nacionais, colocando à disposição destes condições que lhes permitam realizar o seu trabalho sem quaisquer constrangimentos para que daí depois surjam os resultados.
Também é mister dizer que os maiores feitos do futebol angolano, no caso as qualificações aos Mundiais de Sub-20, em 2002 na Argentina, e de Honras, em 2006 na Alemanha, bem como o título africano da Seleccão de Sub-20, em 2001 na Etiópia, e uma das duas conquistas da Taça COSAFA, tiveram a mão de um técnico nacional.
Foi Luís de Oliveira Gonçalves, actual vice-presidente do Santos FC e ex-seleccionador nacional de Sub-17, Sub-20, Sub-23 e de Honras o obreiro desses feitos. Isso deve ser aplaudido e bem registado por quem quer que seja!!!...
Sérgio V.Dias

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