Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A arte de jogar rasteiro

05 de Maio, 2017
Na última segunda-feira o técnico João Machado, fazendo parte dos obreiros que no passado recente colocaram pedras nos alicerces do nosso desajeitado edifício futebolístico, encontrava-se descontraído no Complexo Desportivo do Progresso Sambizanga, espaço escolhido pelo Movimento Nacional Espontâneo para homenagear as antigas glórias do nosso futebol.

À partida, o momento era de camaradagem e alguma euforia à mistura, pois para lá da medalha José Eduardo dos Santos, que representa uma honra, a ocasião proporcionava também o reencontro de gerações de futebolistas que ontem partilharam o mesmo balneário, a mesma alegria, as mesmas agruras e hoje dispersos pela imensa extensão geográfica do nosso país.

Apenas sorrisos e abraços se previam naquele ambiente festivo. Nada apontava para o azedume da jornada para um homenageado, mais a mais tratando-se do Dia do trabalhador, em que a este cabe o direito de reflectir sobre a sua actividade. Mas, como diz um velho aforismo, que a alegria do pobre demora pouco, João Machado teve apenas alguns instantes para festejar a sua distinção.

Logo a seguir, o seu celular tocou e do outro lado, em tom pouco simpático, soou a voz do presidente do clube, o ASA, de que até aquele momento era treinador principal, a anunciar a sua demissão. Isto faz-se? Ora, que os treinadores no nosso campeonato são banalizados pelas direcções de clubes disto não precisamos explicação adicional. Que são idolatrados quando os resultados surgem e desfeiteados no caso inversivo idem.

Mas, não esperávamos que se chegasse a este extremo que roça os píncaros da arruaça, que mais não é senão a expressão de uma tremenda falta de respeito com quem se celebrou um contrato de trabalho. No Girabola Zap os despedimentos de técnicos, as chamadas \"chicotadas psicológicas\", se preferirem, têm sido em série. Mas ainda assim, tem se observado alguma decência no procedimento, longe do que Elias José acaba de mostrar.

É certo que o dirigente, vai-se lá saber se aconselhado por alguém ou por iniciativa própria, desembaraçou-se em pedidos de desculpas. Isto já foi bom, revela alguma humildade e capacidade de reconhecimento do erro, mas a imagem de João Machado, decano dos treinadores angolanos e com uma rica folha de serviço acabou sempre por sair chamuscada. O desporto apesar do seu espírito competitivo é um mundo de sã convivência que recomenda aos seus actores capacidade de controlo de emoções e uma conduta mais urbana

É isso mesmo. Porque o que faltou ao presidente do ASA foi apenas falta de decoro e controlo das emoções. De resto, é sabido que os contratos de trabalho não são celebrados ao telefone. Se na hora do enlace matrimonial vai-se à mesa para a conversa, o procedimento não havia de ser diferente na hora da rescisão.

Precisamos não perder de vista que o presidente ou o director do clube é alguém que absorveu conhecimentos em matéria de dirigismo e o treinador em matéria de treinamento. Logo, são dois profissionais que devem primar pela cultura de um princípio de respeito mutuo, ainda que as circunstâncias os coloquem na condição de empregador e empregado.

O presidente Elias José, nos desculpe, jogou de forma muito rasteira.

Se o elo mais fraco era o treinador, agora vamos esperar que a equipa desate para os bons resultados, e consiga conquistar posições honrosas na classificação geral. Até porque já começou bem, com a retumbante vitória(3-0) sobre o Recreativo do Libolo. Que não haja mais lamurias. O mau da fita já foi para casa.
MATIAS ADRIANO

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