Jornal dos Desportos

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Opinio

A ausncia do futebol de Bairro

19 de Janeiro, 2016
A ausência, cada vez mais acentuada de talentos que se faz sentir no futebol nacional, continua a preocupar os agentes da modalidade e não só, que mostram estar estarrecidos com o nível e a capacidade de gestão dos dirigentes da maioria dos clubes, que continuam a tratar os escalões de formação como “enteados”.

É assim que as estruturas que superintendem o desporto nacional, no caso o futebol, devem traçar as linhas de acção como forma a precaver-se o futuro, com vista à melhoria do nível e da qualidade do futebol nacional, principalmente a nível das selecções nacionais. Vezes sem conta, nos temos pronunciado sobre a necessidade dos clubes (principalmente os de maior dimensão) criarem condições condignas de trabalho para os escalões de formação, que são a base da sustentabilidade para o futebol nacional e a parte principal da pirâmide desportiva.

Um dos entraves, que contribuí para a escassez de talentos no futebol nacional, estão ligados ao encerramento ou utilização para outros fins, dos campos de futebol que até à década de oitenta, existiam um pouco por todas as municipalidades e bairros, quer da capital do país, como do interior. Na maioria dos países, em vias de desenvolvimento ou sub - desenvolvidos, em que Angola está incluída, os talentos começa(va)m a despontar enquanto crianças, nos chamados jogos de rua ou de bairro, também conhecidos por “trumunos”.

As escolas do ensino regular, possuíam recintos para a prática do desporto, mas foi nos bairros onde a maioria dos talentos saídos desses países, despontou para o mundo do futebol. Nas principais cidades e vilas angolanas, que possuíam campos de terra batida, as crianças e jovens para além de aproveitarem os descampados, também jogavam nas ruas que eram pouco movimentadas em termos de circulação automóvel.

Descalços e com “bolas de meia e de trapos”, com duas balizas de pedra (lembram-se da medição com os pés ou em passos?), jogava-se bons encontros de futebol. Esses, muitas vezes eram observados por “olheiros”, que levavam os jovens para serem trabalhados nos escalões de formação dos clubes, uma vez que os talentos têm de ser cultivados. Nessa época, não existiam em Angola, escolas e academias de futebol para jovens.

No que concerne à capital do país, para as crianças filiarem-se nas escolas e academias para garantir qualidade de trabalho, tinham de recorrer ao apadrinhamento ou a “ajuda” de algum responsável, na maioria dos recintos vocacionados para a prática do futebol, que existiam nos centros habitacionais, que foram transformados em estaleiros e em parques de estacionamento de viaturas e de depósitos de lixo, assim como “cemitérios” para carcaças de veículos.

O caso mais recente, ocorreu com o campo “Deolinda Rodrigues”, ao Bairro Operário, que se transformou num parque de estacionamento de viaturas e depósito de carcaças. Ao confirmar-se o encerramento, que mesmo numa parte ínfima da sua estrutura, acolhia alguns “trumunos” de fim -de semana, está-se a mutilar os jovens, adolescentes e crianças, que naquele tradicional espaço aproveitavam para principalmente aos fim-de-semana e nos períodos de férias escolares, realizarem torneios que ganharam nome a nível da circunscrição e de zonas circunvizinhas.

Com tal procedimento, perante a passividade das autoridades distritais do Sambizanga, que engloba o Bairro Operário, estão a apagar algumas páginas brilhantes da história do também conhecido “muceque Burity”, pois por ali desfilaram nomes ao serviço não só dos tradicionais União Desportivo de S. Paulo e Bangú FC do Bairro Operário, como de outros clubes angolanos e estrangeiros, que fizeram furor.

Quem não se lembra, dos dribles do já falecido Rábida, ou da postura em campo de Nando “Galinha” e Eduardo Cerqueira “Ado”? André Fanfa e Tarzan, que representaram o futebol português, o FC do Porto, Joka Santinho, Aguião, Massandela (um dos mais esclarecidos extremos esquerdo a conduzir o esférico junto da linha), Rui Gomes, Chano e Justino Fernandes, entre outros, também riscaram o areal do “Deolinda”.

É de bom grado saber-se, que depois de incessantes démarches levadas à cabo por homens do futebol, residentes no Cazenga e não só, o campo do “Areias”, foi reabilitado, depois de décadas votado ao abandono. De recordar, que pelo “areias” que era o principal acolhedor dos jogos do famoso e saudoso “Torneio Cuca”, desfilaram vários nomes sonantes que fizeram época no futebol angolano, que tiveram os primeiros contactos com a bola nos campos e areais então existentes nos bairros. Joaquim Dinis “Brinca n’Areia”, Eduardo André, Artur da Cunha, Zarga, João Pequeno, Lourenço Bento, Vai a Lua, Zé Pedro “Zaragateiro” e Cavungi, são estrelas que cintilaram naquele campo.

Os campos da Comissão (Rangel), Rádio Nacional de Angola (junto as instalações da Angola Telecom), dos Lotes (Prenda), da Praça e da PAMEL (junto ao marcado de S.Paulo), do Bukavu (Sambizanga), do O.K. e da Escola 147, deixaram de servir o futebol, utilizados em actividades diversas.
Com essa prática, que tende a adquirir contornos de maior dimensão, os jovens, crianças, adolescentes e velhas guardas, vêem-se privados de levarem à cabo propósitos desportivos.

É preciso, que as pessoas tenham consciência que o desporto desempenha um papel preponderante, no que diz respeito à ocupação de tempos livres, para a juventude e não só, integrando-a em actividades socialmente úteis. O certo é que começam a escassear espaços (incluindo nas escolas e colégios) para que os jovens se deleitarem em actividades desportivas, numa altura em que é evidente a preocupação das autoridades governamentais, em combater a delinquência juvenil e não só, que tende a atingir níveis alarmantes.
Leonel Libório

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