Jornal dos Desportos

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Opinio

A bandeira da So Silvestre

29 de Dezembro, 2018
A corrida de fim de ano presta-se a sair à rua, com ela a emoção de uns, a competitividade de outros, sobretudo a familiaridade de todos, por acharem que está para além do lado da competição, tem outras nuances que podem ser capitalizadas, como a amizade, a camaradagem, amor ao próximo, a solidariedade, enfim, todos esses valores que o desporto encerra, tendo como bandeira, o fair play.
A corrida São Silvestre de Luanda, este ano, regista a sua 63ª edição. Tornou-se, inclusive, tradicional, em que os angolanos nos últimos tempos encontram imensas dificuldades para triunfar. É verdade que perdeu algum fulgor.
Aliás, ao longo desse período, vários foram os anos áureos em que o espectáculo esteve nas ruas de Luanda à solta.
Atletas, como, Joaquim Morais, Bernardo Manuel, António Andrade, João Baptista Ntyamba, Aurélio Mity, entre outros, procuravam em pista a sua competência e logravam convencer a opinião pública do valor que tinham.
Ombreavam, até, com outros nomes do atletismo mundial que à determinada altura, preferiam a nossa São Silvestre, em detrimento da do Brasil, para tentar “garimpar”, dado o “cache” que se praticava.
Estávamos em fase das “gorduras”. Berharnu Ghuirma, Paul Tergat e outros, são exemplos claros. O etíope Ghuirma ousou vencer por largos anos consecutivos, porque não tinha adversários à sua dimensão.
O mais grave é que era um rapazote, com pouco menos de 25 anos e franzino, cuja simpatia na estrada, com a passada de autêntica “lebre”, punha “no chinelo” os seus mais directos concorrentes.
Das cinco vezes que ele veio à Angola, foi quase sempre assim. Não teve oposição. Venceu sempre e dignificou a corrida. Aliás, eram sempre os grandes nomes da actualidade do atletismo que vinham correr, no último dia do ano, nas ruas de Luanda. A apetência dos corredores expatriados espevitava e aguçava os angolanos, que esmeravam-se na preparação, à procura de melhorar as suas marcas. É grande a legião de nomes que vincaram na altura.
Arnaldo Kachiunha, Augusto Diogo “Seco”, Ana Isabel Elias, João Carvalho, Eugénio Catombi, Gaudêncio Hamelay, Rosa Tomás, Antónia Margareth, Pedro Dala, Cambilo Vingunga, Paulo Kintique, José Dala, Leontina Madalena, Teresa Tchiculile, entre outros, que nos primórdios sob a batuta de técnicos, como, Miguel Doxiano, Dorito, Ângelo Amado e outros, fizeram que houvesse continuidade e surgissem valores, como, Avelino Dumbo, Joaquim Chamane, António Manuel, só para citar alguns, que ao longo dos anos tiveram participações notáveis à nível da São Silvestre.
Ana Isabel Elias, a “gazela” do atletismo nacional, actualmente presidente da Associação Provincial da modalidade na Huíla, onde desenvolve um notável trabalho, ousou vencer, inclusive, uma das edições, para além de outras participações de vulto ao lado de diversas “feras”africanas, particularmente, as do Quénia e da Etiópia. José Dala, outro huílano, venceu, igualmente, uma das edições, justificou que se pode apostar na prata da casa.
Os tempos realmente passaram. Hoje, a realidade é outra. Completamente diferente, desde a qualidade da prova, às performances dos atletas que vêm, os incentivos, os patrocínios, enfim, a sua própria magnitude.
Até a visibilidade internacional, em termos de marketing, a corrida deixou de ter e se ainda a tem, é bastante diminuta.
A meio dessa realidade, empresários credibilizados da nossa praça, ainda com alguma bonança nos seus recursos, apostavam por conta e risco, em trazer atletas estrangeiros para os vestir com a sua camisola e correrem em sua representação.
Assim, aconteceu com o Kabuscorp do Palanca, que fez imensas parcerias desse calibre e logrou vencer. Hoje, os tempos são de facto outros, infelizmente, a corrida ficou pobre. Poucos patrocínios e pouca qualidade.
Ela (a corrida) “corre” o risco de valer, apenas, pela sua tradição. O hábito de disputar todos os anos, por ser uma festa popular, em que o cidadão comum “mergulha” para fechar o ano, com a bandeira do desporto.
Tudo o resto, é a satisfação de sair de facto à rua, seja com que atletas for. Venham estrangeiros competitivos e de gabarito ou não, vamos correr a nossa São Silvestre e augurar que se torne grande outra vez. Bem-Haja!
Morais Canãmua

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