Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A crise e o patrocnio

28 de Janeiro, 2019
Por norma as empresas procuram assinar contratos de patrocínios ou estabelecer parcerias estratégicas com os clubes e as federações desportivas, devido a factores como a sua rica história, o seu número de sócios e adeptos, reputação, bem como os títulos importantes conquistados.
Por esta razão é que o patrocínio desportivo vem se tornando numa estratégia de marketing acertada para as empresas visto que ela tem o poder para, entre outros, trazer avultados retornos financeiros, reforçar, melhorar e disseminar a sua imagem, bem como trazer inúmeras vantagens comercias.
As empresas sentem todos os dias a necessidade de dar vida aos seus produtos, bens e serviços; de falar directamente com os seus \"targets\" e desenvolverem uma relação diferenciada e de maior proximidade com os consumidores.
Estudos económicos e académicos convergem no facto de que, nos próximos anos, os patrocínios desportivos terão um grande impulso e impacto nos continentes asiático e africano, por causa das drásticas reduções que as publicidades institucionais e tradicionais vão sofrendo em termos de investimentos, levando as marcas, sejam elas de pequena, média ou grande dimensão, a procurar formas alternativas de comunicação, associando-se a actividades com as quais os consumidores se identificam e que permitem interacção, com destaques para o entretenimento e o lazer.
Quanto à realidade angolana, ela nos mostra que o cenário inspira muita atenção, de tal forma que precisamos, urgentemente, fazer a curva sem no entanto perder o controlo do volante, porque nesta altura nem todas as empresas se sentem estimuladas ou vêem a necessidade de investir, de fazer uma aposta forte em acções que desenvolvam a activação de patrocínios no desporto.
E não se deve só ao facto de estarmos a atravessar, desde 2014, uma crise económica e financeira com pesadas e duras restrições na vida das populações e das empresas, mas também, e em grande medida, por causa dos elevados riscos que os investimentos em patrocínios desportivos acarretam.
Como chegou a me confidenciar um certo gestor empresarial, ligado profissionalmente a uma empresa com tradição em patrocínios desportivos em Angola, investir em patrocínios desportivos é como jogar dinheiro em cima dos problemas!
No limite, o referido gestor chegou até mesmo a afirmar e passo a transcrever textualmente: \" Tendo em vista a falta de profissionalismo com que o desporto é gerido no país, bem como a indefinição por parte do patrocinador sobre os benefícios específicos e mensuráveis que os eventos desportivos lhe possam render, grande parte das empresas patrocinadoras não tem a ideia do retorno sobre o investimento em patrocínio, justificando-os apenas com benefícios genéricos como aumento do reconhecimento da marca, goodwill, etc.\"
E, nisto, assino por baixo! A falta de visão profissional dos nossos dirigentes desportivos, a ausência de métodos científicos para melhor avaliar os investimentos a serem feitos e os retornos a obter, a crassa e propositada desorganização administrativa, com \"michas\" e \"mantodelos\" à mistura, calendários das chamadas altas competições mal programados, estádios e recintos desportivos vazios, estes e outros factores fazem com que os patrocinadores fujam em patrocinar actividades e eventos desportivos, qual diabo que foge da cruz.
E ainda, nesse quesito, e a título de mais um, dos muitos péssimos exemplos estou bem recordado de um ponto de situação bastante constrangedor, arrepiante e vergonhoso apresentado pelo presidente do Comité Olímpico Angolano, Gustavo da Conceição, quando durante uma acção formativa realizada o ano passado, chegou a dizer, de boca cheia, que uma Federação Nacional Desportiva recebeu em forma de patrocínio, do Comité Olímpico Internacional, um avultado fundo financeiro para a realização de um projecto, não chegando sequer a concretizar, manchando a imagem de Angola junto da referida instituição!
Outro problema grave: o \"produto\" desportivo produzido é pobre. Não tem muita qualidade e a maioria dos consumidores do desporto não gostam.
Por isso é que, em vários casos, e sem muito espanto, cheguei a perceber que a escolha de patrocínios feitos por algumas empresas estavam eivadas de motivações políticas e partidárias, atreladas às então famosas \"ordens superiores\", pois, não apresentavam uma clara definição dos objectivos desejados pela empresa patrocinadora e sem um processo de escolha do tipo de desporto.
Por essa razão é que, mais uma vez, me comprometo em artigos futuros trazer de forma pedagógica e didáctica e mais dicas sobre técnicas as ferramentas que ajudam a conquistar a confiança dos patrocinadores em tempos de crise, estabelecendo com os mesmos parcerias e acordos de médio e longo prazo, com vantagens e ganhos recíprocos para ambas as partes, no caso empresas, clubes e federações desportivas.
ZONGO FERNANDO DOS SANTOS *
*Mentor e Gestor Executivo
do Fórum Marketing Desportivo

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