Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A crise e os estrangeiros no Campeonato Nacional

12 de Maio, 2018
Muito se tem falado dos técnicos e atletas estrangeiros que labutam no nosso futebol. Particularmente no futebol. Conforme hoje estão as coisas, em termos de crise económica e financeira, muito se pensava que, em face da escassez de divisas e outros quesitos que, a contratação de atletas e técnicos estrangeiros diminuiria e, a aposta recairia aos nacionais que mostrassem competência e nível.
Mas aqui escrevemos sem chauvinismo e sem xenofobia. Naturalmente que, para mim em particular, a questão tem muito que se lhe diga se nos propusermos a analisar a questão, tin-tin por tin-tin. Ora vejamos: Há cerca de 4 anos que a crise económica e financeira perdura em quase todo mundo e em Angola em particular, onde a movimentação e circulação da chamada “moeda-forte” (o dólar) passou a ser mais restrita e, digamos mais “disciplinada” cujas razões não são chamadas aqui.
Mesmo não tendo lugar aqui as razões desta carência convenhamos que isso influenciou em demasia a desenvoltura do futebol e do desporto em geral, a jusante e a montante que provocou inúmeras fissuras que, hoje por hoje, vêm causando hemorragias tamanhas que podem todavia causar o descalabro, em alguns muitos casos.
Mesmo assim. Mesmo com esta realidade crua e nua, alguns clubes do nosso “association” teimam em se darem ao luxo de contratar quer treinadores quanto atletas estrangeiros, havendo daí, em alguns casos pontuais, ou conflitos de interesses ou mesmo tamanha crise que depois são levadas à outros fóruns, provocando que, clubes angolanos andem na boca e ouvidos do mundo inteiro, infelizmente, pelos mais piores motivos.
O caso do diferendo entre Kabuscorp do Palanca e o renomado atleta brasileiro Rivaldo é dos exemplos mais à mão. Aliás, tem sido na sequência da crise “que estamos com ela” que se calhar (presumo), os pagamentos da dívida não foram feitos de forma atempada. Aliás, José Domingos “Dimas”, um dos dirigentes do clube palanquino, depois da deliberação (irrevogável) da FIFA, veio à terreiro admitir isso mesmo.
Deste modo, este caso parece ser apenas a ponta do icebergue porquanto, casos outros se podem apontar e que mostram o quão paradoxal a coisa é. Vejamos o caso, por exemplo do Atlético Sport Aviação (ASA). Há dias, a imprensa desportiva noticiou largamente que o clube do aeroporto contratou o técnico José Dinis que, por sinal,
volta à uma casa que ele bem conhece por já ter treinado os “aviadores” em anos idos. Até aí parece não haver problemas nenhuns nisso.
O grande choque paradoxal existe, isso sim, no facto de este clube ter tido, na época futebolística passada, problemas mil que, de certeza, terão contribuído grandemente para que a mesma fosse despromovida ao escalão secundário. Falta de pagamento regular dos salários dos atletas, prémios de jogos e outras faltas que levaram inclusive a que, mais tarde, Elias José, o ex-presidente da agremiação, “abandonasse o cavalo na travessia do rio”, ou seja, pedisse demissão, colocando o cargo à disposição. Estranhamente, depois daquele emaranhado de problemas, casos e descasos, a direcção do clube, mesmo com um elevado passivo assumido, contracta um técnico estrangeiro para cuidar de todo futebol e, esgrimir argumentos que levem a “devolução” à fina-flor do futebol nacional, onde, como clube histórico e até então totalista, a par do 1º de Agosto, nunca deveria ter saído.
Outras questões paradoxais assistem-se em vários clubes do Girabola em que, mesmo com imensos problemas, até de pagamento de equipas de arbitragem, possuem nos seus planteis, jogadores estrangeiros.
O caso mais flagrante foi da equipa do Santa Rita de Cássia, do Uíge, despromovida do campeonato maior a época passada que, com imensas dificuldades até para suportar as deslocações, mantinha no seu leque, treinadores e atletas estrangeiros. Uma situação absurda que acabou custando imensamente caro para a agremiação de N’zolani Pedro que se dizia a peito aperto, ser economista e bom gestor….
Os chamados clubes de primeira linha, se dão ao luxo de ter quatro ou cinco estrangeiros no seu plantel. Se assim acontece é porque sabem onde “cavar” divisas para os pagar ou, no mínimo, os acordos contratuais são feitos em moeda nacional, o nosso kwanza. Ainda assim, para os clubes a experiência aconselha apostar nas camadas de formação, em projectos sustentáveis e, depois, colher os frutos…
A nível das nossas selecções nacionais vive-se igualmente isso. Não que se esteja contra a contracção dos técnicos estrangeiros que la estão. Apenas e só para se fazer algumas análises, em função do momento de escassez financeira que se vive e que todos, volta e meia, reclamam.
Quando se contava que, em face destes condicionalismos e tendo em conta os queixumes que a direcção de Artur de Almeida e Silva protagonizava, bradando aos quatro ventos, imensas dificuldades neste capítulo, inclusive as tremuras que se adivinhavam para as campanhas das selecções nacionais em distintas frentes, eis que, foi contratado um seleccionador nacional expatriado que, por sinal, tem vindo a fazer de facto um trabalho vistoso.
O que ninguém contava foi a despedida, sem aviso prévio (?) de Simão Languinhas, até então técnico da selecção de Sub-17. E isso, para contratar, em seu lugar…….um técnico estrangeiro! Isso realmente, ninguém contava. Ninguém contava porque, Languinhas durante o período em que esteve no cargo, passou mal. Nunca lhe foi dado as devidas condições de trabalho. Andava inclusive de “candongueiro” para se deslocar ao trabalho, enfim, foi um consulado sofrível, para agora ser substituído ouvindo pela rádio a sua demissão. Assim mesmo, está bom?!
Vamos ver agora, se o técnico estrangeiro contratado, irá de “candongueiro” do hotel para o campo para trabalhar….
Uma pergunta que não se quer calar é: Se não há dinheiro para pagar os técnicos e atletas nacionais, onde irão tirar as divisas para pagar os expatriados?
Deixemos de brincar aos futebóis. Haja bom senso e mais seriedade!
Morais Canãmua

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