Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A culpa morreu solteira

31 de Março, 2017
Quase não são de levar em conta muitas das conclusões de inquéritos que são mandados instaurar no nosso país quando ocorrem situações que firam pessoas ou que, em casos mais extremos, levem dor e luto em certos lares. Regra comum, o desfecho leva sempre o cidadão a torcer os nariz, em face de escapar a sensação de existir algum \"arranjo\" que ilibe alguns e culpabilize outros. Andamos nesta há muito. Ou seja, por cá a culpa morre sempre solteira.

Por este andar não se corta o mal pela raiz. Incentiva-se a prática de actos de consequências devastadoras quando os culpados se acham inocentados das suas práticas maléficas e os inocentes vão parar aos bancos dos réus. É no mínimo isto que ocorre quando não se faz justiça à medida adequada. quando a verdade é maculada. E, honestamente falando, neste quesito por cá andamos a pontapear a coerência e lisura.

O inquérito mandado instaurar para apurar as causas que estiveram na origem do incidente do passado dia 10 de Fevereiro no estádio 4 de Janeiro, no Uige, foi dado por concluído, tendo as culpas sido assacadas à direcção do Santa Rita de Cássia FC e à Associação Provincial de Futebol local. Ora, estas duas entidades tiveram sim envolvimento directo na organização do jogo, mas tal não significa que sejam únicas responsáveis pelo ocorrido.

Admita-se que pelo facto de a província ter ficado algum tempo sem jogos do Girabola, e sendo aquele o primeiro que se realizava para início de campeonato, tenha havido algum descuido com a organização do mesmo, sobretudo no que a questão de segurança diz respeito. E quando falamos desta componente envolvemos quer o clube anfitrião, quer a APF, quer ainda as entidades policiais.

Por que razão só o clube e a Associação Provincial de Futebol é que têm culpa no cartório? Que papel afinal é atribuído as forças policias na organização de grandes eventos com particularidade de atrair enchentes, como espectáculos músico-culturais e actividades desportivas? Não é sua responsabilidade a salvaguarda de vidas do público assistente? Na verdade, a situação ocorrida no Estádio 4 de Janeiro está muito mal contada, porque desde o primeiro dia que as informações que escapam ao público vêm sendo bastantes desencontradas, com versões diversas. Dai que o inquérito devia ser mais sério e profundo nas investigações, ainda que para tanto levasse mais tempo. Pois mais vale perder-se tempo e se apurar a verdade, do que exigir resultado imediato, mas pejado de inverdades.

Fala-se num mau relacionamento entre a direcção do Santa Rita de Cássia e da Associação Provincial de Futebol do Uige, em face do qual a venda de ingressos não tenha sido melhor coordenada, dando origem a um aglomerado de gente na bilheteira no próprio dia do jogo. Terá sido isto que resultou no motim registado para que 17 pessoas encontrassem a morte e dezenas de outras fossem parar aos cuidados intensivos?

Como se não bastasse, há também nas conclusões algumas contradições. Diz-se que o facto de os ingressos não terem sido vendidos com antecedência e fazê-lo no dia do jogo e no interior do perímetro de segurança policial provocou o fluxo. Mas fala-se também na situação ter tomado contornos alarmantes pela não abertura de outros acessos do estádio. Ora, aqui fica-se por saber se as mortes resultaram do afunilamento na bilheteira ou na dificuldade de ter acesso ao recinto de jogo já na posse ingressos.

Portanto, para nós a situação está pouco clara, pouco explicita, pouco esclarecedora. O Santa Rita de Cássia e a APF do Uige podem ser tomadas apenas com a parte mais frágil da corda, onde esta acabou por rebentar, porque se a questão for investigada mais a fundo o resultado será muito outro. E quanto à situação de intoxicação que se falou, o que foi apurado? Nada. O sensato, se calhar, mesmo intrigando as famílias lesadas, seria anular o inquérito para que não fossem uns a sair bem na fotografia e outros chamuscados.
Matias Adriano

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