Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A culpa poder morrer solteira

31 de Março, 2017
O resultado do inquérito da tragédia do Uíge já é conhecido, e com ele os responsáveis. Segundo a investigação, o clube, Santa Rita, a Polícia Nacional, a empresa organizadora do jogo e a Associação Provincial de Futebol são todos responsáveis pelas mortes dos adeptos, situação que ganhou uma dimensão internacional.

Se não tivesse havido quaisquer mortes, o mais certo era ficar-se pelo puxão de orelhas, porém houve 17 pessoas que perderam a vida, o que quanto a nós, é matéria para o Ministério Público entrar em acção.

Os dados são públicos, e mesmo que não houvesse tal inquérito, havendo percas de vida, é o suficiente para o Ministério Público investigar.

Há matéria para o Ministério Público colocar mão. De uma vez por todas, os responsáveis do desporto têm de assumir que estão no exercício de uma actividade séria, que exige todo o cuidado pelos riscos que essa actividade comporta. É velha demais para ser recordada a ideia de que o futebol hoje é um negócio porque dele resulta lucros fabulosos, porém também enormes riscos.

Se o Ministério Público não fizer nada, pode transmitir à sociedade a falta de valorização da vida, e não despertar os outros actores neste segmento que se chama futebol.

A Federação Angolana de Futebol não devia ficar indiferente a tudo isso, pois foi ela, que autorizou por meio do Conselho Técnico a equipa do Santa Rita a fazer jogos naquele recinto, que tem apenas um portão. Para não falar noutros aspectos que a FAF tem descurado, casos de falta de uma tribuna para a imprensa em vários campo um dos quais, do Interclube. Os jornalistas trabalham próximo dos adeptos. Aliás lado a lado com os adeptos, suportando toda euforia ou emoções. Pode haver situações complicadas para os jornalistas. Porém, o Interclube continua a fazer os seus jogos naquele recinto desde que foi inaugurado sem que para isso tem sido obrigado a cumprir com essa recomendação da Confederação Africana de Futebol.

Tem-se a ideia de que a media é a televisão e rádio, e nada mais. Quem fala do Interclube fala do próprio Estádio dos Coqueiros que tem cabine para os colegas da Rádio e Televisão, mas não tem para os jornalistas da imprensa escrita ou agências de notícias.

Não gostaria de falar em nome próprio, contudo, é apenas um detalhe de quão sério temos sido na organização do futebol, o que explica efectivamente a tragédia como a do Uíge, que infelizmente não é a primeira nem única. Não faz muito tempo que no Lobito morreu adeptos do futebol, não se sabe até hoje qual foi a posição do Ministério Público tão pouco se conhece da Federação Angolana de Futebol alguma recomendação com vista a alterar situação que esteve na base daquelas mortes.

Portanto, enquanto não houver responsabilização criminal sobre actos como esses que resultam em mortes não se pode falar em adeptos nos estádios.
Esses não exigem hoje por hoje apenas um jogo de qualidade, requerem igualmente conforto antes, durante e depois do jogo.

Ninguém em sã consciência poderá gastar o seu dinheiro e correr riscos de vida, por negligência dos dirigentes que se arrogam no direito de amantes do futebol, sem demonstrá-lo na prática.
Teixeira Cândido

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