Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A Daniel, o que de Daniel!

23 de Agosto, 2018
A história dos povos e nações não se faz apenas de actos de bravura guerreira ou política, mas também de outras formas de excelência nacional que ficam históricas. Outra conversa depois, é entrarem para a história.
Na nossa história comum e indivisível fazem parte todos os tempos que houve e até onde a nossa capacidade de investigação genealógica chegou. Assim os angolanos têm uma história com pelo menos três períodos - pré-colonial, colonial e pós-colonial – cujos traços permanecem indeléveis. E não nos deve envergonhar a excelência que era angolana quando ela arrebatasse a supremacia no então Império –atletas campeões como Bonga “Zeca Trepidante” e Ruy Mingas, recordistas ‘nacionais’ do Império, dos 400 m e altura respectivamente, assim não fariam parte da nossa história desportiva? Nem os Mangueira de Carvalho e os Leite-Velho, campeões ‘nacionais’ de ginástica do Lobito Sports Club? Nem o craque namibense do hóquei, Chalupa, os campeões Futebol Clube do Moxico,ou os centenários Portugal de Benguela e Clube Naval de Luanda?
Uma estigmatização política de títulos jamais irá apagar a história e os angolanos são um povo de tradição oral. E a história não passa de uma exaltação dos factos. De todos os factos insuperáveis também. Factos esses, todos vistos com objectividade. E é aqui que é importante chamar a atenção da sociedade para uma reflexão, forma de se resgatar a verdade objectiva, despolitizada. Contudo, compreendo que proximamente a outorga de títulos nobres possa ter uma erupção em Angola e então, sim, esses títulos e méritos serem politicamente motivados e reconhecidos, o que já ocorreu, entretanto, sob forma de privilégios económicos e financeiros indicados a dedo.
Pois é, a nossa história precisa de ser feita também pelos sociólogos;e certamente também será, naquela cadência básica de ‘mutatis mutandis’(abreviadamente, mudando com a mudança), e então teremos a nossa história nacional mais inclusiva e objectiva, uma versão digna da transmissão oral e escrita às gerações que chegam e as que hão-de vir engrandecê-la. Porém, contudo e todavia, pergunto, para quê adiar-se e deixar às gerações de 2020 e seguintes, o ónus de descobrirem no futuro aqueles heróis de que não lhes contámos e cresceram ser ter ouvido?
Existe, por conseguinte, uma responsabilidade histórica premente, à luz dos testemunhos vivos que se vão apagando e das obrigações de Estado para se proteger e preservar a memória colectiva de um povo. De como se fez uma nação e que esta não se faz só de política e de partidos, que são servidores da sociedade, não o inverso; pois, dizia, a história faz-se de todos os heróis de todas as áreas e génios da nossa sociedade.
Uma condição ‘sine qua non’ do nosso projecto de nação é a inclusão; inclusão a quem somos de quem fomos ontem e estabelecermos entendimentos de princípio, tais como, o que em Angola ocorre é ‘angolano’ e o que angolano fizer, ‘angolano’ é.
A brincar a gente também se pode entender e o mais importante quando se trocam ideias e opiniões é o facto de se poder partilhar sem excluir, nem ofender, e conseguir comunicar. Comunicar é um segredo muito mal explorado na nossa sociedade e, aliás, pouco incentivado, porque nós ainda não temos uma sociedade habituada a escutar; nem a ouvir uma opinião diferente. E a comunicação que nos falta é essa conversa circulante e sem tabús onde uns e outros podem concorrer para fazer da circulação de ideias e do progresso, uma força motriz para o desenvolvimento de Angola.
O nosso país crescia 24 por cento ao ano, nos Anos 60, e isso reflectia-se também desportivamente; muitos craques iam abrindo portas em clubes do continente, em Portugal. Este tinha em Angola e Moçambique, olheiros. Assim haviam partido Ruy Mingas e “Zeca Trepidante”, aliás, Barceló de Carvalho, mais conhecido por Bonga. E o que se deve fazer destas memórias? Primeiro, elas nção se apagam e, segundo, em termos comparativos, foram alguns dos vários feitos de alguns angolanos que desportivamente atingiram a excelência da sua época e de todas as épocas juntas da história do povo angolano.
Desde quando o passado se apaga? Angola começa a contar-se desde quando? Só a partir de 11 de Novembro de 1975? Foi aí que nasceu Angola e o povo angolano?
É preciso, os angolanos, aceitarmos que a nossa vida e família incluem as nossas raízes e que isso não tem gradualismos porque as raízes se perderam após sete gerações, perdem-se os registos, dos arquivos que nem havia, sequer, de que tantas e tantas memórias morreram sem um traço escrito anos depois, nem uma oralidade da tradição que se recordasse da metade.
Sim, Angola tem mesmo três períodos de história distintos, por ser um povo que não ficou descontinuado, que seja de Njinga Mbande e Ekuikui, até NhaCatolo e a nossa actualidade. O fio condutor desta nossa sociedade e povo tem sido o mesmo fio da história nas suas sucessivas etapas pré-colonial, colonial e pós -colonial, onde estamos presentemente e levamos já 43 anos para nos entender a respeito de coisas muito básicas e noções muito simples, porém, alvo ainda do estigma político de todos os julgamentos feitos na sociedade.
A verdade é que somos um povo com os mesmos referentes históricos constitucionais e a mesma marcha de nação em construção, com todos os seus momentos, diferenças e escaramuças, mas, com consequências e sequelas donde poucas lições temos sabido tirar. Enquanto isso a sociedade está aí, dinâmica, porém, alheia à vida civil na sua plenitude, que inclui o direito ao desporto, à cultura e ao recreio. Mas é uma sociedade que dá indicações de buscar soluções e, como o próprio Presidente do país sugere, melhoremos o que está mal.
O melhor suscita sempre mérito ereconhecimento. Se até os Nazis admiraram a velocidade do negro Jesse Owens quando os derrotou nas pistas de Berlim, porque continuaremos nós, angolanos, ou em Angola, a ignorar certos feitos e marcos históricos, que a nossa sociedade conheceu no passado e, por conseguinte, são parte da sua própria história? E, por outra,nações guerreiras sempre fizeram nobres os seus ídolos lutadores e desportistas. De Roma à União Soviética e Rússia. Enquanto isso, na Coreia do Sul, ou ganham o torneio de futebol dos actuais jogos asiáticos, ou vão cumprir tropa por quatro anos, como manda a lei nacional.
Os feitos desportivos engrandecem as nações. Cada vez mais antigos desportistas tornam-se líderes nas suas sociedades civis e países. Quantos desportistas estão já na calha para eleições proximamente?
Este é um momento para entrarem em campo os sociólogos.Explicarem porque hoje observamos a juventude angolana curiosa por saber dos feitos lá fora de um Bastos, na Itália, e outro Gelson, Papel e Vá, em Portugal, nas ligas de melhor futebol que o nosso. E assim defenderem por quê ontem foram outros, como Bonga, Mingas, Jacinto João, Joaquim Dinis, Domingos Inguila, Lutucuta, Inguila, etc., os ícones que estamos nacionalmente em risco de perder.
O tempo passa e as pessoas vão ficando distante do país que continua. Algumas ficam esquecidas. Outras são resgatadas e recordadas, e tenho um exemplo para cada: Demóstenes. Ndunguidi. Pepino.
Pepino foi resgatado ainda em vida e homenageado após a morte. Ndunguidi foi apagado por uma troca que fez. E Demóstenes nunca foi cultivado e ‘falado’.
Pepino homenageado, já foi um bom começo. A história de um povo é a história das suas gerações, e a geração de 50 tem o dever humano, a obrigação moral e a responsabilidade histórica de deixar aos filhos e netos uma Angola sarada e governável.
Ndunguidi é um outro dos males por se sarar. Na sua categoria de concorrente a uma distinção nacional não menos emérita, desportivamente falando, o antigo futebolista júnior que trocou uma carreira prometida na Europa, para ficar a ajudar a nascer e crescer o Clube 1º Agosto, não era suposto ser hoje deixado viver longe da opulência desportiva deste clube, e com as ruas dele para andar.
Em menos de quinze dias fui duas vezes a Benguela e Lobito, tendo desta última quase coincidido com as exéquias de Pepino. Foi simpático e cirúrgico a Ministra e o Secretário de Estado terem lá estado, o que não ofuscou a também significativa presença do Governador, ele mesmo uma pessoa ‘do desporto’ e um faro especial para a ocasião.
Pepino foi um futebolista que acabou por se notabilizar no ciclismo, primeiro, e, depois, na longevidade com resistência. Brincava com a vida e saúde com responsabilidade e assim foi que, nos anos 90, começou a construir o seu próprio caixão, que convidados certos amigos a experimentar o conforto com que havia sido concebido. O homem havia feito o mesmo que Ndunguidi, porém, parece ter recebido o perdão primeiro. Mas, que perdão? Enfim, Angola manda cenas...
Mas, Pepino fez isso inteligentemente. Se havia sido colado ao outro lado da guerra, esperou a paz dar um passo, para ele dar muitos mais, pedalando a distância de Benguela a Luanda, para o espanto nacional.
E assim calou todo o mundo. E as coisas mudaram para ele. Já mais recentemente, quando demos por ele com 95 anos, arrancou do gabinete o Secretário de Estado para presenciar na cidade das acácias, a mais um exemplo de longevidade ‘à Pepino’. Ora, seriam coincidência demais não haver ali uma situação de ‘pacto’ de civilização.E assim Pepino foi finalmente jubilado pelo seu Estado.
E nesta análise histórico-temporal há-de emergir que infelizmente não se faz caso de Bonga, Ruy Mingas, Jacinto João, Dinis, Rui Jordão, alegando-seà boca pequena que eles fizeram carreira ‘fora’, e, então, Ndunguidi?
Achei curioso o tema e uma cobardia calar isso. Ouvi demasiado essas conversas nos últimos anos, e ali em Benguerla e Lobito, era coincidência demais também. O que se passa com a história do nosso desporto?
Jornalistas têm estado a começar obra. Silva Candembo vai já no segundo tomo de uma história do basquetebol de Angola; há uns vinte anos atrás, Mateus Gonçalves e Carlos Pacavira haviam iniciado a compilação, já em dois tomos, da história do nosso ‘Girabola’,mas, o resto do acervo vivo do país parece-me que tem morrido aos pouco; e cada vez que morre um dos fundadores do desporto angolano pós-colonial, dói-me também o que se perde porhaver morrido com ele.Eu, até,já ando a tentar ‘caçar’ juntos Mário Torres e Ângelo Nunes, a ver se não se perde também a memória viva do atletismo angolano na etapa pós-colonial...
Por quê seria que um país que mal pratica ciclismo, homenagearia Pepino?
Então e por maioria de razão, temos que criar outros pepinos do desporto angolano. A conversa que se vinha e continua repetindo, é Ndunguidi. Daniel N’dunguidi. O general que não se tornou e o futebolista que não se completou. O homem que tanto driblou com a bola e acabou driblado sem ela nos contornos da vida, quantas vezes amargurada por um passado sem igual, mas sem preço. Nem reconhecimento.
Pelos anais do futebol africano e da CAF, o futebolista angolano mais reconhecido chama-se Osvaldo Saturnino “Jesus”, homenageado com o Prémio Carreira dos CAF Awards, a par do malogrado Stephen Keshi, em 2008, por ocasião da gala da confederação africana, em Accra. O antigo craque angolano rapidamente se envolveu nos negócios e não aparenta neles resultados inferiores aos que atingiu quando levava a bola dominada.
Antes dele, Joaquim Dinis havia sido o maior ícone futebolístico do país; Akwá ainda nem era nacido. E o ‘Brinca n’Areia’ foiigualmente aquele a ter regressado ao país no final da carreira. Um ponto a seu favor, a que se adicionou uma pontinha final da carreira futebolística como técnico, adiante seleccionador, acrescido a espaços de negócios bem sucedidos e lhe darão um colchão macio paralevar uma longa vida tranquila.

Importância do reconhecimento em vida

Vem tudo isto a propósito de Pepino ter sido enterrado na presença do governo. E Pepino não queria nada disso, tendo sido contrariado pelos filhos; queria apenas ser enterrado no caixão que ele mesmo havia construído para si, a pensar naquele dia. E assim, sem querer, partiu tal como um herói.
Quis dizer herói do desporto angolano. Como Demóstenes. Como Edelfride‘Miau’. E mais modernamente também como Zé Carlos. Jean Jacques. Palmira. Marcelina.Pela ordem em que sucedeu. E, claro, ali pelo meio, Ndunguidi.
Em África, nos Anos 80-90, eramos (re)conhecidos por Ndunguidi e pelo basquetebol júnior masculino. Crescemos partindo dali. E o Daniel era sumamente venerado pela sua habilidade com a bola, jogo em corrida e driblling, ou dribles em corrida e velocidade, que transformavam o jogador em super-homem e os resultados eram um júbilo completo no final, só de vê-lo jogar. Ndunguidi era também um herói para as trincheiras, onde os dois exércitos faziam trégua para ouvir o futebol e adorarao Daniel mesmo sem o verem jogar.
Era um craque sob medida e que cada vez mais se internacionalizava, à medida que jogássemos contra camaroneses, congoleses e nigerianos, que eram a nossa sarna no futebol do século passado.E Ndunguidi acabou não sendo sequer campeão de alguma coisa em África, mas, a maioria das retinas e memórias têm-no ainda como a ‘maior’ explosão de popularidade que unanimemente já houve no desporto angolano.
O Estado é pessoa de boa fé e a sua responsabilidade social é uma graça a todos devida, mormente em questões que não possam resumir-se à sociedade civil, mas a poderes instituídos para poder haver ordem e dever.
Assim e no que respeitar a qualquer forma de reconhecimento a atribuir-se a Daniel Ndunguidi, é mais ao seu clube, o Clube 1º Agosto, que cabe doravante tomar a iniciativa sobre a consideração e júbilo dedicados ao seu maior futebolista de sempre, aclamado ainda hoje por todo o povo de Angola.
Arlindo Macedo


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