Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A desdita africana

03 de Julho, 2018
Numa altura em que decorrem os oitavos-de-final do campeonato, deixando pelo caminho outros gigantes, que tinham resistido ao \"tirocínio\" da primeira fase, altura em que o foco de conversa devia ser a chave dos quartos-de-final, ainda é o afastamento das selecções africanas que faz as notas de rodapé. Tal, é pois a forma contestável como o mesmo ocorreu.
Não se pode dizer, taxativamente, que as cinco representações do continente africano tenham sido prejudicadas por actuação pouco clara de arbitragens casmurras e tendenciosas. Mas ao menos no caso de duas, refira-se a Nigéria e ao Senegal, não há como negar este facto. Mesmo as equipas que saíram beneficiadas daquela triste \"engenharia\" terão reconhecido que não tiveram mérito.
As razões desta acção discriminatória estão por apurar. Talvez a Fifa se venha penitenciar depois que fizer o balanço do torneio e perceber o volume de erros que foram cometidos. O termo talvez é propositado, porque pode não o fazer, sendo quase certo que todos os erros cometidos contra selecções africanas foram premeditados.
De resto, ficou subentendido que a Fifa não estava nem aí com as selecções africanas. O seu maior desejo, por que razão ninguém sabe, era vê-las de longe. O Vídeo Árbitro Assistente, uma das inovações do campeonato da Rússia, tem critérios de actuação muito duvidosos, tendo tido forte influência quer no afastamento da Nigéria quer no afastamento do Senegal.
Notou-se que lances idênticos tiveram ajuizamento diferente. Se uma bola cabeceada por um jogador iraniano vai à mão de um defesa português e é penálti e uma bola cabeceada por um jogador nigeriano vai à mão de um defesa argentino e não há nada, valha-nos Deus. Atrevemo-nos a dizer que seja qual venha a ser o desfecho da prova, dela a Fifa sairá sempre com a imagem beliscada.
Sendo o primeiro Campeonato do Mundo no seu consulado, Gianni Infantino pode estar a dar mostras de quem tem pretensões de reinventar o futebol, sendo, quiçá, a primeira medida limitar a participação em campeonatos do mundo a Europa, América do Sul e Ásia. Se for está a intenção começa mal o seu percurso à frente do futebol mundial.
O que se passou neste campeonato não foi visto, quer no longo consulado de João Avelange quer no de Joseph Blatter. Estes aliás, incentivaram o crescimento do futebol africano a todos os níveis, sendo prova disso a realização do campeonato de 2010 na África do Sul, incentivada pelo primeiro e materializada pelo segundo.
É certo que a Fifa precisa lucrar com a realização do campeonato, e no quadro do espírito comercial soe dizer-se que os lucros tendem a ser maiores com equipas grandes em competição, havendo sempre uma pretensão de se sacrificar os pequenos, mas, nunca de forma tão escandalosa como o Russia\'2018 nos deu a ver.
E mais: equipas pequenas não são apenas as africanas. Existem outras de outros continentes, que não são de primeira linha se se falar de \"colossos\" mindiais. São do mesmo nível das africanas. Mas com estas não se passou o que ocorreu às representações africanas. É triste que em pleno Século XXI ainda surjam dirigentes com tendência de fazer do desporto uma arma divisionista.
Em muitos países africanos, mesmo com as limitações próprias de um continente cheio de assimetrias, já se pratica futebol de primeira grandeza. Aliás, o Egipto mostrou isso mesmo nos três jogos que disputou. Ficou na primeira fase, mas jogou ao mesmo nível de selecções que continuam em prova alimentando o sonho de jogar a final e até mesmo de erguer o troféu.
Em 2010, na África do Sul, não tivesse Luiz Suarez protagonizado aquela \"mandrice\" de se colocar à baliza e defender uma bola, já feita golo com a mão, no Gana-Uruguai, nos quartos-dé-final, a África teria chegado pela primeira vez às meias-finais. Portanto, não sejam os africanos tomados como aprendizes do futebol, como parece ser intenção.
Quando foi ventilada a possibilidade da utilização do VAR no campeonato era suposto ser um instrumento capaz de ajudar a afastar as dúvidas com que muitas vezes se deparam os árbitros no ajuizamento de um ou doutro lance. Nunca para prejudicar uns a favor de outros. Até onde vai o nossos conhecimento, VAR significa Vídeo Árbitro Assistente, mas parece ter virado Varrer os Africanos da Rússia.
Matias Adriano

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