Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A despromoo do Kabuscorp

09 de Maio, 2019
A Federação Angolana de Futebol (FAF) foi obrigada a “condenar” o Kabuscorp do Palanca à despromoção, por orientação da FIFA, por causa da dívida que o clube de Bento Kangamba tem com relação ao antigo futebolista brasileiro Rivaldo.
O referido jogador representou os Palanquinos na época de 2012 e até à data de sua saída (litigiosa?) do clube, deixou um crédito de mais de USD 700.000.00 (setecentos mil dólares). O referido crédito é reclamado pelo antigo internacional brasileiro, campeão do mundo em 2002 realizado pela Coreia e Japão, praticamente desde a sua saída.
A verdade, porém, é que a direcção do Kabuscorp foi dizendo publicamente que tinha resolvido a questão, por volta de 2015, se a memória não me atraiçoa. Sempre que este assunto é levantado, a resposta é praticamente a mesma.
Agora, passados sete anos, a FIFA ordenou que se o clube não pagasse a dívida até ao dia 6 de Maio, tinha de ser despromovido à segunda divisão e se a FAF não cumprisse a decisão, o futebol angolano era severamente disciplinado, o que implicava sanções que impedissem os nossos clubes e selecções de participar em competições, sob égide da FIFA.
Para não criar outros constrangimentos ao Girabola, parece-nos que a FAF persuadiu a FIFA para a despromoção ser consumada depois do fim do campeonato nacional, que está a duas jornadas do fim. Entretanto, algumas pessoas levantam a seguinte questão : tendo em atenção que o clube é uma instituição jurídica representada por pessoas, por que não responsabilizar a(s) pessoa(s) que fizeram o acordo com o jogador e consequentemente responsáveis pela dívida?
Efectivamente, alguém falou em nome do clube. Por outro lado, não se trata de uma situação em que o clube tenha ganho alguma competição ou algo parecido, através do meio em questão, como por exemplo o que aconteceu com o Olimpique de Marselha, na década de 90, que lhe foi retirado o título de campeão de França ( em 1993/94? ) e foi rebaixado à segunda divisão, depois de ficar provado que os seus dirigentes tinham negociado um resultado para conquistar o troféu.
Assim, no caso do Clube Kabuscorp do Palanca, o sensato era responsabilizar a pessoa que falou em nome do clube e que assumiu o compromisso com o jogador Rivaldo. Por exemplo: imaginemos que um indivíduo esteja a conduzir a sua viatura e atropele alguém, mortalmente. Seria correcto prender a viatura e deixar o homem solto? Não! Naturalmente, o motorista é quem devia ser responsabilizado!
Na situação em causa, punir uma pessoa, ou várias, não ia resolver a questão, porque o lesado continuava em prejuízo. Portanto, a única forma de pressão é “bater” no clube, que é um património de muitos, embora, no caso do Kabuscorp, seja um património privado.
Batendo no clube, além do dono, outras pessoas como jogadores, treinadores, sócios adeptos e não só, também entram na lista dos lesados. Assim, o prevaricador arranja, ou seja, entra em novos problemas. Além da dívida com o homem que se queixou à FIFA, arrisca a ter de indemnizar outras tantas pessoas.
Para evitar maiores despesas, o “culpado” talvez tenha de revirar os bolsos, ou recorrer à um empréstimo, para conseguir o valor da dívida. No caso do Kabuscorp, segundo o seu presidente, foi pago cerca de 90 por cento da dívida. A ser verdade, creio que não existem motivos juridicamente válidos para a FIFA impor tal ordem, a menos que tenha ficado evidente que os responsáveis do clube não queiram pagar a diferença.
No entanto, a novela deve servir de lição à direcção do Kabuscorop e não só. Com todo o respeito que devo ao senhor Bento Kangamba, devo dizer que ele teve tempo suficiente para evitar esse caminho. Teve tempo de pedir perdão da dívida, de pedir para pagar de forma faseada, porque a lei permite isso, enfim, teve tempo para tudo.
Não nos esqueçamos, que entre os anos de 2004 ou 2005, o Kabuscorp baixou de divisão por uma brincadeira de mau gosto do seu presidente, que segundo se disse na altura, fingiu o roubo do equipamento para não jogar com determinado clube, por motivos que só ele sabia!
Não percebemos, como um homem tão batalhador, diligente, sacrificado, um verdadeiro amante do futebol e líder carismático como é Bento Kangamba, construa um castelo durante vários anos com bastante suor, gastos financeiros incalculáveis, perdas de noites, privação de momentos de laser com a família e amigos, para num minuto destruir tudo!
Poucas, foram as pessoas singulares neste país, que tiveram as possibilidades económicas para construir clubes ou outros empreendimentos que até geram empregos a muitos patrícios seus, fizeram o que Bento Kangamba fez! É uma pena!
Por via disso, se a sentença for consumada, o futebol angolano vê-se privado da melhor claque que este país teve, criada e organizada pelo próprio Bento Kangamba. Por outro lado, embora seja responsabilidade única e exclusiva da direcção do Kabuscorp resolver a situação, dada a grandeza que o clube atingiu, creio que se devia dar uma ajudinha ao clube.
Se efectivamente se liquidou mais de 90 por cento da dívida, não existe uma mão caridosa a ajudar os oitenta e tais mil dólares que faltam? À priori, o Estado não se deve intrometer no caso, pelo menos de forma visível! Mas, não é possível mesmo dar uma ajudinha ao nosso Kabuscorp? Augusto Fernandes


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