Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A desunio que nos enfraquece

22 de Fevereiro, 2017
As taças africanas de futebol voltaram a tocar solo Angolano e este voltou a ser ultrapassado pelo tempo, que outros já alcançaram. O Primeiro de Agosto colocou a nu fragilidades nossas, como sejam a revelação de falta de suficiente treino individual do nosso jogador e também a sua fraca base técnica e portanto, de perspicácia do jogo em si e que resulta da escassa base de contacto internacional ainda em jovem.

Tudo isso aliado, faz a diferença. E por alguma razão importam as provas da regional COSAFA, a ver se começamos a sair do abismo graças ao futuro dos putos. E como se vê, a própria competição juvenil já não é mais grande coisa, cá por casa. Na pobreza, de meios e de quadros também, sacrifica-se nos clubes a criançada, para poderem jogar os adultos.

O retorno da primeira mão da Liga dos Campeões da CAF mostrou realmente mais do que isso, pois a equipa campeã de Angola não conseguiu competir mais do que 70 minutos. Ou seja, pelos parâmetros,já retrocedemos a ‘marcas’ dos nossos Anos 80.

Quando em 1982 aterrou em Luanda, trazido pela FAF, o treinador jugoslavo Skoric trabalhou muito esse nosso handicap de resistência competitiva, pois a selecção não tinha ritmo de alto rendimento e começava a jogar de gatas 15 minutos depois do intervalo, o que nem permitia segurar uma vantagem, nem reverter uma desvantagem.

Trabalho idêntico era desenvolvido em basquetebol, pelo metodólogo que era então o professor Victorino Cunha, o que nos trouxe o ‘el dorado’ por cerca de duas décadas do nosso basquetebol, não só em África, onde reinou de sobra, particularmente em masculinos. Mas sem ter cultivado o basquetebol em terras de gente mais alta que a nossa média, esperando que sejam as associações provinciais a tratar de explorar isso, eis-nos hoje aflitos com os ‘americanos’ que já todos, parece, estamos a ir buscar e a naturalizar. Mário Palma, nosso antigo seleccionador, acaba de retomar isso na selecção da Tunísia, para o Afrobasket masculino em Brazaville.

Ora, isto deve remeter-nos para colocar em causa qual a metodologia do treino que se segue nos clubes e que provavelmente variam, mas que deveria ser algo estudado, dado que um número crescente de clubes tem apostado mais em treinadores estrangeiros. E se tal reflecte uma falta de crédito nos técnicos nacionais, não é menos verdade de que a maioria dos técnicos estrangeiros não tem vindo trazer ouro, mirra e incenso ao nosso desporto. Então, em que maré andamos?

Nos clubes, cada vez mais, nota-se a banalização do elemento ‘comissão técnica’ e a troca do seu saber e competências, pelos do presidente do emblema. Nas federações, a maioria nem comissão técnica tem e as que existem, por vezes na figura de um director técnico, acaba por deixar a desejar. Não há uma consulta, sequer, dos demais treinadores. Não há humildade nem união, apenas uma feira de vaidades e, muitas vezes, incompetência e má convivência desportiva.

E as eleições desportivas vêm destapando isso a nu e a cru. A questão que se me levanta é saber se andamos actualizados e a treinar direito, ou se andamos a fazer desporto com apenas ‘um olho’ em terra de cegos.

Seria bom queas associações de treinadores lograssem ter um papel vinculativo ao rumo desportivo do país, fosse por sistema consultivo, fosse por obrigatoriedade de pareceres técnicos, deste modo obrigando os clubes e associações a estarem estruturados com esse órgão. E deste modo procurar salvaguardar as protecções naturais do desporto e dos desportistas, do que a gerir no empirismo e apriorismo.

Isso deveria ser complementado por alguma forma de aproveitamento do tempo e contacto com os treinadores estrangeiros, pois, tal como os cientistas, médicos, epidemiologistas, e todos quantos trabalhem o saber colectivo do mundo, devem presumir que sabem mais e aprendem novidades se mais trocarem diálogo e experiências.

É certo que tal como os avançados-centros, os treinadores sentem-se egoístas, mas precisam de admitir que a resposta certa não é fechar-se em copas, mas dialogar e procurar estar a par mantendo uma mente aberta. O homem é um ser socializante, mas o treinador não precisa de andar em jantares nem na casa de cada um, se apropriadamente houver uma sala e uma agenda na associação local de treinadores.

E por falar nisto, sinta-se o clima recentemente criado pelo ingresso no andebol angolano, de um antigo campeão do mundo, trazido pelo Primeiro de Agosto para os femininos; a classe dos nossos treinadores não tardou a expressar o seu desagrado e em coro, quase. E neste clima, convenhamos, ficaremos todos a perceber melhor como o sangue a ferver nos tira, por vezes, a oportunidade de extrair vantagens de uma situação temporária.

Atroca do treinador Filipe Cruz, por um dinamarquês, Morten Soubak, foi encarada quase como uma relegação desprestigiante, ao invés de um desafio ainda mais valorizador. Pelo menos, foi assim que o clube ‘militar’ fundamentou a troca do seleccionador campeão Africano, pelo dinamarquês que em quase uma década de trabalho no Brasil, tendo sido campeão mundial invicto, até com a anfitriã Sérvia, em 2013. No ‘Rio Seco’ pretendem que Filipe

Cruz repita a receita de campeões, agora com os masculinos do clube. Mal sucedido à primeira, Soubake o D’Agosto perderam a Supertaça no último fim-de-semana, por um golo, com o arqui-rival Petro Atlético, treinado por outro antigo seleccionador nacional, Vivaldo Eduardo, o que prontamente despoletou a troça com a ‘troca’ do treinador das ‘Rubro-negras’. Não foi uma situação muito curial e nem uma troca civilizada de galhardetes, exemplificando uma das tais situações em que os da casa não estão a saber tirar vantagem.

O que não passaria de um elogio ao andebol nacional e à qualidade dos dois emblemas angolanos já repetidas vezes campeões africanos, abre um capítulo de tendencial hostilização, coisa que em uma praça com uma associação de treinadores, se diluiria num encontro se, tal fosse o hábito de trocar experiências com ‘estrangeiros’ ao invés de queremos permanecer imperturbáveis e no sossego da casca do nosso ovo. E que, por muito campeões que sejamos, não faz do nosso, o ovo de Colombo, nem devia influir para não querermos descobrir primeiro, se temos realmente algo a aprender com alguém que nos posso dar uma indicação sobre ‘a quantas anda o mundo\'.

Quando há menos de quinze dias se apresentou publicamente a nova direcção da associação nacional de treinadores de basquetebol, ANTB, fiquei esperançado em que um pensamento e trabalho de ‘academia’ seja lançado por estes homens do jogo ‘também ciência’, que tendo reunido entre os convidados todos os antigos selecionadores nacionais, mostraram que querem estar juntos. E presentes.

Com efeito, a ANTB tem há 8 anos uma petição para ajudar a ‘manter’ a assessoria técnica que a maioria das federações não tem tido, fragilizando desse modo a implementação de medidas e atitudes perspicazes em defesa do jogo e do seu património nacional. E era bom que isso se repetisse em todas as modalidades.

A questão da licença de treinador, ou seja das carteiras, é um dos parâmetros que a ANTB pretende colocar à FAB, algo que é desejável que as demais modalidades imitem, primeiro organizando a classe dos seus treinadores, e depois criando plataforma para serem tidos e achados como grupo representativo da classe técnica do assunto. No futebol, a associação de treinadores, ATEFA, não registou ainda progressos assinaláveis, porém, intentar imitar o protocolo da ANTB junto da FAF, seria um passo na direcção certa.

Para ambas, um problema de base é colmatar o atraso da grande maioria dos nossos treinadores, a quem só resta a ‘ordem’ da classe de técnicos para salvaguardar as suas graves carências de formação desportiva específica, e particularmente de literatura técnica transferível até por oratória organizada dentro da classe, com uns mais categorizados servindo para actualizar e evoluir outros menos experientes, no intuito de ir minimizando o fosso de conhecimentos que existe entre um punhado apenas de técnicos, e os demais.

Será falta de iniciativa, de interesse, ou de capacidade? Será da conjuntura, do custo reapreciado do petróleo, da escassez de divisas ou, sim, da falta de uma agenda da classe, clubes e associações?Uma coisa é certa, os problemas ou dificuldades de desenvolvimento dos nossos desportos devem passar também, senão primeiro até, pela superação dos nossos treinadores e monitores de formação.

Em meio a tudo isto, a federação angolana de basquetebol, FAB renovou finalmente mandatos e contrariamente às expectativas que alimentava o cessante Paulo Madeira, foi outro o desfecho e emergiu vencedor Hélder Cruz ‘Maneda’. Como este desfará a curva apertada em que havia enterrado o desenvolvimento do nosso basquetebol masculino, numa altura em que o feminino não tarda a repetir passadas, é o que mais desperta curiosidade vai despertar.

Paulo Madeira, antes de derrotado, aspirava ‘vencer para prosseguir os projectos em curso’ e cujas chaves seria curial deixar agora com o seu sucessor. Assim evitar-se-ia recomeçar e passar-se-ia a fazer o certo, que é prosseguir nas boas vias. A exemplo do ‘burburinho’ pela troca Cruz-Soubak, o típico no desporto Angolano é essa prática da exclusão, ao invés da inclusão.

Fiz este giro pelas novidades da banda no intuito de pegar na ponta de um novelo que bem desenrolado nos pode trazer mais união e entreajuda, do que cisma e discórdia, enquanto nos vamos fragilizando, atrasando e perdendo as corridas. Seja no ‘sprint’ dos gastos, tanto como no ‘fundo’ dos ganhos; e para já não se falarem estafetas de ‘prejuízos’...
Arlindo Macedo

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