Jornal dos Desportos

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Opinio

A dvida de Akw

18 de Julho, 2019
O dia 8 de Outubro de 2005, ficará para sempre gravado na história do desporto angolano e do futebol em particular. Foi neste dia, que Angola carimbou a passe para, pela primeira vez, disputar um campeonato do Mundo em futebol seniores masculinos.
Nos cerca de 44 anos de independência do nosso país, não me recordo de ter visto um momento tão emotivo, envolvendo todos os angolanos sem excepção, isto falando de credo religioso, politico, racial e tribal, superando até o próprio dia 11 de Novembro de 1975.
Naquele dia memorável, o estado angolano fez deslocar cerca de quatro aeronaves para Kigali, transportando centenas de pessoas em representação do povo angolano, para dar o “oxigénio” necessário aos jogadores dos Palancas Negras, afim de atingirem o objectivo supremo: chegar, pela primeira vez, a um Mundial.
Quando, aos 37 minutos da segunda parte, Zé Kalanga, fez o cruzamento em arco e Akwá subiu marcando de cabeça o golo mais importante da história do nosso futebol, o país gritou de forma ensurdecedora, superando o estrondear das bombas mais potentes que já rebentaram em Angola.
Portanto, não existem palavras para descrever o grau de alegria, que aquele golo causou a todos os angolanos. Sim, podemos dizer sem receio, que aquele foi um acto heróico de Akwá, tendo em atenção que a palavra herói significa exactamente “o cidadão” que executa acções excepcionais, com coragem, bravura e com o objectivo de solucionar situações criticas ou difíceis, a favor de outros ou da sua nação.
Entretanto, para se atingir alvos como o acima mencionado, é necessário muitos sacrifícios por parte dos jogadores convocados para representarem a selecção nacional. Assim imbuído de espírito Patriótico, Fabrice Alcebiades Maieco (Akwá), sempre que foi convocado para uma missão de estado pela Selecção Nacional o fez sem hesitação .
Assim, há dez anos atrás, quando representava o Qatar SC, o antigo capitão e melhor marcador dos Palancas Negras até ao momento, foi chamado, mais uma vez, a Selecção Nacional, da qual era uma peça fundamental, e tinha 48 horas para apresentar-se ao seu clube, depois de cumprir a missão.
Por orientação da Federação Angolana de Futebol (FAF), todos os jogadores, com excepção de Mantorras, tiveram de passar primeiro por Luanda, vindos de mais uma missão. Em função desta passagem pela capital do país, o rapaz acabou por chegar atrasado no seu clube que, por sua vez, apresentou uma queixa a FIFA, acusando-o de ter prejudicado a entidade patronal.
Como consequência, o órgão que rege o futebol mundial, decretou que o antigo goleador - mor dos Palancas Negras, teria de pagar uma multa de 250 mil dólares pelos danos causados a sua equipa e o não cumprimento implicaria a suspensão de toda actividade desportiva sob égide da FIFA.
Isto implica dizer que o nosso “Herói” ficaria proibido de exercer qualquer actividade futebolística federada, caso não quitasse a divida em referência. Quer dizer: o homem não pode ser nem treinador, dirigente, presidente de um clube… enfim, foi afastado totalmente daquilo que é a sua vida e melhor sabe fazer.
Ora, desnecessário seria dizer que cabe a Federação Angolana de Futebol ou seja ao estado angolano, resolver a questão do rapaz, pois ele estava em missão de Estado. Portanto, ao representar a selecção nacional, mesmo correndo o risco que correu, o jogador cumpriu com uma obrigação de cidadão nacional. Ao ser multado, ele deve gozar dos direitos que o cidadão tem, em casos do género.
Por exemplo: se um cidadão em missão de estado sofre um acidente, fica doente ou morre, naturalmente o estado tem a obrigação de custear as despesas do cidadão em causa. De modo similar, ao ser multado, porque o cidadão esteve em serviço do estado, cabe ao estado resolver o assunto e ponto final.
No entanto, temos de entender que, depois da guerra pós eleitoral de 1992, o nosso país conheceu momentos altamente anormais, propiciados pelo reacender da guerra e com muito mais proporções do que antes daquele período, porque o país praticamente caiu num caos total e nestas circunstâncias nada funciona e faz-se uma governação possível.
Como consequência disso, atitudes nocivas como esta de o estado não cumprir com deveres consagrados na lei foram tolerados, pois a justiça e não só, praticamente não funciona em ambientes de guerra. Mesmo depois da guerra, em 2002, alguns vícios ou maus comportamentos, fruto da mentalidade que se apossou da maioria de nós, continuam até hoje e são um dos grandes males que estão a ser corrigidos.
Neste espaço de tempo, o \"Herói\" do dia 8 de Outubro de 2005, continua sendo altamente prejudicado. Hoje, o Akwá está praticamente na desgraça, porque foi impedido de fazer o que ele melhor sabe. Para piorar a situação do rapaz, ainda existem pessoas que estão minimizando a sua situação, acusando-o de ser uma pessoa de baixo nível, por reclamar da sua pouca sorte.
Portanto, não importa a forma como o Akwá reclama de um direito seu e que até segundo ele mesmo diz, a FAF já prometeu resolver a situação em 2010. Neste momento, o mais importante é saber se o Estado já resolveu a situação. Se já resolveu, temos de saber com quem está o dinheiro ou quem o usou indevidamente.
O mais importante é resolver o problema do cidadão e não há necessidade desta novela terminar em tribunais. Temos de entender que o cidadão Akwá precisa urgentemente de ver a sua situação resolvida, pois podemos considerar que o país, e consequentemente o povo angolano, está em divida para com ele, porque ele esteve em missão de serviço em nome de país.
O estado angolano não pode permitir, que a sua reputação fique manchada e caia no descrédito do Povo, sob pena de inibir os cidadãos de fazerem sacrifícios em nome do país, em função do que está a acontecer com o Akwá. Que mensagem queremos passar para os jovens desportistas?
Já disse mais acima, que vivemos tempos em que muita maldade foi tolerada, por vários motivos conjunturais. Mesmo assim, do passado ganhamos um alicerce, que nos permite construir um pais melhor, onde maldades como estas não podem ter lugar. Vamos resolver o problema do Akwá, para apagar a má imagem que esta novela faz de todos nós. Augusto Fernandes

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