Jornal dos Desportos

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Opinio

A escassez de combustveis e o futebol

09 de Maio, 2019
A olho não parece não existir qualquer relação estreita entre os temos que fazem o título deste artigo e, por via disso, poderão ter razão os que questionam a razão de ser de tal titulação, que pode parecer anedótico.
Porém, tudo deriva do facto de, na terça-feira, 7, ao perguntar à cinco amigos, o resultado do jogo entre ASA e Progresso do Sambizanga, realizado na tarde do referido dia, pontuável para a Taça de Angola e, infelizmente, nenhum deles conseguir me dizer qual foi o resultado do jogo, (que saldou-se em 2-0 a favor do Progresso do Sambizanga).
Nada teria de anormal caso os meus interlocutores não fossem pessoas ligadas ao futebol, apesar de, no outro lado, a vida delas estar marcada pela condição de funcionário públicos e, segundo elas, esta condição privilegiou a atenção deles para um outro facto social que, nos últimos dias, (des) comand(a)ou a vida de grande parte dos habitantes de Luanda.
Curioso, e diferente não poderia ser, procurei saber o fundamento de tal facto e, para o meu espanto, a preocupação foi respondida com uma pergunta, bem a moda da nossa realidade em que, muitas vezes, determinada pergunta é respondida com outra, ao que se convencionou chamar de “contrapergunta”, e aproveito sinalizar minha aversão ao termo que se acha entre aspas.
“Achas mesmo que perante a crise de combustíveis que se vive em Luanda, tenho tempo para saber do jogo entre Progresso e Atlético Sport Aviação, até por sinal quando sei que nenhuma das referidas equipas tem condições efectivas para ganhar a segunda maior competição do nosso futebol? A vida vai para lá do futebol”…
E é nos termos do parágrafo precedente que se resume as quase cinco respostas dos meus companheiros, facto que chamou-me profunda atenção e, de logo, obriguei-me a trazer o assunto para este espaço do jornal, por via do qual me faço vosso fiel servidor. Enfim, o que na verdade não se disse, e era importante, é se a tal falta de diálogo registado entre a Sonangol (personalizada em quem?), e outras instituições do Estado (quais?), consubstanciou-se em quê, e mais grave que isso, se a culpa morrerá solteira, conforme se diz perante a necessidade de sancionar os prevaricadores, que é uma acção normal na administração pública e não só.
Como nada disso foi dito, obriguei-me a compreender que a escassez de combustível, um cenário que se repete ciclicamente, desde Outubro de 2017, criou sérios embaraços à vida do cidadão comum e não só, ao ponto de deixar desinformado até o mais pacato dos adeptos do futebol, que tem a modalidade como uma das coisas cujo prazer motiva a vontade de viver, até certo ponto.
Se calhar, também terá sido esta a razão para que passasse quase despercebida a questão do Kabuscorp do Palanca, em relação a orientação dada pela FIFA, para que o clube seja relegado para a segunda divisão, por conta da velha questão de dívida que o clube tem com o brasileiro Rivaldo, aquando da passagem deste no clube no bairro Palanca.
Não quero levantar suspeições em torno da existência de um eventual “cartel mediático” que, por razões sombrias, terá decidido “adoçar a pílula” e não dar o destaque que o assunto merece, o que de alguma forma coloca alguma nódoa na fotografia que é apresentada do clube do Palanca e o seu patrono.
Esta questão fica, e apenas isso mesmo, na caixa das suspeições que colecciono em relação aos muitos casos que ocorrem no desporto doméstico, que têm valor para promover dissertações académicas.
Já agora, aproveito a ocasião que, proverbialmente faz o ladrão, para perguntar qual é a versão final do caso Kabuscorp e a posição da Federação Angolana de Futebol à ordem dada pela FIFA, que ao que sei, instou a FAF que caso não cumprisse a orientação, deverás arcar com as consequências do não cumprimento da “ordem”, expressa na nota do órgão que superintende o futebol a nível internacional?
E porque estava mesmo tudo encoberto na nuvem negra criada pela escassez de combustível da cidade de Luanda, nem sei se os adeptos do Barcelona aperceberam-se que o clube foi goleado, remontado, humilhado e eliminado da Champion, pelo Liverpool, que devolveu os três zero da primeira mão e com acréscimo de mais um de bónus que ditou (4-0). Daí, achar que há, de facto, relação para que o título deste texto fosse como foi elaborado. Carlos Calongo

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