Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A falta do nmero 9

05 de Abril, 2018
No dia em que a modernidade introduziu no desporto ciências de apoio como sociologia, psicologia ou estatística, deve-se ter esquecido de Angola. Até hoje perduram no desporto e sociedade situações que, tendo nada de positivas, nem mesmo estando agora em posições aflitivas, parecem pouco despertar os responsáveis para um melhor uso dos recursos da nossa sociedade. E a prova disso é uma coisa tão espontânea e inata em nós, como o talento adormecido de Angola.

Nas rádios e TV, por exemplo, os sociólogos continuam mais interessados em assacar vantagem do que em prestar serviço público de interesse e, assim vistas as coisas, quando até o médico social parece desorientado no seu foco e entalhe, parecemos mais uma sociedade cujo mecanismo funciona até com os terminais invertidos...

Vem isto a propósito da pergunta que me fizeram e que não conseguia responder direito na primeira hora que ouvi: - por que em Angola não há número 9?

Janet Lever, em A Loucura do Futebol, Editora Record, 1983, cita que \"Em uma das obras clássicas da Sociologia, Émile Dürkheim sugere que a religião é menos importante como um conjunto específico de crenças e divindades do que como uma oportunidade para a reafirmação pública da comunidade... Apesar da ausência de vínculos sanguíneos, os homens da tribo sentem que estão relacionados entre si porque partilham um totem (símbolo de divindade).

“O culto a uma equipa desportiva, como o culto a um animal, faz com que todos os participantes se tornem altamente conscientes de pertencerem a um colectivo. Ao aceitarem que uma equipe em particular os representem simbolicamente, as pessoas desfrutam um parentesco ritual, baseado neste vínculo comum\", fim de citação.

E o que é hoje feito disso, em nós? Realmente, quando da romaria nacional angolana ao Mundial da Alemanha, 2006, parecia que isso existia em nós de forma genuína e se nos revelara peculiar. Mas hoje fico pensativo se muitas pessoas queriam mesmo estar com Angola ou somente aproveitar conhecer a Alemanha...

Parafraseando o Professor Jober Júnior ,na Copa do Mundo, a maior comprovação sociológica é que o angolano é capaz, independente da camada social, de organizar-se nas ruas e espaços comunitários para numa acção conjunta mostrar toda a sua cidadania. Gostaria de atalhar aqui no facto de ainda haver quem em Angola se recuse a aceitar que hoje já temos classes sociais porque existem donos particulares ou privados dos meios de produção que cada vez menos vão sendo do estado, e cada vez mais de indivíduos.

Voltando à acção conjunta do angolano, essa é a que estamos cada vez menos com ela. O sumiço do elemento aglutinador das acções de massas acaba por deixar as massas desorientadas sobre o significado e papel das acções conjuntas, as mesmas que nos fizeram remover montanhas e hoje nos torna vulneráveis até diante de questões mecânicas primárias como tratar do lixo. E lá mais abaixo virá compreendido um dia o papel que a escola não tem, daí o cidadão comum não tê-lo também, porque não se ensina mais.

O problema do número 9 vem do meio, passa pela escola e se projecta no vazio da nossa sociedade ainda mais preocupada em encontrar um paracetamol não falsificado ou um pedaço de pão para a maioria das famílias, não tem uma solução ao alcance dos administradores municipais e não resulta de um fracasso do projecto, mas de uma fuga do projecto. Do jeito que íamos levando, comprovámos já que daria certo se todos os pressupostos que havia nos homens do desporto, não nos tivesse de repente começado a falhar.

O 9 não se fabricam, descobrem-se e criam-se através de processos que levam tempo, mas dão fruto; se os homens não se baralhassem de repente entre sentimentos de comunidade e sentimentos de ego, nada disto teria sucedido. Angola estava a ser desportivamente um sucesso em África, decerto no mundo, enquanto tínhamos a vaca que ri.

O problema, no fundo, foi alguns quererem ficar a rir sozinhos. Como modalidade desportiva mais popular do mundo, o futebol cria oportunidades nunca vistas em um espectáculo, arte e desporto, com experiências comunitárias tão difíceis de comparar e fáceis de aproveitar, porem, esbanjadas. E nenhuma outra manifestação nossa, nem mesmo o carnaval, tem tamanho paralelo social com o futebol.

Ora, olhando para isso, vendo os argumentos bater certo por suposto, vendo as pessoas agora mais separadas que outrora, as ideias colectivas já vagas e a esfumar-se, o que nos resta concluir da falha em Angola do número 9?

Você pegue agora num avião e vá a um país como Cote d’Ivoire, Gana, Senegal, ou mesmo o mais humilde Burkina Faso, e verá em aldeias remotas projectos graúdos, a meias entre clubes locais e da Europa, que desenvolvem aldeias típicas africanas, com professores, agentes sanitários e treinadores, que parecem dirigir colégios, de rapares sobretudo, mas por vezes também raparigas, que se escolhe em centenas de aldeias e dezenas de vilas num raio concêntrico a elas, onde essas crianças crescem, estudam, aprendem e jogam à bola.

E é impossível eles darem errado porque a maioria delas sempre venceu esse desafio até aos seus 17 anos, porque se não forem craques, serão adultos formados o suficiente para poderem iniciar uma vida digna. Entre nós, o problema disto é só não haver quem faça disto. E quem não cria algo jamais irá colhê-lo.

Será o problema do número 9 em Angola, mais que isso na actualidade? Quais foram os 9 de Angola que mais brilharam? Teriam eles uma dimensão internacional?

A maneira como o jogo é pensado numa colectividade, meio ou comunidade, pesa muito. Quando vemos Job a driblar em demasia e a levantar a bancada, será isso bom para o futebol, o jogo ou a cultura dele?

O facto de o futebol espectáculo ser um conceito ente nós difícil de desconstruir é que obliteramos por completo o sentido do golo como medida, em proveito do golo como festa e, por tal, os preparativos começam primeiro, sendo o meio campo a predilecção dos nossos jovens, levar a bola no pé. Tanto que se esquecem de passa-la ou de jogá-la como um todo para o golo. E o golo é um processo colectivo e não um acto individual, pelo que entendido assim o 9 tem o seu lugar e importância.

Ora medindo o futebol mais pelo espectáculo, que o jogo, esquecemo-nos de ir desenvolvendo conceitos importantes que, naturalmente sem um sistema metodizado e oportuno do treino empregue, vamos ‘des’conseguindo. A assumpção das coisas é paralela à sua compreensão e no nosso caso esta ainda é pré-amadora. E nisto falham os nossos estrategas sociais, sociólogos e autoridades.

A maioria dos problemas em Angola derivam da pobreza geral da educação, consabido que pessoas mais instruídas são por princípio mais rentáveis e proveitosas. Não é que o país ou no país não se saiba disso, não se está é para lá virado por enquanto. Mas já se esteve e este pretérito tempo foi a partir de onde tudo parece que se complicou. E nós trocámos o desporto que dava certo por aquele que ainda deu quase nada.

Faltam na paróquia do futebol os já apelidados de verdadeiros homens do futebol em um número capaz de espalhar um empreendedor do futebol por comunidade. Os que há, parecem mal distribuídos. Falta em cada bairro um agitador desportivo, daqueles capazes de empurrar o desporto sem esperar algo em troca. Os que havia e se passaram para a política, deixaram de querer saber do desporto.

Assim e com pouquíssimos desses apelidados de verdadeiros homens do futebol, da glossário do Nando Jordão, resta-nos descobrir mais do que onde param os número 9 de Angola, tratar de voltar a semeá-los. Não é claro como fazê-lo, mas só repetindo essa experiência o mais possível iremos encontra-los.

Se prometem que em breve o desporto escolar a renascer das cinzas irá encontrá-los, acarretará o problema de os clubes para depois desenvolver os craques detectados, serão poucos e pouquíssimas serão as oportunidades para os tais rebentos desabrochar. É que se houver os futuros clubes ainda irão faltar ainda os futuros treinadores, e assim sucessivamente, veremos que nos falta quase tudo. O problema é só não se sair dali onde tem nada...

Existe um nexo, como se vê, entre não ter 9 porque não se tem como os achar direito. Claro, sabemos dos projectos de academia, mas qual deles não nasceu mais pensando em criar craques para vender, do que em ter onde ensinar o jogo em vez de ensaiar o negócio dele? Eu acho que a maioria das academias falha nesse conceito inicial e que lhe deu lugar.

Assim é que uma Abidjan empobrecida ainda conserva mais de 80, ou numa Kinshasa sempre tumultuosa ainda treinam só numa, mais de 4 mil crianças por dia pagas a razoáveis 40 dólares por mês. E a academia treina de borla outros 300 e tal desfavorecidos. E portanto qualquer semelhança connosco só poderá ser volátil.

Mas o caso número 9 não é apenas falta da infraestrutura para se treinar; faltará sempre à cultura nacional de um jogo o seu modelo e esse modelo Angola não tem ainda, pois, o próprio país pensou sempre mais nas escolas estrangeiras que lhe conviriam, do que na sua própria escola de como se jogar um jogo com as suas próprias características humanas.

Quando no Mundial de 2006 se conta que Mourinho via Angola como o país da sua mulher e do futebol com 10 atrás da linha da bola, este detalhe irritou a maioria, porém, retratou direito a imagem do nosso futebol, como agora o fazem aqueles que nos aportaram depois disso e notaram tal depressa. E daí a pergunta, porque aqui não havia o número 9, o matador?

É quando nos detemos nestas matérias que nos damos conta de quão profunda é a questão desportiva no país, fruto, para mim, de uma mudança geracional e de comportamentos que começou a ver a árvore em vez da floresta e a ignorar a obra em benefício das primeiras impressões deixadas; e quase sempre os que mais conseguiram impressionar o voto, depois acabaram por merecê-lo.

Q questão das constantes mudanças de treinadores, sem primeiro se aprimorar a metodologia e deixar os processos criar rotina até poder-se ver os primeiros resultados, retrata essa impaciência do novo dirigismo desportivo e explica as etapas saltadas e queimadas, sem infelizmente colocar em causa os métodos de direcção e, por isso, os dirigentes.

Houvesse um projecto e saber-se ia onde estamos, para onde queremos ir, como lá haveremos de chegar e quando nos poderemos dar por chegados, estabilizados e produtivos. E quando estes exemplos faltarem vir de cima, não se espere por ver iniciativas bem sucedidas cá em baixo; na melhor das hipóteses, nunca se irá estudar um sucesso individual nas bases enquanto no topo da hierarquia só se olhar para cima e para os seniores, idade em que é demasiado tardio para poder-se corrigir e se obter o que nos falta.

O 9 e os demais devem ser descobertos putos ou imberbes, adaptados em juvenis, aprimorados em juniores e desenvolvidos ao mais alto rendimento em seniores ou seja, em processos que podem levar até 10 anos, antes de as árvores poderem dar fruto; mas para dar, é preciso plantá-las primeiro e regar, regar, esperando as primeiras flores aparecer antes de começarem a dar frutos.

Sem dirigentes que pensem no futuro é difícil podermo-nos congratular deste presente que vamos vivendo...
ARLINDO MACE

Últimas Opinies

  • 09 de Dezembro, 2019

    Ruben chegou, viu e permaneceu

    O técnico argentino Rúben Garcia é o técncio estrangeiro que mais tempo esteve no  Girabola.. Desembarcou em 1982 para estar ao serviço do  1º de Maio de Benguela, para, depois,  orientar a  Académica do Lobito, FC.

    Ler mais »

  • 09 de Dezembro, 2019

    Do amor ideologia, devoo ao dinheiro

    Ler mais »

  • 09 de Dezembro, 2019

    Prova influenciou a media desportiva

    O “Girabola”, pode-se agora afirmar, influenciou sobremaneira a formação da Redacção Desportiva da RNA. Aquele mencionado quinteto de radialistas havia-se tornado insuficiente para a demanda, sobretudo a partida dos dois últimos.

    Ler mais »

  • 09 de Dezembro, 2019

    Notas da Histria do nosso futebol

    A história oficial do futebol angolano teria de  começar pelas décadas de 1920-30-40, porém, vamos aqui cingir-nos ao tempo de Angola já independente. E não se iria festejar a independência sem se jogar à bola; seria incaracterístico de um povo amante do futebol.

    Ler mais »

  • 09 de Dezembro, 2019

    Arbitragem de poca em poca

    A história do Campeonato Angolano de Futebol, Girabola, como também é conhecido, é repleta de factos curiosos em termos de arbitragem. O campeonato é considerado por muitos especialistas do futebol, como um dos mais disputado do nosso Continente, o que é diferente de ser o melhor.

    Ler mais »

Ver todas »