Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A fico do desporto nacional prossegue

24 de Maio, 2017
Diz a sabedoria popular que camarão que dorme, a onda leva. Mas não será por medo de ser levada que a direcção desportiva do país antecipou já publicamente como há-de ser o nosso desporto até 2020. Os actuais incumbentes admitem até lá termos no país um milhão de desportistas. Isso mesmo, um milhão! Daqui a 3 anos.

Para mim há duas coisas que merecem observação. Primeiro, não se percebe haver ali nenhuma ideia de transição, mas de continuidade; admitindo que as próximas eleições nada mudem, então já sabemos quais as netas do futuro governo do desporto.

Em segundo lugar, termos um milhão de desportistas até 2020 soa mais a termos um milhão na massificação, senão vejamos. Avançadas como foram as linhas mestras do próximo quadriénio será de admitir que deva estar a ser preparada uma espécie de emulação socialista para gerar em pouco tempo tantos zeros.

O número de atletas federados no país tem uma tendência decrescente e não é de agora. Particularmente o número de atletas femininos é hoje vizinho da quase extinção do desporto feminino, tido que o andebol e basquetebol praticados em Luanda são números pouco expressivos para a prática feminina do desporto em todo o país.

E porque retrocedemos tanto no desporto?
De um conjunto de vários segmentos desportivos, desde clubes federados a desporto jovem e escolar, até desporto corporativo e militar, nem tudo daquilo conserva hoje a expressão de outrora. E quando se pensava que havia falta de infra-estruturas, o tempo veio revelar, isto sim, a escassez de instrutores. E paulatinamente o empobrecimento dos que já havia.

Ser treinador passou a ser ingrato: não há clubes para tantos, nem sequer o desporto e educação física nas escolas para o mercado de trabalho absorver os professores ociosos. Alguns treinadores de nomeada, inclusive, trocaram de profissão. Poucos, mas bons, ou no mínimo razoáveis, perceberam que em Angola o desporto ia entrar em um busílis e criar o imbróglio que hoje temos.

A profissionalização do desporto matou metade do desporto e os clubes lançaram no desemprego até treinadores que poderiam fortalecer a sua base jovem e empreender um trabalho consistente que hoje se pretende empreender nos juniores, como salvaguarda dos seniores, mas que devia começar mais cedo, nos iniciados e juvenis. Porque os talentos não se descobrem juniores, mas antes, muito antes, e este trabalho foi o que se viu interrompido, relegado e passado a ser ignorado.

De repente, alguém estala os dedos e descobre que a resposta está na massificação. Massificação com quem, é a primeira pergunta. Eu equipo jovens de camisola, calção e sapatilha – se houver verba para isso a uma escala que seja pelo menos parcial do país – e depois faço a sua iniciação desportiva com quem?

Entre os mais de 20 mil professores formados pelo país, de certeza que os de educação física não chegam a um em cada três novos professores. Assim sendo, com um número arredondado – e de um optimismo exagerado - de 10 mil professores de educação física, quantos deles estarão fora do quadro de professores de uma escola e disponíveis para irem ‘massificar’?

De realçar que não ficou expresso na declaração de ‘um milhão de desportistas até 2020’ se tal número seria o total o total de praticantes federados, escolarizados, trabalhadores e militares, ou o total destes mais os ‘massificados’. E ainda assim, onde temos treinadores e monitores para tantos?
Confesso que não sei agora – nem tenho como descobrir – se tal afirmação de grandeza é realista ou futurista.

O que a história me tem mostrado é cada vez menos praticantes federados nas modalidades, clubes que se apagam e modalidades que quase hibernam.

Quem sabe, esta ‘crise’ sirva para reajustar a realidade e dar vida apenas àquilo que tiver pernas para andar. E regionalizar certas modalidades menos populares para uns, ou mais exóticas para outros, como ciclismo, desportos náuticos, patinagem, ténis de campo, e pelos vistos até a mãe de todas as modalidades, que é o atletismo.

Sim, o atletismo, que se ajusta a toda a criança – correr, saltar, arremessar – sucumbe à futebolização do desporto e dos clubes, das iniciativas e das verbas, sem ter a solidariedade de quem, olhando para o desporto com cultura e educação, ‘desconsegue’ de introduzir o atletismo no quotidiano dos jovens. Claro, não por decreto, mas por exemplaridade, pragmatismo, institucionalização e programação.

País que não corre, povo que pouco se mexe, são presságio de sociedade pouco ágil e mórbida, resignada e sem grandes aspirações. Alguém dizia que os Africanos não gostam de correr, mas é falso; os povos das montanhas de África estão entre os dominadores das corridas; já alguém diz também que os Angolanos não gostam do frio, então redobrada razão para aquecerem.

Mas não passam de sofismas, de falsas verdades para nos inculcar que é normal as coisas andarem assim empobrecidas e futebolizadas. E tal já é ‘de per si’ um derrotismo cultural. Estamos a perder virtudes desportivas e temos de acudir a isso, antes que um dia as novas gerações deste país com baías e enseadas e uma linha de costa de mais de mil quilómetros olhem para um barco de remo ou de vela acreditando serem pequenas embarcações de pesca.

A explicação de todo este fenómeno está na sociologia do nosso desporto, que foi mal lida e interpretada pelos ‘continuadores’ da obra da independência nacional e que se desprenderam de velhos institutos da nossa prática colectiva, para aderir a um novo paradigma de vivências desportivas matizadas pela parcialidade dos decisores e deveras mutiladora de pequenas grandes conquistas dos primeiros anos da nossa república, como os ‘Caçulinhas’, a cultura física e recreação, o INEF de verdade, a metodologia do desporto cultivada na antiga secretaria de estado da Educação Física e Desporto, entre outros ‘marcos’ do desporto Angolano do passado.

Do passado para o presente, para a actualidade do desporto Angolano, vemos um país rendido ao ‘Girabola’ e à pobreza do futebol, arrastando consigo outras derrocadas, como as dos treinadores, árbitros e dirigentes. E, claro, dos novos atletas. Ou desportistas.

Será que há lógica em tudo isso? Sim, o nosso estado de coisas é lógico. E o sol não se tapará com a peneira.

Que importância terá para Angola um milhão de desportistas nesta pobreza do estado das coisas do desporto? Teremos um milhão de crianças a correr a trás de uma bola, talvez, mas não desportistas. Nem atletas. A menos que o enquadramento desses números seja feito por pelo menos algum número de gente capaz, que forma mais gente capaz, para por sua vez capacitar mais gente, aspirando nessa travessia encontrar alguns talentos, que possam ser bem iniciados por estes acabados de capacitar.

Depois que um país já experimentou toda a descredibilização dos seus treinadores e preferiu, até, o mais curioso dos estrangeiros, à sua própria nata nacional, é de pensarmos em nos refundar, ou começar a valorizar tudo o que sendo nosso e bom, foi prescindido um dia e sem razão aparente de ser.

Um exemplo: Victorino Cunha vai para o ministério como consultor, mas ele faria melhor formando metodólogos desportivos – alguns autores acham esse nome pejorativo, tal como dizer comunicólogos – mas então haveria no treinamento desportivo alguma ciência que faria com que os treinadores angolanos fossem vistos como imprestáveis e trocados por estrangeiros.

Nesta coisa de que o ‘ministério não se mete’ e o circo desportivo fica sem dono, há uma ausência ou, até, falha de políticas desportivas que são a mãe da crise. Nossos modelos por vezes decalcados de Portugal ou Brasil, são uma ‘cábula mal copiada’ porque os pressupostos deles são diferentes dos nossos, logo somente parte das suas teorias nos podem servir enquanto andarmos na cauda do desenvolvimento desportivo, pois, queremos montar escola sem primeiro preparar os professores.

Assim e por este caminho, não sei se os ‘voluntários’ para preparar um milhão de desportistas até 2020 virão também de fora, nem se até lá haverá introdução à materialização de encontros e conferências de 2008, 2011 e 2015 que se realizaram com a promessa de mudar o talhe do futuro desportivo do país, que a exemplo da economia deve porventura também estar classificado de ‘lixo’.

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