Jornal dos Desportos

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Opinio

A hora do "Big Brother"

16 de Agosto, 2018
Há coisas que ressoam na cabeça. Há coisas que merecem explicação. Na passada semana ocorreram dois abalos fortíssimos para o futebol africano. Em apenas dois meses, o novo Presidente da CAF, Ahmad Ahmad, ficou sem dois dos seus principais lugares-tenente na reforma que está a empreender na organização, primeiro a nível administrativo e financeiro, e em paralelo, a nível da arbitragem e do desenvolvimento do jogo no continente. E, claro, começou por trocar as datas dos CAN, doravante em Junho, para acertar passo com as ligas europeias.
Após o tombo no cadafalso que levou a semana passada o zambiano Kalusha Bwalya, suspenso pela FIFA por dois longos anos, Ahmad-Ahmad perdeu um membro do grupo de estudos técnicos com um pé na federação internacional, além de perder um futuro homem-forte na confederação e um dos visionários sobre quem repousava boa parte dos planos técnicos do futebol africano. Hoje, na CAF, essa pasta está com o antigo craque ganês, Tony Yebboah, secretário-geral adjunto da CAF para a área técnica, cujo director para o desenvolvimento do futebol africano é, desde Junho, o angolano Raúl Chipenda.
Kalusha aceitou um presente e o comité de Ética da FIFA moveu-lhe um processo que culmina nesta suspensão de todo o futebol, o que significa também ter de suspender o seu mandato como membro da comissão executiva da CAF, para além do cargo técnico na FIFA. E, como se não bastasse, foi multado em 100 mil francos suíços, praticamente o mesmo em dólares, que foi considerada uma multa muito pesada pela escala de valores das punições pecuniárias habituais na federação mundial. E o comité ético acusou ainda Kalusha Bwalya de quebra de confidencialidade.
O caso aparece associado à controvérsia da outorga ao Qatar da Copa do Mundo FIFA de 2022, que já havia custado a vida futebolística do qatari Bin Hammam, à época, presidente do comité de candidatura e antigo presidente da confederação asiática; Hammam foi acusado de suborno massivo no seio da FIFA para o Qatar sair beneficiado na votação. Acto contínuo, os desfeiteados candidatos americanos, assim como os britâncios, ambos derrotados pela votação no Qatar, desencadearam um expediente persecutório, passe a expressão, iniciado com revelação através da rede de rádio e tv da BBC, de Londres.
Esse reboliço iria culminar numa detenção maciça de dirigentes de futebol principalmente sul-americanos e caribenhos, e mais tarde com o comprometimento dos então presidentes da FIFA e da UEFA, respectivamente, Sepp Blatter e Michel Platini, suspensos pela FIFA por oito anos. E o caso não morreu aí.
Desde Fevereiro de 2017, que o comité de Ética da FIFA esteve \"focado principalmente nos benefícios que o Sr. Bwalya recebeu do Sr. Bin Hammam\". Assim sendo, Ahmad Ahmad acabava de perder outro pé de apoio, que representava Kalusha. Ambos são homens respeitáveis na COSAFA e activistas do plano que acabou por apear Issa Hayatou da presidência da confederação africana. Mas, os seguidores deste permanecem na confederação e sabem tirar partido da fragilização das posições, podendo embaraçar a política de substituições de membros executivos e futuras nomeações em pelouros, que o presidente da CAF estrategicamente gere.
A uma semana da última Copa do Mundo, na Rússia, havia detonado o ‘Anasgate’, nome dado em homenagem ao jornalista investigativo ganês anas Aremeyaw Anas, que se lançou numa autêntica saga focada na revelação do lado obscuro do futebol do Gana, como ele mesmo apelidou; e começou por captar em vídeo o então presidente da federação do país, Kwesi Nyantakyi, traçando um plano para alguns investidores sobre como eles podem usar dinheiro para garantir grandes contratos e influenciar o governo do Gana.
“Você pode começar com um montante pequeno, à sua discrição, e, então, quando se conseguir o contrato, o grande contrato, podemos voltar e dar-lhes mais dinheiro, e assim vamos dominar todo o país \", disse Nyantakyi aos\" investidores \"no vídeo divulgado por Anas Aremeyaw Anas. Foram estas palavras que foram captadas em câmara e intituladas episódio número12 da série de documentários televisionada da purga, com que culminou um trabalho de investigação de dois anos, pela Tiger Eye PI, em colaboração com a BBC.
Nyantakyi, que foi preso em 22 de Maio, desde então foi advertido e libertado sob fiança, aguardando investigações sobre um possível caso de defraudar por falsos pretextos, após uma queixa à Polícia pelo Presidente do Gana, Nana Akufo-Addo. Kwesi Nyantakyi teria sido capturado na peça investigativa usando o nome do Presidente, o nome do vice-presidente e nomes de outras autoridades estaduais para induzir potenciais investidores a desfazerem-se de algumas somas de dinheiro. Luvas para ele fazer o serviço, tecnicamente falando. E assim Kwesi foi apanhado em câmara a receber 65 mil dólares.
Para o Presidente da CAF foi a pior notícia no pior momento. Ahmad foi abalado para o congresso eleitoral de Moscovo, onde, para cúmulo, perdeu a candidatura do Marrocos, que a CAF apoiava aberta, mas não efectivamente, como se viu na contagem pública dos votos; os Sul-Africanos aproveitaram para se desforrarem dos marroquinos, por estes, aquando da votação para a organização da Copa de 2010, terem boicotado a candidatura sul-africana. E assim, sob iniciativa do Zimbabwe, a maioria esmagadora da COSAFA, mas não só ela, votaram, não contra o Marrocos objectivamente, mas a favor da candidatura com maior promessa de retorno financeiro para a FIFA, que é a do tridente Canadá-Estados Unidos-México, que promete 3 vezes mais retorno financeiro, 12 mil milhões de dólares, comparativamente ao Marrocos.
Uma desgraça, diz-se nunca vir só; a verdade é que em dois meses, o novo Presidente da CAF, Ahmad Ahmad, perdeu dois pilares da renovação que empreende e que desacreditam demasiado o futebol africano por não se tratarem mais de homens de Hayattou, mas, do seu braço direito e de um outro do seu ‘inner circle’ ou ‘entourage’, como também se pode dizer. Aliás, basta referir que Kwesy Nyantakyi, além de primeiro vice-presidente, era membro da comissão executiva da CAF e membro do Conselho da FIFA, enquanto Kalusha tem um histórico que vale bem enumerar.
Conheci-o durante os jogos olímpicos de Seul, na Coreia, em 1988; era ele extremamente introvertido, apesar de talentoso e seguro de si, que haveria de crescer até se tornar ele próprio jogador-treinador, mas, primeiro estávamos a falar dele no torneio de futebol desses jogos.
Foi pelo estilo veloz e arrojado que Kalusha Bwalya, então com 25 anos, fez história nas Olimpíadas de Seul. Naquele 19 de setembro de 1988, o atacante do Cercle Brugge, da Bélgica, marcou três golos à favorita Itália, que tinha nomes como Tassotti, Ciro Ferrara e Carnevale. O sonho de uma medalha olímpica para a Zâmbia acabaria precocemente nos quartos-de-final, com a derrota por 3 a 0 diante da Alemanha Ocidental. Os jogos tinham acabado de sair da Guerra Fria, quando havia duas Alemanhas, e duma vaga de boicotes; primeiro os Estados Unidos arrastaram o Ocidente e mormente a Europa para o boicote aos Jogos de Moscovo, em 1980, e na hora de dar o troco, a então União Soviética arrastou num boicote aos jogos de Los Angeles, todos os países do sistema socialista mundial, incluindo Angola.
Depois da façanha diante dos italianos, Kalusha Bwalya virou o assunto do futebol dos jogos olímpicos, juntamente com o brasileiro Romário, que acabaria como o “goleador” (sete golos) e medalhista de prata com a selecção brasileira. O zambiano terminaria 1988 eleito “Jogador Africano do Ano”, pela revista \"France Football\". De 1989 a 1994, o zambiano jogou no PSV, pelo qual conquistou, ao lado de Romário, o campeonato holandês, em 1991 e 1992.
De 2003 a 2006, Bwalya treinou a selecção nacional de Zâmbia e, em 2008, elegeu-se presidente da federação de futebol do seu país, cargo que ocupou até 2016. Na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, pelo seu prestígio como ex-jogador, foi integrado no Grupo de Estudos Técnicos da FIFA, responsável pelos relatórios técnicos e tácticos de cada Mundial FIFA.
Kalusha Bwalya é o único jogador da selecção de Zâmbia que escapou da morte no acidente aéreo que vitimou a selecção da Zâmbia, em Fevereiro de 1993. O capitão da selecção, Kalusha Bwalya, só escapou porque havia um acordo do clube dele, o PSV Eindhoven, com a federação para que o artilheiro voasse directamente da Holanda para Dakar, e dali para Libreville. E assim se evitou a morte do artista.
Com a dupla função de técnico e jogador, o atacante ajudou a reconstruir a selecção de Zâmbia, que acabaria vice-campeã da Copa Africana das Nações (CAN), em Fevereiro de 1994, derrotada apenas na final pela Nigéria. Já com 32 anos, Kalusha ainda seria artilheiro da mesma CAN-1996, quando a Zâmbia terminou em terceiro lugar.
A BBC disse algo que ainda soa a epitáfio, e eu cito: - Tantos anos de glória com a bola nos pés são trocados pelo ocaso, provocado pela ganância que tem arruinado a história de dezenas de dirigentes do futebol mundial.
Quanto a Nyantakyi, demitiu-se de seus papéis e foi provisoriamente suspenso pela FIFA por 90 dias, enquanto seu comité de Ética investiga as alegações contra ele. O futebol do Gana aprofundou a sua crise como resultado, com as alegações de corrupção, tendo levado o governo a dissolver a federação.
Um árbitro foi irradiado sábado último, 7 outros suspensos até 6 anos, e 14 estão sob investigação, ainda, do “Big Brother” do momento, Anas Aremeyaw Anas, mais a sua produtora Tiger Eye PI. Recordo que eles estão há mais de dois anos no encalço das apelidadas tramoias do futebol, que já extravasam as fronteiras do seu país, Gana.
A Confederação Africana de Futebol (CAF) suspendeu vários árbitros capturados no vídeo recentemente divulgado por Anas Anas sobre suborno e corrupção no jogo. As sanções foram pronunciadas pelo comité de Disciplina no passado dia 5 e divulgadas neste fim-de-semana em comunicado da confederação. As seguintes decisões foram tomadas pelo Conselho Disciplinar da CAF em relação aos árbitros envolvidos:
Marwa Range, Árbitro Assistente (Quénia): proibição vitalícia de todas as actividades do futebol relacionadas com a CAF; Jallow Ebrima, Árbitro Assistente (Gâmbia) e Yanissou Bebou, Árbitro (Togo): 10 anos de proibição de todas as atividades do futebol; Denis Dembele, Árbitro (Costa do Marfim): 6 anos de proibição;
Boukari Ouedraogo, Árbitro (Burkina Faso), Moriba Diakite, Árbitro Assistente (Mali), Demba Boubou, Árbitro Assistente (Mauritânia) e Maman Raja Abba Malan Ousseini, Árbitro Assistente (Níger): 5 anos de proibição de todas as actividades do futebol;
Marius Tan, Árbitro Assistente (C. Marfim), Bi Valere Gouho, Árbitro Assistente (C. Marfim) e Coulibay Abou, Árbitro (Costa do Marfim): 2 anos de proibição de todas as atividades de futebol relacionadas com a CAF;
A mão pesada da transparência abate-se cada vez com mais força sobre o futebol, uma indústria que só na Copa de 2026, a FIFA espera arrecadar 12 mil milhões de dólares de lucro líquido, graças aos direitos televisivos, de marketing, de transmissão, para além de receitas de arrendamento de espaços e exploração das marcas oficiais, entre outros chorudos milhões daqui e dali, que a FIFA deseja rentabilizar para investir 3 vezes mais nas federações nacionais, ou sejam, projectos numa ordem, minimamente, até 10 milhões de dólares.
Com as pioneiras tecnologias da linha de golo e do árbitro-video (VAR), a FIFA sente-se devidamente protegida, doravante, para dar caça ao jogo viciado. E aqui em África poderão ocorrer mais notícias espantosas, ainda.
Angola não é um espaço ou ambiente à parte; debaixo de forte escrutínio cada vez mais, os homens angolanos do apito – mas não só, dos clubes igualmente – devem estar cada vez mais sensibilizados para a presença das novas tecnologias e transformar os mandamentos da sua igreja – raro é o angolano que não tenha a sua – em conduta do dia-a-dia, onde decerto não se fala em suborno, nem em corrupção. Nem serve a desculpa de que a vida está dura e há-que se saber virar nos trinta...
No dia em que assim fosse, a prostituição também seria legítima... Cada vez mais se tem profissionalizado o futebol e não tardará o dia em que os árbitros das ligas nacionais sejam igualmente seus profissionais, embora num órgão autónomo, porém, conexo. A profissionalização tem por lemas ‘ética e deontologia’, e a partir daí falar-se de corrupção na arbitragem será mais raro.
É preciso que a sociedade compreenda e defenda que tudo se deve pautar por normas, ou seremos sempre uns anormais. À nossa frente estende-se um mundo que a cada dia que se desenrola põe mais em evidência como esse mundo é cada vez mais da probidade, conformidade e transparência.
Arlindo Macedo

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