Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A hora para pensamentos campees

02 de Agosto, 2018
Uma relativa euforia invadiu o ambiente do futebol são e onde pouco cabem aqueles que nada sentiram, por mais espaço que haja e que o futebol contenha. Actualmente com menos de 1.500 atletas federados num universo de pelo menos 12,6 milhões de adolescentes e crianças, o futebol tem de facto a ganhar com estes lampejos de resultados. São êxitos, para todos os efeitos.
Mas são êxitos que não deviam morrer na praia, nem como rastilhos de pólvora molhada em outra banhada do desporto angolano, que tão pouco tem feito ultimamente por si próprio a si mesmo. Até o antigo ministro da pasta se passou para Administrador do Cazenga, em outra de centenas de evidências de quão inconsequente se pode tornar o nosso sistema. E por mais que pareça ironia do destino, os mais de 450 mil jovens e crianças daquele município já sonham com espaços desportivos e de lazer planeados pelo seu novo administrador, onde nem pista de 100 metros de atletismo vai faltar...
Sonhar não é proibido. Albino da Conceição acaba de ganhar uma oportunidade de erguer como Administrador Municipal aquilo que não lhe vi patrocinar no MINJUD. Ele mesmo doutorado em desporto, apesar do seu opcional translado político de carreira, pode ainda e mais que nunca, empregar na política a sua visão de desportista de um dia. Tempo e terreno não vão faltar no Cazenga.
O resultado comparativo que se me oferece agora entre o antigo Ministro da Juventude e do Desporto, os ainda frescos êxitos dos Sub-17 de futebol e a fresquíssima nomeação de novos responsáveis, entre os quais o novo Administrador do Cazenga, é o meu regozijo pela feliz coincidência que se me ofereceu co-relacionar coisas e factos. Como entendido que é, Albino da Conceição pode empreender uma experiência piloto de municipalização do desenvolvimento desportivo, sem ter de esperar por autárquicas e 2019.
Agora estamos perante duas realidades. Uma que é entre o curto e médio prazos, que é capitalizar sobre estes ganhos na COSAFA (Sub-17) e na CPLP (Sub-16), e acto contínuo empreender uma ‘Agenda Copa do Mundo FIFA 2026’, e outra realidade será o haver ganho embalo para começar a organizar desportivamente as municipalidades, porque é a única experiência que nos resta ter e que ainda não surtiu por descaminho de verbas e falta, muita falta de iniciativa local.
Para a criançada o futebol move o maior número de paixões e também é aquele com menos requisito, bastando uma bola de trapo e duas pedras de cada lado.
Uma fórmula destas tão simples ainda deixa especados autoridades, ditos amantes da modalidade e outros que têm futebol para dar depois de pendurar as chuteiras, falam muito, mas abraçam projecto nenhum, pelo menos os que não têm já dinheiro em cima da mesa à partida...
E por cima destas realidades está o Estado
O accionista único da empresa República de Angola é o responsável pela gestão da sua própria instituição, seja em matérias de investigação e pesquisa e desenvolvimento do conhecimento, saber e tecnologia, (...), seja sobre a justeza das receitas económicas e dos orçamentos, (...), ou seja simplesmente combater a ociosidade numa sociedade carenciadíssima de emprego da e ocupar positivamente o tempo livre das crianças e adolescentes particularmente, como parte da tarefa de responsabilidade corporativa do accionista. É importante para o Estado e em qualquer continente que olhe para as suas crianças como futuro da sua nação e por isso importa também como se há-de trepar essa escadaria da vida até se chegar a adulto.
E numa empresa exemplar sempre se deve cuidar dos activos. Mas, voltemos o fio à meada desta conversa... A municipalização é um projecto que sendo parte do OGE e não constando muito no resultado da paisagem desportiva a que assistimos pelo país fora, especialmente quando saímos do asfalto.
O país tem províncias tecnicamente sem um clube com visão nacional. Nem parece que antigamente não havia campeões nacionais de futebol de Moçâmedes, Lwena ou Uíje. O ADN está lá se lhe derem água e há-de fertilizar-se se os agricultores da palavra fácil e exemplo difícil com carteira no futebol, levarem o seu saber a essas comunidades e clubes locais. Felizmente eu não preciso de pedir ao Executivo para sonhar em quanto lhe valeria ter Angola a chegar nas calmas ao Mundial de Futebol ali no coração do imperialismo que canelou tanto a sua independência, visto a Copa de 2026 ser nos Estados Unidos, além do México e Canadá. Pelo menos era como pensaria Putin...
Visitei Moscovo e voltei convencido de que antes eu devia ter visto e consumido demasiados filmes ocidentais. E percebi deveras quanto Putin ia sair a ganhar com a Copa do Mundo da FIFA em sua casa. Como também acabaram por ganhar outras nações que lá estiveram. Em duas ocasiões fiquei a poucos metros dele, no congresso electivo de 2026 e no estádio, onde se sentiu o efeito social do futebol, feito raro entre as outras modalidades, que não discrimino, só comparo.
Recentemente Putin visitou e encorajou a selecção russa e o seleccionador, deixando adivinhar que haverá reforços de verbas. Aqueles soldados até podiam ser todos vermelhos nos seus uniformes desportivos, mas eles serviram brilhantemente a não em termos desportivos, económicos e sociais. E Putin sacudia a onda anti-russa por ‘doping’ e ‘ameaça à paz mundial’ graças a penas como 45 mil Euros por cada bilhete falso apanhado à venda, 15 mil euros por desacato á polícia e até ano e meio de cadeia por tocar num agente policial, o que resultou no relançamento do país na arena internacional pela porta do céu.
Na mesma imagem e com um charme com que lhe conheci um dia na portaria da rádio e outro no Cine Miramar em duas vezes que cruzamos cumprimentos com apertos de mão, o nosso Putin não ficava e não ficará a dever nada ao deles, se se mantiver um entusiasta da criação e da disciplina, coisas de que o país tanto precisa. E não estou a falar de política, mas de esperança para a indústria do futebol numa sociedade de tanto desemprego e carência de oportunidades que escapem aos monopólios.
Só quem não está a par dos números do futebol não engloba ele na sua economia. Ainda por cima na Era da tv por satélite e do ‘paga-para-ver’ só não anda elucidado nisso quem não pode ou mora o seu tempo num canal errado.
E não me vou cansar de repetir que em Angola temos 3 hipóteses naturais contra o desemprego: agricultura, novas energias e tecnologias, e indústria do entretenimento. E nesta última, o futebol é o rei das acções e bolsas de valor desportivo.
Ir a um Mundial é despesa para um país, até ver o que é despesa exactamente e o que é investimento, pois as despesas de investimento não contam e infelizmente esta noção não faz parte da cultura da maioria dos ‘boss’ angolanos, para quem investimento é despesa, logo é perda (!).
Alguém reparou quantos países africanos lá chegaram? E reparou em quais deles lá estavam outra vez? E sabe quais desses estarão certamente da próxima e da próxima ainda? Se você sabe isso, então, continuamos só a ver tv, ou estamos igualmente a perceber o que é que temos de lhes copiar?
Eu sei que vai perdurar uma divisão entre quem acha que o Estado deve estar envolvido no desporto e quem acha que a sociedade civil é que deve regularizar isso por si mesma. Mas, um Estado sem um projecto global e donde o desporto seja parte há-de reflectir sempre um Estado progressista, ao contrário do estado da indiferença e do que nos é retrógrado. Nós lutámos pela independência e alcançámo-la e tivemo-la e prometemo-nos coisas que temos que cumprir, manter, e outras ainda, para recuperar.

Há revezes por que se tem
que passar numa reconstrução


A curva sinusoidal que o desporto sofreu na primeira crise de facto da economia nacional foi quando acabaram a maioria dos clubes e grupos desportivos que, entretanto, eram maioria de quem fazia o desporto nas camadas jovens, não só em Luanda, como na maioria do país. Desta vez, em plena segunda crise nacional de facto da economia, em que não temos mais a ‘reforma económica do SEF’ para culpar, a culpa será de tudo menos da burla financeira mundial, que só veio limitar ganhos aos abutres, e será a culpa da ganância.
Um pouco por todo o país os clubes também são delapidados e o desporto reflecte a imagem de praça de reserva de importância comercial, mais do que importância desportiva. Sim, hoje até podemos perguntar, alto e bom som, desporto, o que é isso actualmente em Angola?
Tal como o novo-riquismo transformava a nossa sociedade, adulterou a nossa juventude. E no passar dos anos foi atroz como o desporto se desprendeu da escola e como a criançada deixou, até, de saber correr, pular e brincar a correr.
Este foi realmente um dano cultural tremendo nos hábitos da juventude e uma justificação de muita coisa ruim que se atracou a nós através das crescentes práticas incentivadas por maus exemplos, de impunidade ou seguidismo, na sociedade que temos e que é única.
Diante de factos assim é esperada uma atitude do accionista do país, que é o Estado. O accionista, mais que cuidar, preserva a sua empresa e cuida dos seus activos. Esse accionista é um ente colectivo e abrangência ou latitude para políticas transversais que moldem a sua empresa e rendimentos, de contrário, dá para perceber que não estou aqui a avaliar um prejuízo apenas do futebol, nem mesmo do desporto no seu total, mas de toda uma sociedade, inclusive da sua economia, do seu trabalho, das suas carreiras e oportunidades, e tudo somando dá a vida de milhares de jovens sem cuja força nunca haverá na nossa nação esse ‘power’ de outras 39 que já conheci em África.
Cada vez que olhamos para os nossos vizinhos e vemos que os seus projectos ganham anos de vida e resultados, dá vontade de chorar por em Angola só haver muitos projectos de ganhar dinheiro, nada de projectos para começar a criar obra, menos ainda daqueles que visem reflectir-se no rosto do munícipe, especialmente do jovem, adolescente e criança que ainda hoje não têm quede, bola e terreno para jogar, brincar, correr e crescer como devia ser.
Se para alguns, como a lembrança que carrego do dito do antigo capitão e dali deputado, Gustavo da Conceição, a “federação não é para massificar(...) e cabe à sociedade civil tomar dessas iniciativas”, para me responder por quê a federação não pegava no “MiniBasket” após consumada a morte do “AB-Rua”, então, pode ser que continuemos a decair com pouco estrondo e a parecer que são faltas de sorte passageiras apenas.
Desta forma e porque chorar sobre leite derramado é perda de tempo, oferece-se-nos e ao Estado, municipalizar o desenvolvimento desportivo e chamar a atenção para os Administradores Municipais saberem lidar governativamente com o lazer, a cultura e o desporto, na certeza de que são cumpridos elementares direitos de cidadania e que a presente situação só contribui para a tristeza das pessoas. É só ver como o povo fica de rastos quando perde o Petro ou o Agosto, para perceber que o efeito de massas do desporto é parte do activo com que o Executivo conta e lida, mas que não tem sido subsidiado direito ali onde e quando há projectos para a nação ganhar.
E o MINJUD é quem deveria gerir cientificamente esse portfolio, mas, para isso precisa de diferente maneira de estar, isto é, postura, miolo e iniciativa. Até aqui não se tem visto evidência de notáveis projectos em curso, para além do ‘cafrico’ às infraestruturas e mais recentemente ao Hotel Palanca; sem mais nada para rivalizar com o projecto do andebol feminino, único que sobrevive de auto-sustentação, mesmo sem a dimensão geográfica que passe de duas cidades e seis clubes num país inteiro, isso ainda é a única referência nacional digna no momento. (ah, o hóquei!)
Também no futebol tem havido campeonatos jovens nacionais com doze equipas de se tanto quatro províncias, entre elas 6 equipas de Luanda, o que é esclarecedor da pobreza do resto do território nacional, entretanto, carregado de municípios. Apetece perguntar, com o que se entretêm e cultivam por lá?
Daí a importância e pertinência do desporto municipal e do futebol municipal em particular. Haver em todo o país menos de 1.500 filiados em todas as categorias e ambos os sexos, num universo de 12,6 milhões de angolanos com menos de 15 anos de idade, tal é um dado preocupante sob todos os escopos e perspectivas e prismas de análise, sejam da política ao desporto passando pela sociologia, democracia ou reconstrução nacional. E tudo isso é praia do futebol...
Somos um absurdo! Até os absurdos têm tratamento.
Arlindo Macedo

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