Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A longa e comovente histria da Tia Keta

09 de Julho, 2018
Ontem cruzamos o caminho da Tia Keta. Uma senhora já idosa, nos seus 68 anos. Reside em Moscovo há mais de 30 anos. Para cá chegou depois da morte do marido, em Lisboa, para onde foram a busca de soluções para um terrível cancro, que acabara com a vida do seu amor.
Sozinha em Moscovo, nem por isso Tia Keta perdeu a alegria da vida. Mantém o entusiasmo e vive a vida intensamente. Apesar da já avançada idade, ainda conserva uma aparência jovial. É verdade. Anda a pé como ninguém e diz ter vivido uma juventude menos abusada com festas, discotecas e consumo de álcool. Talvez essa fosse a fórmula para a manter como está, ainda em dia!
Perante o cenário oportuno, aproveitei para lhe colocar questões. Afinal, gosta de conversa. Contou-me sobre tudo e mais alguma coisa. Qual máquina de falar. A tia abriu todo o livro e não teve cerimónias em recordar, também, sobre um passado azedo da experiência vivida na Rússia.
Quando para aqui chegou, ainda na ex-URSS, Tia Keta foi obrigada a conviver com situações embaraçosas, menos confortável para quem vinha de uma experiência de Portugal, muito mais agradável. Falou-me sobre o quão asfixiante era a política do comunismo, em que não podiam sair do país e muito menos partilhar o que ao branco pertencia.
Contou-me sobre as épocas em que, ainda jovem, foi obrigada a conviver com a diferença entre brancos e negros. Diz ela, que havia locais em que apenas os brancos podiam estar e aos negros não era permitida a presença.
Justifica, por isso, a dificuldade dos cidadãos russos em libertarem-se deste sentimento, extremamente conservador. Diz ser uma consequência dos longos anos que foram impedidos de sair do país e andaram fechados e submetidos a uma política rigorosa.
Mas a senhora fala feliz. Feliz por estar a viver hoje numa Rússia diferente, totalmente despida do passado. Levou-nos a passear para locais em que antes era impensável estarem negros.
Sobre a Angola tem apenas recordações do seu Sambizanga. Não vai a Luanda desde 2004. Ainda não agendou viagem de regresso, mas acredita estar para breve, pois jura de pés juntos sentir saudades da família em Angola. Prometemos reencontro em Luanda. Vamos aguardar! Paulo Caculo, Moscovo

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