Jornal dos Desportos

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Opinio

A macrocefalia do Girabola: entre o sonho e a realidade

02 de Abril, 2018
A \"lenga lenga\" do MINJUD de que vai apoiar as equipas girabolistas mais fracas roça à incoerência:
1º) Em Fevereiro prometeu que iria apoiar financeiramente;
2º) Agora , em Março, diz que só vai apoiar em transporte e acomodação.
Tal promessa (e seus meandros de efectivação) ainda vai dar muito que falar no nosso panorama mediático. E já agora uma pergunta não se quer calar: e como ficam as outras necessidades com que se vêem a braços, sob o risco da desistência?
A propósito, ontem tive um sonho: um campeonato nacional de futebol disputado entre todas as equipas mais representativas das 18 províncias do país, como nos primórdios da nossa independência nacional.
O sonho idílico traduzir-se-ia na disputa antecipada de campeonatos regionais, disputados em quatro series, contando separadamente com as províncias do Sul, Leste, Norte e Oeste do país, o que daria qualquer coisa como 4 a 5 equipas por serie, num todo contra todos por região.
No final das contas apurar-se-iam 2 a 3 equipas em cada serie, para disputa das fases subsequentes. Tal cenário ajudaria a esbater não só as assimetrias regionais que separam as províncias do Litoral, do Centro e do Leste, em termos de representação no Girabola, bem como a contornar a velha maka da macrocefalia do domínio da capital sobre a precariedade da nossa realidade futebolística.
Um segundo cenário seria a disputa entre as distintas províncias, sendo que as vencedoras deveriam disputar as partidas subsequentes desdobrada finalmente num quadrangular, como na alta roda do futebol continental, e, quiça, internacional.
Um tal estratagema pouparia recursos humanos, financeiros e materiais, além de que daria mais rodagem a maior parte das equipas que compõem a geografia nacional do nosso futebol, acrescido do facto de que as equipas não estariam sujeitas ao esforço sobre-humano de fazer em seis meses um campeonato que faziam em nove meses, como ocorre este ano.
Mais: teríamos mais talentos a evoluírem visivelmente em todo o interior profundo do país, o que constituiria mais um ganho em termos de coesão e unidade nacionais, sendo certo que só faríamos apelo ao jogadores estrangeiros, quando esgotada a prata da casa, com mais benefícios e menos custos atinentes, em época de vacas magras, típicas para o curtume e não para a nutrição.
Vem de molde assinalar que os dois cenários aqui aduzidos ajudariam a esbater, senão mesmo mitigar as assimetrias regionais de que padece o nosso futebol, em termos de distribuição do Girabola à escala nacional. Basta ver que entre as equipas concorrentes, apenas o Kuando Kubango conta com um primodivisionário, o CC Futebol Club, o Bengo com o Damont, Cabinda, com o Futebol Club, Lunda Norte, com Sagrada Esperança, Benguela com Académica do Lobito e 1ºde Maio, Huambo com SGM e recreativo da Cáala, Huíla apenas com o Desportivo.
Nestas duas últimas importantes províncias, tal como no Huambo, os tempos do Nacional de Benguela, Ferroviário da Huíla e Chela, bem como do Mambrôa e do Petro do Huambo já lá se foi. Para não falarmos das províncias que há muito não contam na alta esfera do nosso futebol: Cunene, Namibe e Malange, descontada a intermitência da Lunda Sul e do Uíge.
Esta última que já teve equipas do gabarito dos Construtores e do Futebol Clube local nos anos 80, com executantes da craveira de um Vicy e Arménio.
Importa ainda destacar que, a carência da representatividade das províncias à escala do Girabola, se repete entre os seus vencedores, pois apenas o Libolo, o Sagrada Esperança e o 1º de Maio faz tempo, levaram de vencida o campeonato, sendo que o grosso das equipas que ganham o Girabola, regra geral, estão baseadas na capital, como é o caso do Petro, 1º de Agosto, Kabuscorp e o próprio actual líder, o Inter Club, um velho candidato ao ceptro.
No fundo, no fundo, este facto aparentemente bizarro, além de reflectir os graves desequilíbrios regionais do nosso contexto político, económico, social, cultural e desportivo, traduz que marchamos às vezes a duas velocidades, traduzindo o grau do nosso subdesenvolvimento, que Che qualificou com a imagem do anão completamente desfigurado: cabeça grande, tronco bem abonado e pernas pequenas. Na verdade, a presente situação que caracteriza o nosso futebol, é extensiva às demais modalidades, como o andebol e o basquetebol, apesar da performance conseguida por estas duas últimas modalidades a nível do continente e mesmo do mundo.
Mas, o problema não é conjuntural, é sobretudo estrutural. Há que adoptar-se uma estratégia de trabalho para a alteração desta grave situação que coloca na marginalização milhares e milhares de cidadãos, em matéria de evolução na alta competição nacional e não só.
Tal circunstância atenta contra os sustentáculos de uma democratização da cultura e, quiçá, da efectivação real e efectiva de uma verdadeira democracia política, económica, social e já agora desportiva.
Em suma, entre o sonho e a realidade vai um grande salto ...de cangurú! É verdade apodíctica, urge investir cada vez mais no desporto nas diversas províncias do país, sobretudo nas infra-estruturas e no homem, sobretudo, para que as mesmas se agigantem no nosso panorama desportivo.
Realisticamente falando, em ordem a ombrearem com as equipas mais cotadas da nossa praça, nas mais diversas modalidades desportivas, não já de jacto, mas no médio e longo prazos, com destaque para o futebol, o andebol e o basquetebol, sem prejuízo do judo, do karaté e do atletismo. Até porque sonhar nunca foi proibido! - lá reza o ditado.
Norberto Costa

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