Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

A minha hora e vez...

06 de Dezembro, 2017
Apesar dos pesares, temos equipa. Após revolucionária empreitada, iniciada com a preparação para o \"Afrobasket\", sucedida de vitória, eis que a rota até chegar ao mundial e em preparação, mas também no mundial e em verdadeira competição, Angola não vai ainda roçar o ‘êxito’ de 2007, no top 8, mas comprova ter havido renovação e revolução.
É quase certo que o top 8 está desta vez tremido; confrontados com quatro grandes, cada um dos 3 embaixadores africanos tem mínimas chances de ir ao top 16 e \"play-off\" até meias-finais. E a hora que fecho este artigo, Angola tem ainda a possibilidade de resgatar um embarque para os \"play-off\" ou sejam jogos a eliminar, quando defrontar Roménia e Eslovénia, partindo do pressuposto que possa derrotar o Paraguai.
Já Camarões tem das oportunidades mais francas entre os africanos, confrontados com Sérvia, Alemanha, Holanda, Coreia e China, enquanto a Tunísia terá também um par de chances no grupo contra Rússia, Brasil, Dinamarca, Montenegro e Japão. E a arrematar esta comparação, quero destacar que todos esses países têm tradição e desporto escolar de verdade.
Graças à iniciativa em 2003, se não erro, de criar uma academia para as raparigas e cuidar dos estudos delas, transporte e merenda, o Primeiro de Agosto e talvez mais ainda, o seu vice-presidente para o andebol e actualmente presidente do clube, general Carlos Hendrick, tiveram uma iniciativa infelizmente sem par. O dirigente tem marcado o seu consulado por marcos na histórico dos rubro-negros, com um parque desportivo a crescer a olhos vistos.
A colónia de atletas do emblema militar não é pequena, porém, a filosofia de sustentabilidade das fileiras ao criar clubes satélites, sobretudo a província de Benguela no caso do andebol, tem sido um esteio insubstituível no fomento de uma modalidade que já teve perto de 50 equipas juvenis nos Anos 80 a 90, vendo-se hoje reduzida a menos de dez. Apesar do esforço e da réplica, ao contrário do basquetebol, o andebol do \"Catetão\" não goza hoje da mesma fartura nas colheitas jovens.
Eis donde e como aparecem hoje as atletas de Angola que são uma boa propaganda para o mundo, infelizmente para o mais importante de nós, que é mostrar a fartura que nos era esperado dar o desporto escolar, ao invés de mostrar um grupo excepcional apenas, de um país que tem perdido vida e adesão desportivas a olhos vistos.
Para os africanos foi sempre curioso como o mais pequeno campeonato do continente e caracteristicamente dominado por duas formações, inicialmente Ferroviário e posteriormente Petro Atlético, depois este e agora o 1º de Agosto, tal é algo enigmático aos seus olhos e compreensão, que persiste acima da concorrência.
Já houve inclusive países e clubes a querer contratar treinadores angolanos, porém a principal essência do inquestionável perfume do andebol nacional é magia de apenas quatro emblemas na actualidade e outros tantos treinadores, dos mais longevos aos mais recentemente consagrados e nomeá-los seria desnecessário, além de evitar beliscões.
Agora e mais que os técnicos e os clubes tem-se revelado o reeleito presidente da federação, quem com uma caixa de fósforos mante a flutuar juntos os juncos do jogo de sete, que ainda não enveredou para a modalidade de andebol de praia, mas tem sabido conservar a seiva de que se alimenta a modalidade, sobretudo quando o conjunto resulta na renovada e promissora selecção que temos, pese o que pesar o ‘input’ recente do novo seleccionador, um ex-vice-campeão mundial.
E na sua relativa desunião, o andebol tem ficado junto; o facto de haver já vários antigos selecionadores nacionais a treinar os clubes tem mantida acesa uma chama de competitividade – e eis a diferença – com uma plêiade de atletas nacionais e sem recurso a calmeironas estrangeiras. Isso atesta a sustentabilidade nacional da modalidade, mesmo se com apenas cinco equipas a competir seriamente, das quais apenas duas chegam a rivalizar verdadeiramente.
Em final de ano, este é um balanço digno do ano que pode sublinhar algum êxito para as modalidades desportivas de Angola, a que não se podem comparar os balanços do atletismo, basquetebol, futebol, ou mesmo hóquei em patins, apesar dos muitos golos e pontos que se marcaram e das vitórias relativas que tangeram, se feitas bem as contas dos êxitos conseguidos.
Desta forma fica evidente quais são algumas das maiores urgências com que deve lidar a nova direcção do MINJUD no capítulo de regularizar, estimular e fomentar a competição em todo o país, partindo de um particular incentivo no desporto jovem mesmo antes de começar a falar-se de desporto escolar. Inclusive o papel metodológico que o ministério deve executar em relação à técnica desportiva nacional, deve obedecer mais a uma política de estado, do que às capacidades e livre arbítrio de cada um, seu clube e equipa.
Isso não é o que se espera do MINJUD, o distanciamento da prática e do dia-a-dia do desporto, senão, para que serve o ministério além de políticas e duodécimos e estabelecer parcerias ditas público-privadas e sem um modelo que em si traduza fomento desportivo, para além do objectivo da rentabilidade económica dos ‘Parceiros’?
O MINJUD gere um fundo de desenvolvimento desportivo e que parece não estar a canalizar todas as receitas que o desporto pode obter, não apenas para repartir com os agentes desportivos ou socorrer áreas e funções em sub-rendimento no ministério; é preciso descobrir e apoiar iniciativas privadas que lutam por semear actividade desportiva em largas comunidades sem uma bola esférica e convencional para se jogar.
Não sei por que motivo ou causa, conseguem alguns governos provinciais ou governadores, pensar na juventude à sua guarda por via da governação, a ponto de convidar José Carlos Guimarães, pioneiro em Cabinda pela mão do então governador local Aníbal Rocha, e hoje pela mão do ainda jovem e por isso mais dinâmico governador José Maria, que lançou um projecto multidisciplinar com aquele antigo craque do basquetebol.
Também outro antigo seleccionador, Alberto de Carvalho ‘Jinguba’, havia iniciado lançado com o então governador Higino Carneiro, um projecto com pretensões de ser aos poucos massificador, mas cuja massa mal cozeu; a transferência do general para a capital do país tirou o oxigénio que havia no projecto por faltarem as botijas, mas de subsídio.
Mas serão esses desportistas e governadores, compadres? Alguém pode ainda esgravatar mais e chegar ao absurdo de se questionar se será por serem mulatos? Nada disso, é uma questão de haver projecto, ter estratégia para ele, sempre pensar de maneira estratégica, pois, como bem dizia Nkrumah, \"as revoluções são provocadas pelos homens, por homens que pensam como homens de acção e actuam como homens de pensamento\".
Assim concluído e mudando de abordagem do problema, atenho-me à necessidade de haver sempre um projecto sobre o qual empunharmos uma visão estratégica, partilhada em todos os departamentos provinciais e municipais da mesma organização, para mais ampla cobertura e alargamento dos horizontes, dado ser o desporto o processo selectivo em que o próprio treino em que quanto mais participantes haja, maior é a probabilidade de se revelarem verdadeiros talentos.
É preciso os agentes desportivos conhecerem e agir consonantes com um plano estratégico que nos leve ao objectivo do projecto. E presumo que o projecto de um ministério obedece no caso vertente ao projecto do partido que o designa e a quem responde. E o que diz esse projecto que se espera para a juventude e o desporto?
Qual a dificuldade em meter mãos à obra outra vez? Recordo tempos em que apesar das vacas gordas, não foram eles que permitiram o fenómeno social que fora; do mesmo modo que no tempo das vacas magras tem nova iniciativa em marcha. E sempre presumimos porque será que só uns fazem? Qual a varinha mágica do Aníbal, Higino ou Maria?
O único nexo possível para quem governa é sempre transformar para melhor. E quando a opção for manter o estado de coisas, casos elas não estejam bem – o desporto por exemplo – é estupidez persistir em certas teimosias e ‘batota’ no desporto, já que é um produto de homens e revela sempre a qualidade que se tem ou preparou. É difícil no desporto ter-se êxito sem trabalho e quem não trabalha bem, nem o suficiente, dificilmente ganha.
Portanto, o desporto sendo transparente porque os resultados ficam à vista, nalguns casos até saltam ao olho atento, quiçá clínico, seja para o melhor como para o pior, daí haver por vezes ondas quase tumultuosas de opinião acerca da conduta do técnico A ou B, provocando a pretensão do público sempre querer fazer as equipas e a selecção.
De qualquer modo, o importante é começarmos a ganhar consciência de que faltam tremendamente ao país, os recursos humanos suficientes e ainda de especialidade. Há alguns doutorados em Angola que em uma década pouco conseguiram fazer valer as suas valências, pois, seja nas políticas, como nos resultados de facto, o país prossegue em recuo desportivo. Já o havia dito a começar e exceptuado o andebol e a mulher angolana.
A melhor das parcerias entre o MINJUD e o Ministério da Educação não é o desporto escolar por enquanto; este precisa primeiro de instrutores, alunos do INEF certificados por um quadro docente que seja capaz de avaliar melhor as valências necessárias antes de começar a trabalhar o esqueleto e musculação e o sistema cardio-respiratório dos filhos alheios.
Até os primeiros estarem habilitados de maneira ideal, dará tempo de prover o fabrico, ainda que local, dos equipamentos necessários, tais como espaldares, balizas, redes, coisas que o mercado angola tem a capacidade de produzir.
Depois que o MINJUD e MINED se entenderem sobre o futuro e papel do INEF, haverá algo já palpável quanto a desporto escolar, pois, começar por ilhas só se for para haver os primeiros projectos-piloto, e disse-o no plural porque se for sempre só Luanda, já bastam as selecções nacionais e o resto do país desportivo estar a ficar cada vez mais distante.
O grande plano ou macro-projecto do MINJUD é o que resta saber, pois, sem ele, tudo o resto será um acaso ou não passará de um sonho meu. E desta não tardaria a chegar ao assobio meu que Teta um dia imortalizou, porque é para mim o comportamento mais obediente que se pode ter diante de um paradoxo.
Estou com a vista cansada dever ministros quem entrem e saiam sem ao menos um começar e deixar obra; quanto ao próximo, é esperado encontrar sempre uma obra para prosseguir. O desporto angolano é dessas obras simples e fáceis que os angolanos lamentavelmente puseram de lado em termos virtuais, ávido que anda meio mundo em viver por dinheiro e mais dinheiro, como se o mundo fosse acabar amanhã e à dentada. Atropelam-se e por vezes até se aniquilam, por apenas politicamente que seja.
O homem e sempre o homem deve vir em primeiro lugar, pelo que no desporto mais ainda. Não podemos deixar a politização do fenómeno desportivo ser engolida pela avidez mais mercantil de uns quantos. Seriam demasiados anos seguidos sem se respeitar escrupulosamente a Constituição em múltiplas e vastíssimas comunidades do país.
É preciso aproveitar a juventude do novo inquilinato do MINJUD para lançar uma na construção de um novo patamar para a juventude e o desporto em Angola. No que ao desporto diz respeito, este é um casamento magnífico e perfeito, tanto quanto um serve para o outro, mais ainda, não só desportiva como também profissionalmente.
Mas não basta ter este pensamento avulso, é preciso entrarmos numa era de gestores que se respeitam, ética e deontologicamente, a ponto de nenhum, por mais político até que se julgue, submeta o seu cargo a falta de progresso e trate o seu mandato apenas como a minha hora e vez...

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