Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Nzongo Bernardo dos Santos

A "nossa" arte de adiar o inadivel!

26 de Março, 2018
Mais do que uma expressão idílica, o título que seleccionei de maneira elucubrativa para o artigo em abordagem neste espaço de hoje, é um verdadeiro repto a quem além de ter autoridade, possui também segundo princípios e direitos consagrados na nossa constituição, sérias e grandes responsabilidades neste país.
E, não sei muito bem de que forma, se é pouco ou mal improvisado e espontâneo passar mensagens de que não há no horizonte um pensamento sólido e uma ideia óbvia de que há determinados problemas, em que corrigir o que está mal é mais importante do que melhorar (ou endireitar) o que está muito pior, prefere-se ao invés disso, dar pão hoje para deixar a fome amanhã.
Afinal, como sabemos todos, em casa que deixa de haver pão, todos ralham e ninguém…….
Isto, vem à propósito do muito badalado, divulgado e comentado anúncio feito aos quatro ventos pela ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula do Sacramento Neto, há sensivelmente um mês, em que manifestava inteira e total disponibilidade do Ministério que tutela, em apoiar certos clubes considerados “pequenos”, que sempre precisaram de dinheiro para terminar o Girabola Zap, sem sobressaltos.
Passo a citar, textualmente, o pronunciamento da ministra da Juventude e Desportos:
“Reunimos com os clubes, e os clubes têm interagido entre eles. Vamos apoiar financeiramente os clubes com menores recursos financeiros no sentido de não desistirem do Girabola”.
Reitero, que não estou contra a medida. Também não estou a favor.
Na verdade, estou céptico porque não é uma ideia inteligente, é uma ideia óbvia, aliás, demasiado óbvia. Só que nem sempre o óbvio é o melhor caminho, para quem quer estar no desporto. Principalmente, no desporto angolano. Primeiro, porque em cada ano que passa, começa a ficar mais evidente que o meu, o seu, o nosso país Angola foi desportivamente idealizado para viver só por causa do Girabola.
Se o futebol, no caso o Girabola em Angola, é sinonimo de desporto, então o MINJUD e no caso em particular a ministra que tutela, parece-me que com o referido anúncio tornou-se “madrasta” da distorção da pirâmide em proporcionar facilidades, talvez em salvaguarda do factor espectáculo e entretenimento popular proporcionado pelo Girabola, que verdade seja dita, há muito que perdeu o brilho e o poder atractivo que outrora granjeava, do que ser a “mãe” da predisposição em corrigir os rumos de desenvolvimento através de políticas e não de decretos, para que a primeira divisão se torne o fenómeno social e económico, para o qual foi projectado: “O campeonato das nossas paixões e das nossas multidões”.
Segundo, estamos a falar de dinheiro proveniente do Orçamento Geral do Estado (O.G.E), somente isso, pode dizer alguma coisa, para não dizer tudo.
Defende-se, recorrentemente, nos meandros dos círculos académicos, e aqui assumo a posição de que não estou a ensinar o pai-nosso ao vigário, que a gestão de verbas atribuídas a um determinado sector no quesito despesas, deve ser proporcional aos mecanismos de arrecadação de receitas, e o facto da arrecadação e atribuição não dependerem exclusivamente de uma ciência económica exacta, há o cenário de se poder gastar mal hoje, com o perigo de que o “monstro” do défice pode tornar insustentável para o pior, equilibrar as contas amanhã.
Simplificando, há sempre o risco de quem gere dinheiro público deitar o dinheiro em cima dos problemas.
Terceiro, num país que se preze normal, onde recentemente certo ministro cujo nome e pasta ministerial, por razões óbvias não vou mencionar neste espaço, chegou a afirmar que desde a entrada em funcionamento do novo e actual executivo, Angola passou a viver um “novo normal”, já não devia ser normal, sobretudo, num país cujos dirigentes desportivos vêm a público, ora de “bola cheia”, ora de “bola vazia”, afirmar ser um país do futebol, haver a “disponibilidade total do Estado”.
Porque, fruto de um número de erros (propositados ou não) de colocar a fasquia e a faixa bem no alto com o slogan “somos o país do futebol”, muitos destes dirigentes embandeiraram-se em arco e alavancados por uma pressa irresistível, doentia, ao invés de uma preocupação para se preparar e planificar, bem e devagar de forma consistente para mais tarde conseguir colher frutos a médio e longo prazo, decidiram em função das “oportunidades” que dispunham na altura, refiro-me ao tempo das “vacas gordas”, dar o pontapé de saída para uma acumulação e esbanjamento pródigo de fortunas, sem qualquer explicação plausível.
E, a verdade é que muitos destes dirigentes, para manterem a sobrevivência, adoptaram nesta fase das “vacas magras” a postura de gritar o mais alto possível para podermos sentir que estão a ser batidos por todos os lados, com intuito de manter simplesmente uma insistência e resistência absurda, num velho paradigma.
Por causa disso, o futebol está a pagar caro, e ainda vai pagar muito caro, porque a profissionalização no futebol nacional está tão banalizada que em vez de exigências, o tal profissionalismo misturou-se com muita facilidade, ao ponto de uns poucos chicos - espertos viverem do futebol, sem fazerem nada pelo futebol.O futebol angolano e no caso particular o Girabola, já deu provas de que foi melhor enquanto amador, do que quando enveredou pelo falso profissionalismo.
Não sei quem devia ser o “vidente” para dizer à ministra em causa, de que o actual modelo desportivo desequilibrado do Girabola vai um dia desmoronar de maneira irreversível, não sei muito bem em cima da cabeça de quem, com consequências sociais (im)previsíveis, pois, mais do que um mero entretenimento nacional, hoje passa-se no Girabola toda a sorte de dilates e disparates, ao ponto de ser considerada uma actividade financeiramente ruinosa.Quarto e último aspecto, é hora e o momento de descalçar a “bota”, que o Girabola calçou durante estes 40 anos.
Ou seja, entregar o Girabola aos clubes, e eles que se virem. Depois, profissionalizar-se as áreas, de preferências poucas, em gestão, marketing, scouting e por aí fora. Ao menos, acabemos com a “maldição” de que o Girabola começa e termina no MINJUD, ou no Estado!
*MENTOR E GESTOR EXECUTIVO
DO FÓRUM MARKETING DESPORTIVO

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