Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A nossa utopia

08 de Fevereiro, 2017
Janeiro foi um mês enriquecido, que não gostaria de perder. A essência do ‘CAN’ foi riquíssima em lição para Angola – onde joga um dos ‘Leões Indomáveis’ – e não poderia recusar dizer o mesmo dos últimos campeonatos nacionais de basquetebol Sub-18 em ambos os sexos.

A essência do ‘CAN, para nós, assenta em três ideias-pilares: a vasculha profunda e larga dos recursos disponíveis que haviam sobrado, como fez o seleccionador dos Camarões, pagou dividendos e hoje são campeões com jogadores antes ignorados ou desconhecidos e que estagiaram juntos menos de dois meses.

A segunda ideia é a de que venceu o trabalho construído com diálogo, o instrumento usado pelo belga de 65 anos, Hugo Broos, que já tinha um CV repleto de títulos conquistados no seu país, mas que jamais havia treinado – e formado! - uma selecção nacional, para mais sendo a de um país Africano.

A terceira ideia é a de que o futebol tem que ser feito com a paixão do Futebol, ou o dinheiro vai minar sempre a sua base. Os jovens Camaroneses conquistaram o campeonato na defesa – seu melhor marcador até foi um defesa – e isso exprimiu a unidade do grupo e o querer, que foram determinantes para superar seja momentos críticos com os prémios por objectivos, seja situação do jogo em que estiveram em desvantagem ou em risco de sofrer golo em minutos finais. E eles demonstraram que não estavam ali pelo dinheiro, mas pelo desafio e um objectivo.

Com efeito, a plantação de boas sementes – opção última do Benfica de Luanda – é que paga o dividendo em talento e força que desperdiçamos por não cultivarmos adequadamente nos escalões de formação e nem sabermos quais nem onde andam os jovens futebolistas com o nosso passaporte.

A formação desses talentos, primeiramente, e a pesquisa e seguimento dos mesmos é um privilégio dos países que sabem construir uma canoa e atravessar as águas do tempo até irem parar no êxito, adiante. Nos Camarões, como em Angola, há além de milhares de treinadores de bancada, os antigos craques de nomeada que também interferem no baralho, mas prevalece que eles têm um recurso que nos falta, a técnica e a experiência.

A qualidade técnica requer os melhores cuidados e atenções na formação, algo que o Benfica de Luanda percebeu que lhe vai trazer mais rendimentos em três anos ‘sabáticos fora do Girabola’, do que obteria andando a passo no ‘Girabola’, que é a imagem do estéril futebol Angolano do momento.

A coragem que houve em impor apenas estádios relvados a partir de 2004 é o que falta para a federação ter a coragem de vasculhar se os clubes estão mesmo a formar futebolistas ou se as suas equipas jovens são uma falsificação de formação no futebol. Segundo o regulamento, quem prevaricasse nos jovens estaria impugnado de disputar o campeonato sénior.

Só o início da formação continuada de recursos humanos para o futebol poderá garantir através de centenas e milhares de jovens, o enriquecimento das escalões depois intermédios e assim sucessivamente até seniores. A única dificuldade de realizar isto parece estar no tempero actual usado pelos Angolanos, que preferem não marinar o futebol, mas desenrascar rápido no mercado o que nos falta, aliás, na linha do despesismo que também nos caracteriza.

Em nós e particularmente nos clubes habita em crescendo a mentalidade de que é preferível comprar feito e importar em vez de ‘gastar a criar condições’; ainda hoje importamos arroz e bolachas que aqui já se produzia. Nem mais, tal como no futebol; será a incapacidade de construir, de estruturar ideias, ou de abandonar o nosso ‘dolce fare niente’?

Países mais conturbados que o nosso actualmente, casos do Egipto, Guiné-Bissau, RDC, souberam erguer-se dos escombros, controlam os seus jogadores expatriados, os quais singraram em jovens lá fora, e os nossos, não singram ou poucos jogam à bola onde crescem? Ou nós não sabemos onde elas andam todos e perdemos os laços? Mas os outros reencontram-se e conseguem, menos nós.

O Benfica de Luanda já mostrou que não vai viver nisso. Vai fazer! Vai apostar nos escalões de formação e vai dar certo, finalmente mais um clube com a cabeça no lugar! Mas ainda é pouco, tinha que ser o país a pensar assim, não apenas duas ou três ilhas do desporto.

O Basquetebol é outro caso sério! Os campeonatos de Sub-18, realizados recentemente no Lubango sem as equipas do Petro de Luanda, mostraram que a modalidade renasceu no Sumbe e Lubango, manteve-se em Benguela, Luanda é a base, mas isso ainda é pouco. Falta regulamentar para os campeões africanos de Sub-18, que somos nós, e particularmente um punhado de jogadores do Petro, tenham mais do que o acaso como chão garantido para poderem explorar devidamente a sua margem de progressão.

Sem disponibilidade financeira para viajar, e sobretudo para manter o seu plantel de estrangeiros, os ‘Petrolíferos’ exigiram do seu técnico camaronês que este ano a equipa seja ‘o ouro Africano da casa’, no que se estão a sair bem, com uma equipa de putos, estes sim, com futuro agora assegurado. Ao menos, os juniores não hão-de morrer todos na praia e os do Petro salvam-se por falta de dinheiro.

De resto, na funesta e dispendiosa competição de caprichos, os principais emblemas angolanos têm gasto em contratações externas demasiados recursos financeiros que deveriam estar a semear no país e nos seus próprios recursos, que é a mentalidade de paixão que não se vê na gestão do dia-a-dia. Um ciclo vicioso de que não nos conseguimos libertar e de cujos contornos tantos chefes de família passaram a viver à sombra da gestão desportiva, o que sempre condicionará a vontade das ‘políticas’.

Sábado próximo, a Associação de Treinadores de Basquetebol vai tomar posse e homenagear antigos presidentes da FAB e seleccionadores, no que é um primeiro gesto salutar de resgate da nossa glória desportiva, assentes na nossa memória colectiva. Além disso, os treinadores querem reiterar o protocolo que submeteram à FAB, faz agora oito anos, em clara alusão a que os dirigentes federativos não têm o interesse de o debater. E assim envoltos em vaidades, vamos.

Os técnicos querem ter também – e devem! –a sua formação associativa e um lugar à mesa de diálogo da modalidade, contribuindo prioritariamente para discutir os perfis dos seleccionadores, discutir tectos salariais e implementar a carteira do treinador, entre outras cartadas de bem para a modalidade, mas que ainda encontram resistências dos dirigentes, e a razão não deve ser difícil de descortinar,

Há que sairmos da utopia e criar uma visão estratégica, inclusive partindo do ministério da Juventude e Desporto, MINJUD, que faça jus a um país com infra-estruturas das melhores, deixando de rendermos menos. E, nessa dinâmica, deixarmos de estar a querer fazer desporto mais para projectar a imagem política do país, do que a essência desportiva dele.

Os campeonatos jovens de basquetebol vieram demonstrar que na sua essência esses jovens deviam ter espaço para continuar a competir sem se acotovelarem na vez, com estrangeiros. E ter direito a uma licença especial para poderem jogar em dupla categoria, refazendo rapidamente os nossos estoque de selecções.

Porém, na tal imagem que queremos dar do país, nossos melhores clubes recheados de estrangeiros voltam da taça dos campeões, sem taça – excepção seja feita ao Interclube feminino – deixando lá a verdade da nossa mentira colectiva no basquetebol e no desporto em geral.

Sim, em femininos fomos novamente campeãs, coisa que as nossas mulheres têm dominado há já mais que um ciclo olímpico, porém, não reflecte uma realidade interna desejada para o nosso desporto feminino, com um número irrisório de praticantes e a viver numa manta de retalhos, sem iniciados nem viveiros visíveis que nos permitam vaticinar até onde pode o nosso desporto feminino chegar. Sabe-se que ‘tradicionalmente’ as meninas nunca são uma prioridade em África.

Deste modo, utopia é uma roupagem que ninguém devia gostar de envergar; devia causar comichão, suor exagerado e medo, persistir em vestir-se assim.
Arlindo Macedo

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