Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A pedalada de Joo Loureno

06 de Janeiro, 2020
Sem fazer política hoje tomei nota das imagens que chegaram de Benguela a mostrar o Presidente da República a percorrer de bicicleta longos 34 quilómetros e decidi republicar, neste lugar , a crónica que já dei à estampa, em Março de 2017, noutro espaço da nossa imprensa.
João Lourenço não era ainda o Presidente da República, apenas candidato do MPLA para as eleições. O título foi mesmo este: A pedalada de João Lourenço e Queda do Imperador.
Quando escrevi a crónica, o actual Presidente da República João Lourenço estava na sua pré-campanha política em Luanda e país adentro e na altura já dava que falar, sobretudo, com a sua prometida mira certeira contra o campo e agentes da corrupção. Na altura, passe a expressão, jurou \"mostrar o peito\".
Era só candidato ao cargo de Presidente da República, à frente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), prometendo que caso ganhasse ( e ganhou!) geriria um \"consulado presidencial\" de alta pedalada, arrumando todos os cantos de Angola.
Passados dois anos , os que estavam a jogar na \"equipa da corrupção\", pelo que se está assistir, não têm mais pernas para a \"pedalada\" que o país exige nestes tempos de (re)alinhamento, até mesmo no campo desportivo!
Afinal, no desporto também havia muita gente a abocanhar dinheiro do erário, sem nunca ter ido parar à barra dos tribunais. Ainda há dias, da própria cidade de Benguela, chegaram preocupantes notícias, denunciando a desconfiada titularidade e o destino dado ao Complexo Desportivo construído em 2014 para servir os Jogos da SADC.
O Estado gastou rios de dinheiro. É preciso agora desmascarar quem arquitecta passar em seu nome a infra-estrutura.
Voltando à minha crónica, em Março daquele ano, João Lourenço montou numa bicicleta, rodeado de dezenas e dezenas de atletas deste desporto, para encabeçar a denominada \"Pedalada da Cidadania\" . Ao seu lado esteve o então ministro da Juventude e Desportos, Albino da Conceição.
Depois das pedaladas que deu, João Lourenço, não era mentira, aproveitou fazer política. Apelou aos cidadãos angolanos a acorrerem em massa ao acto de registo eleitoral. Se assim fez, então no mês de Agosto viria a juntar a cereja em cima do bolo: acabou eleito Presidente da República!
E cantou vitória com o povo, ao contrário de outros candidatos/concorrentes que não tinham nem têm sabido capitalizar sobretudo o voto da juventude, que é a maioria da população do país, que é uma maioria que adora e faz desporto, conforme ainda se viu no sábado passado em Benguela onde pedalou ao pé de 65 ciclistas 34 quilómetros em boa forma física.
E se desta forma mais uma vez em Benguela viu-se-lhe a incentivar com as suas pedaladas o povo, a juventude cultivar o exercício físico, anda pois, preocupado o bem-estar do cidadão.
Quem prometeu trabalhar com jovens no desenvolvimento económico e social do país e, para o efeito, o desporto, é a aplaudido.
Não vou lembrara já quem foi o imperador. O povo sabe que temo-los a granel mundo afora e que muitos deles acabam arredados das suas instâncias de mil e uma formas. Uns saem pela porta grande e outros a modos de...\"olha, o rei, vai nu!\"
Eu tinha lembrado, na altura, que nada na vida permanece para sempre. Recordo que, fazendo recurso à analogia, sublinhei que os grandes castelos também caem!
Pode, às vezes, um milionário, um capitalista, um rei, um super-empresário terminar com as mãos estendidas à esmola. Isto mete dó. E isto porquê?
Porque há exemplos mil de líderes, de Estados, de organizações que, depois, um dia, acabaram na lama.
A história milenar não mente. Foi por esta razão que há milhares de anos o mundo viu ruir o grande Império Romano, uma das maiores civilizações do tempo antigo. Perdurou cerca de 1200 anos com imperadores altamente temidos, de Júlio César a Octávio Augusto; de Pompeu a Crasso, Marco António tantos outros.
Até os partidos políticos caíram depois longas jornadas de quase poder absoluto luto e ditadura política. O meu exemplo de sempre é Partido Revolucionário Institucional (PRI) do México que caiu depois de mandar - vejam só - longos 71 anos.
Nós em Angola, até no desporto, a corrupção estava com uma pedalada altamente corrosiva atingiu, durante vários anos, quase as raias de um império que esfrangalhava a sociedade.
E o mal estuprou, passe a expressão, sonhos da maioria dos angolanos, que, num repente, tornaram-se reféns de uma oligarquia que privilegiou fidalgos agora em bancarrota e acossados pela Justiça.
Oxalá, o Presidente da República mantenha sua pedalada. Como a imprimiu naquele dia no Distrito Urbano do Sambizanga e agora em Benguela. É um incentivo para muito!
ANTÓNIO FÉLIX

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