Jornal dos Desportos

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Opinio

A sombra de Herv Renard

17 de Novembro, 2017
A sombra de Hervé Renard não larga os adeptos do futebol nacional. Ou o contrário. Ou angolanos continuam inconformados com a saída \"inexplicável\" do treinador francês. Cada triunfo deste, é oportunidade para os adeptos rangerem os dentes de raiva.
Em menos de dez anos de trabalho no Continente, o treinador francês já perfila a lista dos mais bem-sucedidos. O remorsos dos angolanos assenta pelo facto de Hervé Renard ter conseguido tudo, depois de abandonar os Palancas Negras. Dois títulos africanos, com Zâmbia e a Côte d´Ivoire, em 2012 e 2015, e a qualificação do Marrocos para o Mundial da Rússia em 2018.
Apesar de toda história à volta dos leões dos atlas, o certo é que hoje a equipa marroquina não faz parte da principal elite do futebol africano, de tal sorte que não tem um único jogador que seja referência mundial, à dimensão do Gabão (Aubameyang), Senegal (Sadio Mané) ou Nigéria (Victor Moses).
Marrocos chega a ser inferior competitivamente ao Congo Democrático, pelo que o feito de Hervé Renard ganha admiração pelos adeptos do futebol, daquele país do Magrebe mais também de Angola. Roubou inclusive o estatuto de feiticeiro branco pelo qual era conhecido o seu mestre, Claude Le Roy, pelas mãos do qual chegou e conheceu o futebol africano em 2008.
Os triunfos de Hervé Renard coincidem, por outro lado, com uma instabilidade de treinadores no comandos dos Palancas Negras sem precedentes. Ou seja, desde a sua saída que a equipa nacional não tem sossego. Entra este, sai outro, e assim vão os Palancas Negras desorientados.
Roberto Bianchi, por exemplo, que estava a tentar fazer alguma coisa, tendo qualificado os Palancas Negras para o CHAN do próximo ano, já arrumou as malas, preferindo o Petro de Luanda do que os Palancas Negras. Na realidade não se trata de preferência, mais da capacidade financeira da FAF para o manter no cargo, se esse decidisse largar o Petro de Luanda. E mais uma vez a direcção da Federação Angolana de Futebol será obrigado a caçar um treinador para equipa nacional. O ideal é encontrar um que não seja caro mais também que esteja à altura das ambições dos responsáveis da FAF. Sem pernas, a FAF não consegue sonhar com um treinador da dimensão de Hervé Renard ou outro próximo. Infelizmente a FAF desperdiçou imensas fontes de receitas privadas. Deixou fugir a Puma, empresa de equipamento desportivo, que dava cerca de um milhão de dólares, e todo equipamento para as selecções nacionais e outros patrocinadores. A filosofia de que os dirigentes vão as federações aos clubes gerir dinheiro proveniente do Estado , e não gerar receitas instalou uma cultura de preguiça, de acumuladores pura e simplesmente. ~
De tudo resulta o actual quadro de desorientação quase total das selecções, umas deixaram inclusive de participar em condições continentais por falta de verbas. É uma preocupação que os responsáveis do Ministério dos Desportos ora nomeados terão de ter em conta. As selecções nacionais não podem continuar a assistir a saída de treinadores por dá cá aquela palha. Ou sem razões do fundo. Estamos a falar da Selecção Nacional, e não de um clube. As selecções devem ter o mínimo para representarem com dignidade as cores do País, ao mesmo tempo que se deve reforçar os mecanismos de controlo externo das federações. Primeiro, retirar as principais federações (no processo gradual que deve por fim incluir todas) do Ministério no que as dotações financeiras diz respeito. Depois exigir dos responsáveis das federações, da FAF particular porque é que mais gastos tem, capacidade para ir buscar receitas a entidades privadas.
Esse é o caminho para não se estancar essa cultura da saída dos seleccionadores por incapacidades das federações. Uma coisa é a crise de divisas, situação transversal, outra, é ou sãos as dificuldades para honrar compromissos contratuais. Na mesa está essa possibilidade de Ricardo Bianchi bater com as portas, e deixar os Palancas Negras. Não já por incumprimento mas por incapacidade da FAF de lhe oferecer melhor.
Não seria a primeira situação, Zeca Amaral fez o mesmo quando teve de escolher entre o Recreativo do Libolo e a Selecção Nacional. Preteriu os Palancas Negras, porque a FAF não era capaz de o fazer.
Teixeira Cândido

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