Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A sustentabilidade do (nosso) desporto (Parte 1)

05 de Abril, 2017
Ao virar da esquina poderá estar o próximo AVC do desporto, entenda-se ‘Avaria Vulgarmente Conhecida’. As associações desportivas e particularmente os clubes enfrentam isso cada vez mais.

A avaria vulgarmente conhecida na gestão desportiva nem sempre é a causa do ‘avc’, pois, associações houve já aqui – e são exemplo disso o Dínamos de Angola da Guarda-Fronteira, a BCR das Forças Armadas e a NOCAL da cervejeira – que num ápice morreram por lhe ser tirado o oxigénio, graças a novos ditames económicos do Estado (e o surgimento do SEF).

Com o fim do subsídio a actividades não produtivas, em Angola, a Cultura e o Desporto foram acordados do sonho da sua meia ‘massificação’ vivida nos Anos 80 e 90. Até que nasceu a nossa Segunda República, em 1992, e trouxe uma nova economia, a de Mercado, sem o antigo subsídio invisível total do estado.

Ou seja, dali em diante andaria quem tivesse pernas para andar. O desporto praticamente só não se viu despojado dos duodécimos chegados pelo OGE e algumas receitas avulsas, aliás, parte das quais, entretanto, comprometidas ou pela gestão pouco ortodoxa ou pela falta de clarificação dos termos reais da respectiva parceria pública-privada a saber mais a negócio do que a fomento desportivo – e é só reparar que se tem para o seu usufruto.

Então e como dano colateral, o desporto viu substancialmente reduzida a prole e no seio dela foi sacrificado o desporto jovem; e por colagem, a formação de treinadores.

Ora, sem os técnicos a cabana abana. E sem a juventude absorvida a par da escolar em práticas sadias para a sociedade e significativas para o futuro colectivo, com saúde e auto-sustentabilidade – que outra dificuldade haverá para não ser isso aquilo que temos?

Sem legislarmos suficiente e exaustivamente as áreas, vias e caminhos da juventude haveremos de ter dificuldade em legislar a protecção do jovem e do seu futuro com alguma força coercitiva e fechando olhos da mesma forma que não sabemos copiar dos outros o obrigatório (o ‘compliance’) da nossa actividade, nem a responsabilidade social (o ‘corporate’), que vemos por exemplo fazer e até publicitar nos media, petrolíferas que revertem a comunidades e programas os seus donativos e apadrinhamento da sua acção social.

Assim dificultados pelo conflito jurídico-empresarial presente em muitos e significativos casos, temos em presença um imbróglio cultural-ético-moral atípico e do qual não nos vejo livrarmos até ao dia em que a fiscalização quiser pesar-se.

Até lá, o desporto perderá sempre e em cada vez que deixar de ser desporto e virar negócio, claro está, nas nossas condições de Mercado, em que nem sequer a publicidade se obtém por troca comercial directa, sendo por vezes imposto a esses Patrocinadores, patrocinarem. E também sem as receitas que rodeiam o espectáculo, sofre o desporto.

Com efeito, em Angola e por maioria de razão, o desporto pode representar uma carreira e uma vida, e como espectáculo ser uma realidade do ‘show-biz’ local, embalada pelas tendências sociais que vêm impondo também as novas tecnologias da informação e comunicação, as redes sociais, Mercado e marketing; e eles parecem estar com um ciclo lunar que os coloca em trajectória para uma cada vez maior orgia financeira da qual acaba beneficiando o espectador, mas será preciso também saciar os vários actores da jogada de Mercado.

Mas o Mercado faz-se através da procura e da oferta, e é importante que a oferta seja meramente pública e institucional. É preciso vermos também o desporto como investimento.

Angola vai precisar de continuar a renovar horizontes e oportunidades para o jovem, que mesmo adulto vai precisar de bases tais como formação e emprego para poder empreender e organizar o surgimento de uma nova família.

Assim é legítimo indagar em que outra rota ou assintonia andará o legisferante; à luz da coerência do sistema como todo é suposto ele ser a candeia que vai na frente e que alumia duas vezes.

De maneira geral o desenvolvimento humano tem no desporto uma óptima porta e acesso, para além de ter no jovem a melhor idade para se instalar e dar-lhe, ao jovem, a possibilidade da plenitude dos seus talentos e capacidades inatas e ainda daquelas por desenvolver com um bom treinador, ou de preferência através de um sistema onde funcionem em harmónio a educação, o crescimento e a cultura, e desse modo esculpir uma sociedade.

Em Angola estivemos já à beira dessa perfeição de sociedade e particularmente do desporto aquando das fundações dos patamares a que chegámos passados vinte anos ou pouco mais, mas que mantemos cada vez maior custo.

Ainda assim não se pode excluir desta visão e sonho, um valor tamanho para as comunidades como a responsabilidade social das corporações. E as oportunidades que é preciso dar e ter na sociedade, até por via do próprio sistema de educação nacional, devem exigir mais participação e voluntariedade, como era a militância de antigamente.

Estranha, por exemplo, que o próprio desporto universitário não esteja entre as instituições já comum a prática regular no sistema desportivo nacional; ou os jogos escolares e o desporto corporativo quando também reflectem essa inconstância tão demonstrativa da sua inconsistência.

Sem fazer por merecer no dia-a-dia o envolvimento do desporto federado, para o qual devem constituir nascentes, em vez de afluentes, os outros ramos do tronco desporto, falem.O desporto é cada vez mais uma oportunidade para os jovens de ambos os sexos e nós não devemos continuar a desperdiçar tantas gerações, após termos conhecido quais são as nossas capacidades e possibilidade da nossa força, querer e poder.

E então basta recordar o nascimento da década de 80, depois de registar as primeiras federações em 1979. E partimos mais acertados no Andebol e Basquetebol graças a uma juventude produzida a todos os títulos – intelectuais, culturais e desportivos, sociais e até políticos, portanto, assim sob a mira da polícia fascista e por vezes conducentes à fuga para a luta anti-colonial e pela libertação nacional – um alfobre que hoje já não temos nos liceus e escolas comerciais e industriais, nem nos bairros, nem nos clubes tradicionais que eram sede, como foram do novo andebol, o Belenenses; e do basquetebol, o Vila Clotilde.

A exemplo do Atlético e Ferroviário, são clubes que deviam ser homenageados em próximas galas, pelo seu contributo histórico ao desporto nacional.Assim e virando página, ‘partimos’ à conquista de África, somando factos em já dois dígitos, factos mundialmente comentados. E de todos, o que mais optimiza para mim essa afirmação dos Angolanos foi em 1992, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, quando o fortão Charles Barkley falara depois em ‘ter que estar ali a jogar com magrelas’, naquele que ficou historicamente como ‘o jogo’ para as minhas memórias.

O melhor ‘Dream Team’ de sempre calhara a Angola e esta não deslustrou relativamente ao desnível de forças, começando por estatura e peso. E tanto foi o sinal, que poucos dias depois aquela mesma Angola viria a derrotar a grande e anfitriã, Espanha. Também ficou na história e será o meu ‘O outro jogo’.

Portanto, o potencial temos; e a escola tínhamos, para isso. Já não noto mais o empenho de antes. Quem sabe, a entrada do vil metal no fluxo da gestão do negócio que é a sobrevivência ou risco de Mercado que representa uma associação desportiva, tenha passado a ser mesmo mais negócio do que desporto, quem sabe.

Mas a verdade é que o dinheiro representa no nosso desporto actual a outra versão do filme de sucesso ‘O Bom, O Mau E O Vilão’. E ele é o vilão.E assim se invertiam os dois factores; prazer e negócio. O jovem deixou de ter prazer na vida desportiva, desde que esta ganhou a possibilidade de virar negócio. (Continua)
Arlindo Macedo

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