Jornal dos Desportos

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Opinião

A “velha” maka da corrupção no futebol (II)

10 de Agosto, 2017
“Se realmente a corrupção não faz parte do desporto, então, todos os envolvidos, os acusados e o acusador, devem estar dispostos a irem atrás da verdade, como aconteceu no caso que envolveu o clube francês do Olimpique de Marselha….” Foi assim, que terminei o artigo da semana passada.

O que realmente aconteceu, para que o Olimpique de Marselha caísse nas malhas da corrupção? O clube francês melhorou substancialmente, a partir do momento em que Bernard Tapie, assumiu a presidência, em 1986. Com Tapie no comando, o Olimpique de Marselha passou a fazer contratações de estrelas, e com isso ganhou cinco títulos seguidos do campeonato francês, e em 1993 ganhou a liga dos campeões da Europa.

Entretanto, poucos dias antes da final da Liga dos Campeões, surgiram rumores de que o Marselha pode ter subornado jogadores do Valenciennes, no jogo da penúltima jornada do campeonato francês. O objetivo não era assegurar a vitória, pois, o Olimpique era de longe superior ao adversário, mas garantir que o triunfo fosse obtido sem grande esforço, o que deixaria a equipa marselhês descansada uma semana antes da final da Liga dos Campeões, sem prejudicar a luta pelo título francês.

Resumindo, tudo foi feito para que o Olimpique jogasse a todo vapor contra o AC Milan de Itália, na final da Champions, e não aplicar-se a fundo no último jogo do campeonato francês, que era contra o Paris Saint-Germain, apesar de contar no seu plantel com vedetas da época, como Rudi Voller, Abedi Pelé, Desaili, Barthez e outros. Estava em jogo o primeiro título da Liga dos Campeões, para um clube francês, na história dos gauleses.

Tudo saiu como planejado: o Olimpique venceu por 1-0, e ficou com o título de campeão antecipado. Assim, a equipa de Bernard Tapie colocou toda carne no assador, como soe-se dizer, no jogo da final contra o AC Milan, na época com jogadores como Marco Van Basten, Maldini, Frank Rijikaard e outros, e venceu a final por 1-0, com golo de Basile Boli.

Assim, em função das denúncias, a polícia entrou em acção e começou por encontrar um envelope com 250 mil francos, enterrados no quintal da tia de Christofhe Robert, avançado do Valenciennes. Daí em diante, o processo avançou que nem um tufão, contra o Olimpique e todos os envolvidos.

Como consequência, o Olimpique de Marselha perdeu o título de campeão francês, foi despromovido para a Segunda Divisão, substituído pelo Milan na disputa da Supertaça da Europa e da Taça Intercontinental, e em 1995 Bernard Tapie acabou preso, por dois anos. Além dele, outras pessoas activamente ligadas ao caso, também acabaram na prisão!

Portanto, o que aconteceu com o Olimpique de Marselha, serviu de exemplo para os outros clubes de França, e não só. Graças à coragem da justiça francesa, hoje é dos poucos países do Mundo em que quase não se fala de corrupção no futebol, ou pelo menos, dissuadiu muitos a recorrerem a tal prática repugnante.

Em Angola, parece-nos que temos de esperar mais alguns anos, para que as denúncias de corrupção no futebol sejam atendidas, pelos órgãos de direito. Enquanto este período não chegar, a ideia que passa é a de safa-se quem poder.

Para piorar ainda mais a situação, existem pessoas ligadas ao futebol que até dizem que não existe corrupção, mas batota, e que é muito normal. Com este tipo de pensamento vale a pena denunciar as corrupções? Ou, é melhor fazer o mesmo?

A semana passada, na “guerrinha de miúdos” ( com todo o respeito que devo a ambas as direcções), 1º de Agosto e Petro de Luanda, notamos que os dois clubes, nas entrelinhas, deixaram claro que de facto existe batota no futebol nacional, pois, o facto de existirem clubes que são financiados pelo mesmo padrinho, facilita o clube mais cotado.

Isto implica dizer, que parte dos títulos que ambos emblemas ganharam, foi graças à existência de alguns “Petros” ou “Desportivos”, que segundo a resposta do Petro à carta dos militares, normalmente facilitam a caminhada dos cotas.

É interessante que na maior parte das vezes, que haja uma denúncia de corrupção, o corrupto nunca é apontado, as balas são direccionadas contra o corrompido, enquanto o corruptor continua impunemente no anonimato, pronto a continuar com as suas acções repulsivas.

Entretanto, a história mundial dá-nos a informação de que a corrupção é um mal que anda de mãos dadas com a humanidade, praticamente desde a sua fundação e dificilmente será erradicado enquanto houver grandes diferenças nos níveis de vida das pessoas que formam as sociedades.

O corruptor recorre às dificuldades do corrompido, por colocar à sua disposição um activo, que ajuda a resolver um problema, em apenas uma questão de segundos o que levaria meses de trabalho honesto para conseguir! É importante reter este pormenor!
Significa isto dizer, que nada pode ser feito e que temos de aceitar este mal a imperar de todas as formas? O exemplo, que aconteceu com o Olimpique de Marselha, é um estrondoso não, à esta questão.
Augusto Fernandes

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