Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

A Vez do Pai-Agente?

16 de Agosto, 2017
Às portas da próxima república e perante falsas partidas de uns, apego de outros ao tacho e apetência de novos pelos pelouros, oferece-se-me hoje poder formular um singelo desejo para que os nomes e aspirações a esse patamar que dá tanta visibilidade e auto-promoção não venham a aceder novos candidatos a manter-nos desportivamente em atrofiamento e queda. A menos que alguém ache que o último ciclo foi um sucesso, e um sucesso geral…

O desporto em Angola tem tido uma curva de desenvolvimento inclinada para o atrofiamento, quer em meios, recursos humanos e qualidade desportiva, o que vem clamar por trazerem os novos tempos, renovada mentalidade e competência para a reconstrução do desporto na sociedade angolana, embora o lado visível desta sejam os clubes. O acento tónico na maioria do país já não esconde que está posto no futebol sénior, salvo raras excepções que não deixam de confirmar a regra e tendência.

O último ciclo olímpico do país acentuou a marcha reversiva da prática desportiva no país e evidenciou ainda a lentidão, ao mesmo tempo que agravou-se o desajuste do teor legisferante para o sector. Partindo da lei de bases do desporto nacional, é imperativo doravante compaginar os diplomas com a realidade social for a das grandes urbes, colocando o seu texto legal e comandos a par da nossa realidade sócio-política, tornando assim em motores de desenvolvimento desportivo as competências locais e o surgimento de novos entes da família desportiva, que não pareceram carburar em uníssono, seja porque o mapa da distribuição de clubes e de técnicos através do país se mantêm cada vez mais assimétricos, seja por força de o Mercado de trabalho ou falta de fomento desportivo local serem cada vez mais atípicos em cada vez mais pontos geográficos, o que tem resultado em continuamos na direcção de fazer-se desporto cada vez menos e em menos locais, como sinónimo de retracção da actividade e atrofiamento do tecido desportivo.

Engavetada, por fim, parece ter ficado a legislação avulsa, se assim pudermos tratar as alavancas geradas para este último ciclo olímpico do país. Após repetitivos encontros nacionais de futebol entre 2004 e 2013, hoje teimamos em tardar a iniciar a refundação do futebol a partir das camadas de iniciação e de formação; e na mesma senda, o último fórum havido em 2015, para a revitalização do desporto entre a camada estudantil do país, não passou de letra morta ainda.

Assim visto de robe e pantufas, como que mal despertos de uma prolongada sonolência em que fomos, um após outro, despojados dos maiores títulos e privados de uma real evolução desportiva, eis-nos novamente à espera que na nova república se concretize para o país a um novo ciclo olímpico onde não ficaria bem gritar-se novamente ‘pela mudança na continuidade’, mas, sim, gritar por essa descontinuidade e um reverso do que viemos (des)fazendo no desporto ao cabo dos últimos quarto a cinco anos.

Mais, até, espera-se que a quinta etapa do país e da sua reconstrução nacional, renove fôlegos e traga à ribalta cidadãos patrióticamente comprometidos, que não venham aumentar de rendimento pessoal contrastando com o resultado económico dos bens públicos por si administrados, e que em termos da estrutura que o desporto vier a ter, inclúa nas direcções provinciais do ministério da juventude e desporto, e a seu tempo nas associações provinciais das federações, gente com empenho desportivo sincero e conhecimento daquilo que é preciso fazer para fomentar, expandir e desenvolver uma modalidade em qualquer uma das regiões do país.

Para tal, quatro anos de mandato serão tempo de sobra para se mostrar aquilo de que se é capaz, mas que pouco tem sido visto sair das mãos de uma considerável parte dos gestores desportivos actuais, por vezes mais obstinados em meter as suas impresões digitais em benesses, do que em fazer o bem desportivo.

Ainda permanecem pouco às claras e à disposição de todos, os termos vinculativos das, todavia, mal conhecidas parcerias público-privadas que em Luanda, Benguela e outras praças do país sacrificam os desportistas em relação ao livre uso de estruturas desportivas públicas, desde que o estado se declarou ncapacitado para as preservar e entregou com relativo livre arbítrio, a gestão das mesmas a privados com um afã de lucro pouco consentâneo com o papel dessa infraestrutura criada para engrandecer o desporto e não sómente uns pouco actores do sector.

E não bastasse essa sonegação, também as regras para o fomento não chegaram ainda aos municípios mais próximos da capital provincial, salvo relativamente rara excepção, sendo bastos os exemplos de como no Amboim, Cáala, Chibia ou Cubal, para não gastar todo o abecedário em exemplos de segundos municípios do país onde não há sinal de evolução do sector do desporto, ou as suas espigas nao deram ainda flor, por presumível falta de um lançamento adequado dessas sementes à terra.

O ambiente legal e económico que não tem criado o surgimento de novos clubes e equipas monodisciplinares, tão caras ao crescimento do tecido desportivo e ao fomento desportivo em áreas remotas e com menor população, tem sido o mesmo ambiente em que cada vez mais jovens das proles locais e de famílias campesinas, tem tido poder de alcance em realizar qualquer desporto localmente. Tamanha omissão de oportunidades mata a espontaneidade de um foco desportivo em muitos municípios e comunas, que contráriamente já poderiam ter núcleos desportivos de base, quer por via de novos grupos culturais e recreativos municipais e comunicais, quer ainda no seio de centros culturais, fundados até mesmo entre agrupamentos de fazendas tal como nos revela a realidade campesina que permanence inatendida em vastíssimas extensões territoriais do país, cuja juventude continua a vegetar no dia-a-dia dessas populações.

É preciso acabar com a redução do desporto às capitais provinciais, e por sua vez a segregação destes pelos clubes grandes da capital do país. Continuar a ver campeonatos nacionais de jovens com equipas de se tanto 3 ou 4 cidades, num país com pelo menos umas vinte, deve ser visto como ignomínia e sinal de que muito pouco se tem feito, comparando com o que se podia ter feito. E tal é indício de que se vai continuar a gastar demasiadamente, e mal, recursos públicos postos à disposição na rubrica orçamental ‘juventude e desporto’.

O Estado tem de deixar o desporto corer menos a seu bel prazer e tal é uma incumbência de um ministério invariávelmente omisso da corrente desportiva que costuma mover sociedades e nações com valores desportivos cultivados, e resultados positivos daí advenientes, que para nós têm sido em expoente decrescente, nos últimos anos e safras.
A próxima república e o governo a sair das eleições devem trazer actores, entre reguladores e agentes desportivos, que sejam capazes de se aliar e refundar o desporto nacional em termos já ditados solenemente através das conclusões e recomendações dos fóruns desportivos que pareciam ter despertado, reavivado e reacendido os anseios do desporto nacional. E desse modo, que haja projectos capazes de nos clubes traduzirem a despesa dos duodécimos do estado em um pouco, também, de investimento desportivo.

Já a nível do foro parlamentar, que seja célere o ajuste às regras com que se quer fazer a reconstituição do tecido desportivo nacional, partindo da simplificação para o surgimento de novas agremiações desportivas e sem a obrigatoriedade de terem de praticar três modalidades diferentes, pois tal norma mata a iniciativa local ali onde o meio for pequeno, facto comprovado por a mesma não ter visto nascer grande coisa em material de novos clubes, sendo de perguntar se muitos dos pretendentes provinciais ao Girabola, por acaso jogam algo mais do que futebol. Assim, uma leia que não gerou um desenvolvimento que se possa realçar, mas, pelo contrário, serviu mais para evidenciar a mentira em que vivem todos aqueles emblemas que presentemente se dedicam mais ao futebol, e que promoveram o atrofiamento desportivo nacional, é lei que merece ser revista.

E assim cheguei à parte titular da opinião de hoje, que é exaltar a figura do Pai-Agente. Quando a semana passada fim fazer caixa de ressonância dos trâmites da carreira de Neymar Júnior até o mesmo se tornar no ‘activo’ que é hoje para quem o possuir, pretendi retomar o tema da semana passada, quando abordara o receio entre nós de emparceirarmos com clubes estrangeiros e geminar, trocando talent nosso por experiência deles, a bem dos nossos emblemas e da formação dos seus ‘activos’.

Infelizmente muitos ainda vêem isso como um roubo silencioso e por etapas, dos nossos talentos e ‘activos’, ou seja, valores com significado commercial e que não se tratam por mercadoria por eufemismo, mas que se traduzem por dinheiro vivo a qualquer momento, ou seja e em definitivo, nomes que valem dinheiro e que se negoceiam e transaccionam como se mercadorias fossem. E entre clubes.

Ora, num país desportivamente cada vez mais futebolizado, está a relevar cada vez mais o papel do pai ou tutor de um(a) atleta, a quem este tem que obedecer por força da sua própria falta de maioridade e de capacidade para decidir sózinho. E ninguém pode acreditar que uma criança ou adolescente saiba cuidar atenta, prudente e cautelosamente de si, como o faria seu pai ou tutor.

Entre nós, a figura de pai de um atleta é ainda pouco relevante e perceptível; a maioria dos pais ou não vela pela educação física e carreira desportiva do seu filho, caso quase generalizado à sociedade angolana, ou então esse pai já foi enrolado em algma estória mal contade sobre a gestão da carreira do seu filho(a), seja por um parente sénior da família e mal intencionado, seja por se haverem metido com um agente trafulha. No entanto, isso não implica que todos os agentes aparecidos em Angola sejam perniciosos.

Assim sendo, é hora de os pais se inteirarem e saberem aconselhar as carreiras dos seus filhos, procurando sempre aliar o seu crescimento à sua necessidade continuada de aprender, sempre mais e mais, dado que o desporto não se faz a bom nível toda a vida. Então, ter o vislumbre do futuro quando as chuteiras forem penduradas um dia, é de interesse capital para a vida adulta de qualquer atleta.

Mas, ao gizar a carreira do filho(a), o pai não deve acumular etapas nem escalões de uma carreira, em um mesmo vínculo contratual. O objectivo é um enquanto criança, certamente mais alicerçado quando maior for, de idade; e assim sucessivamente. Ora, pretender que a tleta tenha apoio escolar enquanto infantil, pode implicar em pretender-se uma bolsa de estudo mais apropriada quando o mesmo for iniciado e juvenil, porém, não se devem embrulhar todos esses escalões em um mesmo acerto contractual. Mas, sim, ir renovando e melhorando esse acordo escalão após escalão, ou até poder desfazê-lo aquando da mudança de escalão.

Ou seja, nunca aceitar amarrar seu filho(a) a um clube desde que ele entrou para ali e sem um final à vista.
O projecto pode falir e a criança permanecer amarrada a um futuro incerto, ou pior do que o desejável. Daí que, o aconselhamento legal seja sempre recomendado, quer para nenhum pai ou tutor ir além do desejado, quer para não comprometer o desenvolvimento desportivo possível, por outro sem futuro.

O caso de o pai de Neymar Júnior ter sido o arquitecto da carreira ‘empresarial’ do filho, culminando no papel de ‘Pai-Agente’, foi o que preveniu que a cana de açucar que representa o seu filho tivesse sido chupada até à exaustão, uma etapa após outra, e Neymar Sénior foi tão bem sucedido no seu empreendimento desde o começo, que o clube que formou o seu filho, Neymar Júnior, até hoje recebe ganhos cada vez que o passe dele for renegociado, saindo o formador a lucrar em cada futura contratação.

Ficou assim escrito pela FIFA, graças a quem o ‘roubo’ de talentos ficou a deixar a desejar. E em Angola jamais será diferente, quando os seus craques não forem quase dados, como alguns que despaareceram para clubes que nunca mais nos mostraram esses nossos jogadores. A mesma regra deve absorver futuras transferências que haja entre clubes de Angola, onde uns criam e outros pilham.

A federação internacional estipula que 4 a 5 por cento das negociações de transferência de um jogador, compensem o clube responsável pela sua formação. Revelado com a camisola do clube Portuguesa Santista, Neymar Jr. tinha a intenção de estar ao alcance do olho do Santos vizinho, onde finalmente aterrou com 12 anos, em 2004. A indemnização da FIFA no mecanismo de solidariedade possui pesos diferentes: 0,25% em cada um dos quatro primeiros anos e 0,5% nos anos seguintes de uma carreira. Assim, em 4 anos os ‘royalties’ do clube formador sobre o atleta multiplicaram 4 vezes a porção 0,25%, totalizando 1% do seu valor contratual futuro, e sucessivamente cada dois anos do seu novo escalão vão equivaler a 2 vezes 0,5%, ou seja mais 1% sobre esse total. É daí que advêm os 4 a 5% que o Santos cobra agora sobre Neymar, sendo que 1% ainda está ainda dependente de o Santos comprovar o craque já havia jogado efectivamente pelo clube quando ainda tinha 12 e 13 anos de idade.


Desta forma, um clube não precisa de amarrar o atleta, mas de o projectar e procurar obter para ele (e para si) o melhor que o atelta puder sempre render adiante. E em cada nova negociação de clube, logo do passe do jogador, há-de caber ao seu formador somar sempre um ganho mais pela formação que deu. A formação do jogador pode começar aos 8, 10 ou, até, 12 anos de idade, consoante o meio social e a proximidade de um clube capaz de desenvolver o atleta, contudo, se o atleta competir a partir dos infantis, ou mesmo dos iniciados ou juvenis, dali em diante a sua evolução etária e consequente subida de escalão, deve ser acompanhada de uma esperada revisão do vínculo contractual, atendendo sempre às novas circunstâncias e maiores objectivos.

E é quando se realça de importância, aconselhar a que sob orientação um jovem atleta possa crescer mais se treinar com outros até 2 anos mais velhos, como forma de se suplantar a si mesmo, amadurecer e endurecer. Ocasionalmente, em Angola, havia a cultura de dupla-categoria, mais saliente no andebol e basquetebol, contudo, hoje é raro fazer-se, atrofia-se o alteta quando em júnior, preterindo ele pelas contratações de estrangeiros, os quais já remetem ao banco outros séniores locais, enquanto diminuem a possibilidade de um júnior singrar e evoluir mais do que se ficar a jogar muito pouco.

Já que a maré desportiva nacional parece ser alta para o futebol, curiosamente em baixo, então e a título de contribuição ao desenvolvimento desta maré de qualidade baixa, penso que valha indicar aos pais como eles se devem motivar mais em redor do acompanhamento dos filhos e detecção de algum talento deles a explorar melhor, tornando assim esses pais mais responsáveis por acompanharem a escolha do primeiro clube, passando a poder discutir as vinculações dos filhos quando as mesmas se mostrarem inadiáveis e incontornáveis; mas não será mais o agente a dizer quanto aquilo vale, será o pai a discutir quanto o filho precisa. Tal não impedirá que pai e filho(a) se associem a um agente reconhecidamente capaz e sério, saindo todos a ganhar com isso. E porque nunca será demais ter-se um assistente legal, o pai do futuro jogador(a) deve saber sempre e por antecipação, com que linhas se estão a coser. Por isso, jamais assine de primeira, o que for e muito menos disparates.

Assim e mais do que nunca, a hora do nosso desporto parece ter tocado aos Pais. Se num país não temos o desporto que é preciso, devemos fazer o que for preciso para o passarmos a ter. Se os pais fizerem a sua parte, decerto os clubes hão-de acertar em como devem ser e fazer.
ARLINDO MACEDO

Últimas Opinies

  • 13 de Agosto, 2018

    Marketing desportivo no vai morrer amanh!

    Que o desporto e o marketing estão numa relação do tipo, “ epá sem ti eu não vivo, e sem você eu não existo”, já algum tempo, isso todos nós sabemos.

    Ler mais »

  • 13 de Agosto, 2018

    Devedores do BPC e o exemplo de Messi

    Não quero citar aqui os nomes, porque quem vive na cidade sabe quem são... mas isto posso dizer: algumas das figuras do nosso desporto nacional, e do futebol em particular, todos eles revelados o ano passado,  numa assustadora lista que veio a público, não se sabe porque engenharia, como tendo afinal contraído créditos agora mal parado, no maior banco público nacional -  e estou a falar do Banco de Poupança e Crédito -  é um assunto, é uma realidade, que vem destapar o véu e dar a ver que há clubes da batota, que só estão na alta roda do nosso campeonato, porque os dinheiros que os sustentam não são honrados.

    Ler mais »

  • 13 de Agosto, 2018

    Citaes

    Muitos clubes participaram nos seus campeonatos locais provinciais, mas não estavam legais do ponto de vista administrativo. Alguns processos podem levar algum tempo e, para não criármos dificuldades, tivemos que devolver.

    Ler mais »

  • 11 de Agosto, 2018

    "Quatro anos sem pena"

    Em duas ocasiões recentes Angola acaba de ver consagrado Demarte Pena em Top Angolano do desporto, enquanto no espaço de menos dum mês arrebatou os Prémios ‘Globo de Ouro’ e ‘Novo Jornal & Expansão’, referentes a 2017.

    Ler mais »

  • 11 de Agosto, 2018

    Maputo o alvo a seguir do pas

    Angola é um país que, desde muito cedo, começou a se afirmar na arena do desporto. Nesse aspecto é conveniente realçar que, logo após a conquista da Independência Nacional.

    Ler mais »

Ver todas »