Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Acabar com adulterao da idade

20 de Julho, 2017
A Federação Angolana de Basquetebol anunciou na semana passada a ausência da selecção de Sub-16 no Afrobasket da categoria, que decorre nas Ilhas Maurícias, por falta de dinheiro. Entretanto, soube-se mais tarde que a verdade era outra: a adulteração de idades.

A ser verdade, a opção da FAB levou-nos a um problema que há muito é do domínio da família desportiva nacional: a falsificação de idades no nosso desporto. Um assunto que infelizmente nunca foi assumido por quem de direito.

A verdade é que este fenómeno maligno para a imagem do País, foi sempre ignorado por todos. Melhor dito, nunca ouvi nenhum dirigente a abordar o problema com profundidade e frontalidade. Talvez não haja interesse para tal.

A “mentalidade vencedora” de alguns dirigentes do nosso desporto, desde a base que impulsiona o fenómeno da adulteração de idades dos jogadores, seja no futebol, no basquetebol, no andebol ou de uma outra modalidade.

Num determinado período, a vantagem é óbvia: diante de jogadores mais jovens, a tendência é o atleta sobressair-se fisicamente, e por isso, atingir um certo destaque, aumentar a possibilidade de conquistar títulos, e abrir as possibilidades de contratos chorudos fora do país.Os treinadores, muita das vezes em sintonia com os dirigentes, são coniventes nessa prática. Os jogadores, por seu lado, encontram alternativa à possibilidade de melhorar as qualidades de vida.

As consequências são desastrosas. As selecções amealham títulos nas camadas jovens, porque os jogadores tendem a estagnar muito mais cedo, em função da alteração falsificada da idade. É por assim dizer, o desmoronar de um trabalho a longo prazo, devido à ganância.

E, este tipo de prática apenas faz o desporto nacional enganar-se a si mesmo, cria uma ilusão de que está no mesmo patamar das grandes forças do desporto continental, e quiçá, mundial.

A prática ensina-me que o segredo de um trabalho de formação competente não está na conquista de títulos, mas na estrutura que os clubes oferecem, para extrair o potencial dos seus jovens jogadores.

Em Angola, talento não falta nas diferentes e diversas modalidades. Precisamos de pessoas comprometidas com o desenvolvimento das distintas modalidades, e não com oportunistas que visam o sucesso imediato, destroem a carreira de centenas de jovens desportistas que sonham ocupar um dia um lugar ao sol, no competitivo mundo do desporto.

Se recuarmos no tempo, em 2014, o tema “Adulteração de idades” foi um dos destaques do II Encontro Nacional do Basquetebol que teve lugar na Escola Nacional de Administração, em Luanda.

Um encontro onde os agentes da modalidade puseram em destaque a preocupação que o assunto suscita e identificaram sinais que indiciam este fenómeno, nos escalões de formação: a definição muscular acentuada, sinais de puberdade e maior desenvolvimento das capacidades motoras.

Recordo-me nesse encontro, o prelector do tema, Moisés Graneira, sugerir à Federação Angolana de Basquetebol que criasse condições para que antes do início dos campeonatos, os mais jovens fizessem exames de raio X.

Se a selecção de Sub-16 falhou no “Africano” das Ilhas Maurícias, devido a adulteração de idade de alguns dos seus jogadores, porque não se cumprir com as directrizes saídas desse encontro.

Este fenómeno está identificado há muito no nosso desporto, por isso, o mais importante é encontrar soluções para salvaguardar as futuras selecções nacionais. È inconcebível que um país com bons jogadores nas selecções jovens, e na de honras não os tem. Tudo porque os jogadores não atingem o estrelato no escalão sénior, devido à adulteração de idade.

Um caso concreto aconteceu no futebol. Em 1987, a selecção nacional de Sub-20, na altura sob comando do professor Joka Santinho, foi afastada das eliminatórias de apuramento à fase final do CAN da categoria, devido a adulteração de idade de alguns dos seus jogadores.
Os clubes devem disputar os distintos campeonatos jovens com transparência, em relação da idade dos seus jogadores. Não podem adulterar em momento algum as suas idades, porque é um crime.

Aliás, vezes sem conta somos alertados destas situações, nos mais diferentes campeonatos nacionais. Em termos morfológicos, vimos que alguns jogadores não têm a idade exigida por lei. Isto, acontece muito nas equipas de Luanda.

A resolução deste fenómeno maligno não deve ser apenas das Federações, mas de toda sociedade, através das estruturas de direito. A adulteração da idade põe em causa a verdade desportiva. É a pura verdade.
POLICARPO DA ROSA

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