Jornal dos Desportos

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Opinio

Acabar com o tabu

01 de Dezembro, 2017
Quando está disputada já a metade da primeira volta da Liga Portuguesa do Futebol, a questão sobre a não utilização do avançado angolano Gerson Dala, desperta um debate antigo. Qual devia ser a porta de entrada de jogadores angolanos para o futebol europeu. Portugal continua a ser o melhor caminho, ou não necessariamente.
Ou podemos resumir a não utilização de Gerson Dala ao carácter conservador do treinador português Jorge Jesus. Sou dos tais que não gosta muito de Jorge Jesus, por isso. Não falo da competência, pois essa está lá. Porém, é dos tais treinadores que gosta de trabalhar com jogadores feitos.
O que seria de Gabriel Jesus, se fosse trabalhar com Jorge Jesus? Talvez tivesse de esperar para se adaptar, como se fosse possível alguém adaptar-se a partir do banco de suplentes. É essa a grande diferença entre Jorge Jesus e Rui Vitória. Esse último parece-nos mais ousado. É verdade que Jorge Jesus está debaixo de uma enorme pressão, assim como o presidente do Sporting. Mas não se se o comportamento seria diferente num contexto de maior desafogo. Ele no Benfica quase não ligava ao futebol de formação.
No entanto, a questão de Gerson Dala e Ary Papel são uma parte do problema. A questão é mais ampla. É preciso reflectirmos sobre os velhos conselhos de que a melhor porta de entrada para Europa é Portugal. Teria Bastos a mesma oportunidade se tivesse ido para Portugal?
A experiência nos diz que os últimos jogadores angolanos idos de Angola para Portugal, acabaram por se conformar com os Trofenses e outras formações do nula expressão futebolística.
Porque não experimentarmos outras paragens, como Espanha ou mesmo a França? Espanha ou mesmo França têm igualmente muita interacção com o nosso País, pelo que nada nos impede de arriscar. Talvez seja uma maneira de sabermos se não estaremos na presença de um tabu, essa estória de que Portugal deve e continuar a ser o passaporte para o futebol europeu. Ninguém discute a superioridade da Liga Portuguesa, comparando com o Girabola. Um já é uma prova profissional, outro ainda está por se definir. Há enormes diferenças entre essas duas competições, mas nada nos diz que em pouco tempo os jogadores angolanos não singrar na Liga Portuguesa.
É certo que não podemos descurar a guerra dos empresários, mas acredito mais nas opções dos treinadores e clubes, do que propriamente em factores externos. Gerson Dala, por exemplo, chegou no campeonato da segunda divisão daquele país e fez muitos golos. É aliás por conta disso que o treinador português o escolheu.
Incompreensivelmente o jogador não tem tido minutos, mesmo naqueles jogos em que o grau de dificuldades é menor. Como se pode esperar que um jogador se adapte aos colegas, ambiente ou mesmo estilo do treinador se não é utilizado?
Sou dos que considera ser a hora de nos virarmos para outras paragens. Gerson Dala podia, por exemplo, tentar campeonatos francês ou espanhol, indo para clubes de menor expressão. Portugal tem \"exportado\", é verdade, muitos jogadores para os melhores campeonatos europeus, mas tem igualmente exemplos de desperdícios de bradar os céus. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, foi recusado pelo Sporting. E acabou depois por ser um dos melhores jogadores de todos os tempos do colosso espanhol, Barcelona.
Espanha, França ou outro campeonato (menos o Inglês) podia ser equacionado pelo empresário de Gerson Dala e Ary Papel. O jogador não se deve conformar com minutos na segunda equipa ou Sporting B, nem a possibilidade de vira a jogar no futuro na equipa principal na Taça de Portugal.
Consciente de que a vida é feito de risco, Gerson devia tentar sair em Janeiro para outro campeonato. Não importa se for de menor expressão, importa sim jogar e mostrar a sua qualidade. Os grandes clubes estão em quase todos os cantos. Se for convincente pode um dia aparecer num dos grandes ou mesmo clubes de dimensão aceitável, a exemplo de Bastos.
Teixeira Cândido

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