Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Actualmente o desporto no passa de entretenimento

01 de Março, 2018
Em um acontecimento ímpar, fez-se finalmente luz.Eu acho que devia haver mais colunas sociais para ajudar a sociedade angolana a recuperar referências que tem vindo a perder, empobrecendo sobremaneira o panorama das suas expressões, por exemplo, desportivas. Mas o recado seria valioso para outros sectores da vida lúdica, como artes e espectáculos. Ou quintas e fazendas. Ou o que representar valor emocional elevado para as pessoas.
A luz acendeu-me quando ouvi falar em a Ministra ter prometido ajudar um punhado de clubes apenas. Essa forma de intervenção dos poderes públicos são contrárias ao pacto que deve ter a acção ministerial do desporto, e neste caso da juventude e desporto, consabido que os seus interlocutores são os agentes desportivos seus subsidiados, e estes são clubes, não equipas.
No dia em que essa ajuda se concretizar será um marco difícil de apagar, embora se pudesse desenterrar. A seriedade de tudo isso está no que pode ser também visto como populismo, embora eu vá mais adiante e diga que se me fez luz porque eu nunca havia tido um indício para perceber que na fase actual, desporto em Angla é entretenimento acima de tudo.
Mas diz-se que a diminuição dos espectadores dos desportos em geral tem sido compreensiva em virtude da perda do atractivo resultante por sua vez da perda gradual da qualidade dos executantes, o que nos há-de levar sempre para a conclusão de que o melhor desporto e que mais falta faz, é da escola, porque é para todos e se presume que todos devam estudar.
Já de longe sabemos que o desenvolvimento desportivo tem que estar integrado na escola. E já vimos que algumas academias estão a procurar integrar aulas no seu programa quotidiano com o jovem atleta. Claro está, essa escola deve ter qualidade de ensino.
Então, ao invés de concentrar as esquebras dos recursos financeiros em um aditivo para quem tiver melhores indicadores, a Ministra escolheu, não o futebol, mas algumas equipas do Girabola, portanto, nem foi os clubes em absolutos, mas as equipas séniores de uns poucos clubes apenas.
Este tipo de incentivo que se pode considerar não populista, mas também gravoso, não só indicia de que não existe projecto, mas curas pontuais, assim como demonstra o papel de circo do Girabola, visto sob o prisma de um entretenimento nacional, e ao que parece exclusivo.
O resto das modalidades – e não tarda teremos os Jogos Olímpicos que ainda nos servem e que são os de Verão – e ainda há modalidades cujas possibilidades deviam estar já equacionadas, mas tal conversa ainda não parece ter ganho foros seja de importância, seja de preocupação.
A assembleia não consegue parir a lei do mecenato e os recursos escassos são ainda assim aplicados ao calha, com escolha, enquanto outros, como património, foi soberbamente alienado em termos práticos e sob a capa de iniciativas público-privadas que prometem mais ao lado privado, que à utilidade pública.
Em uma sociedade com lideranças a vários níveis e ordens, portanto com um substracto cultural parecido, já os ricaços teriam percebido que uma das resposta ao crime está na criação de incentivos e descoberta de soluções. Pena é que, com a mesma importância histórica com que um pedia foi pedido aos angolanos economicamente bem sucedidos, que agradecessem apoiando a Cuba, tal não é um sentimento patriamente genuino, ou já haveria muitos ministros a dar esquebras a certas equipas.
Em boa verdade, certos precedentes são conducentes a disparates maiores, como foi não terem ainda os homens do parlamento, juntado votos para eles, do andebol, e não elas apenas, também já tivesse casa, ou entrada para uma. E como eles do andebol, outros elas e eles que deram a juventude e privaram-se de muito ao serviço de Angola.
Assim, sem projectos, nem sentimentos generalizados, vai ser realmente difícil encontrar como traduzir em promissor arranque, esta agenda da Ministra que me parece resignada e errática, em vez de visionária e reformista. Infelizmente há muito lixo e nocividade na vida desportiva e sobretudo na sua gestão.
Mas é preciso encontrar alguma esperança no nosso sistema desportivo. É certo que já não temos visionários como foram Rui Mingas e Sardinha de Castro, nem autoridades como foi Victorino Cunha, mas, caramba, temos tantos dos seus fiéis e falsos seguidores, que alguns se poderiam aproveitar.
Por fora do aparelho político-desportivo, esperava-se por outras sinergias, numa hora em que alguns dos nossos potentados com poderios emergentes no mercado, prezam mais em anunciar fora a sua marca, que acordar um gigante de potencial adormecido no desporto angolano, é o extremo da falta de unidade de pensamento e de acção em um país movido a fundos públicos.
Assim e a par da insensibilidade de muitos orçamentadores, também o parque das empresas angolanas não ousa rivalizar na sua própria terra e com a sua própria gente, quando se trata de ajudar os angolanos a resolver problemas básicos, coisa que a maioria das petrolíferas faz como acto de responsabilidade corporativa. E nós perderemos quase tudo do corporativo, a começar pelos jogos...
Perdemos igualmente a falta de uma fusão séria entre a saúde pública, o desporto e o ensino, torrámos a massa gasta em ginásios dos liceus, ainda hoje vê-se aqui e ali espaldares a servir de cordel de roupa para secar, e uma análise sóbria diz-nos que pior que o problema económico do desporto, será sempre o problema cultural dele.
Quando nos foi prometido melhorar o que está mal, não sei se constava isto, mas merece constar doravante. Não basta prometer desporto escolar, é preciso primeiro arranjar quem competentemente o vá ensinar.
Não basta dar dinheiro a uns clubes do ‘Girabola’, mas, exigir que daquele dinheiro seja um pouco para despender com a camada jovem, porque o problema real do futebol é falta de atenção com os jovens e tal como preferirmos importar, que produzir – rotinas contraproducentes mas resistentes – também os clubes passaram a demonstrar preferirem comprar fora, que formar dentro.
E o nosso desporto assim não volta lá...
A par do empobrecimento da cultura e da escola, a pobreza gritante da entreajuda, a morte crua dos sentimentos de solidariedade, são tão demonstrativos da crescente insensibilidade em que estamos a cair colectivamente, que os bons exemplos até nos faltam.
Então não seria crível que para além da iniciativa parlamentar em prol do mecenato, houvesse um pouco de orgulho patriótico e aparecessem ‘trusts’ de antigos desportistas hoje bem de vida, cujas empresas não contribuem um centavo dos seus lucros anuais para uma causa social válida? Eu acho que sim e começo pela vizinhança residencial.
Um ‘trust’ ou grupo de accionistas não poderia bancar o custo anual de um projecto de um centro de alto rendimento, ou um projecto mais pequeno de desporto jovem em um bairro ou comunidade? Um cartel de seguradoras, ou um conselho nacional de carregadores, não conseguem juntar massa para encorajar nenhum projecto desportivo sustentável?
Mais do que insensibilidade, trata-se de aculturação porque a maioria dos empresários actuais foi jovem, teve uma educação de qualidade e sabe do que eu estou a escrever. O que é novo é a insensibilidade que costuma levar gradual e invariavelmente à perda também de cultura.
Enquanto os cidadãos angolanos que mais tiverem não redistribuírem um pouco do que tiverem, esta espiral de assimetrias inclusive desportivas será gravosa e tão, tão tardia de recuperar salvando a parte da raiz ainda não apodrecida do sistema desportivo nacional, que são os homens, os treinadores, os professores de educação física e cujo papel social é tão prioritário quanto sejam professores, padres e pastores.
A lei do mecenato já devia estar cá fora para prover alguma ventilação à cultura e ao desporto nacional, que não se podem desenvolver sem esse acasalamento da sociedade com os projectos sociais de cunho cultural, desportivo ou o que for que a comunidade valorize e represente para si um valor de unidade. Por isso, empresas que ainda não tenham tido a lisura de realizar a sua responsabilidade corporativa e abraçar uma causa social que sirva a sociedade em que se insira e na qual lucra em cada dia, são empresas que deviam ser chamadas polidamente à razão.
O novo desporto angolano não me parece estar a ser reparador dos erros, mas assusta-me mais que ele possa em breve ressuscitar práticas que voltem a condenar o sistema. Parece-me que se perdeu a noção da marcha e o sentido, para se regredir a um recomeço que parece logo comprometido de início.
Falar aos clubes sobre futebol, tendo eles mais modalidades, e prometendo ajuda a alguns, quando eles são muitos, são maus indícios, seja de relacionamento vertical e transversal, seja portanto de ética e deontologia, seja ainda de navegação e políticas.
Será que se perdeu o sentido da missão do desporto e de meta do desenvolvimento ou progresso? O comportamento dos parceiros costuma relacionar a atmosfera e o ambiente em que se vive, e se constrói, ou destrói, ou simplesmente se comprometem o desenvolvimento e progresso. Eu acho que a nossa embarcação navega por aí e sem um astrolábio certeiro.
Na prática e no desporto, deixou de haver um projecto e um só discurso. A corrosão ambiental e nociva da construção das novas bases do nosso desporto podem bem vir a encontrar eco no comité nacional olímpico, sua academia, e obra. Um deve organizar e outro fomentar, mas ambos parecem irmanados na deriva dos horizontes a que queremos chegar, e se queremos, porque não se fala?
A meio, praticamente, de um ciclo olímpico, já ambos deviam ter vindo a público falar do que contar em 2020.
É que põe-se tanto acento na inadiável data dos fins de ciclos olímpicos e começos para renovação de mandatos, que custa a crer que tudo isto redunde s seguir em renovação da mesmice. O Estado gasta demasiado com o desporto para ficarmos anos a fio sem ver resultados.
O problema do desporto, portanto, já não é só sistémico, mas, endémico. Porque entre os parceiros, não se encontram muitos que não pareçam hoje ‘zombies’ daquilo que foram.
O assunto é apaixonante para os verdadeiros desportistas e carece de um aprofundamento, alargamento e solução. Pode estar a faltar-nos o jeito com a bola, só não podemos deixar que nos falte igualmente o jeito para as ideias e soluções precisas.

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