Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

ADN desportivo precisa-se! Continuar a farra em 2019?

27 de Dezembro, 2018
A esta hora já estão feitas as contas para o ano que vem. Como sempre a fatia mais pequena do orçamento do País vai para o sector da juventude e desporto. O MINJUD, que gere isso, tem despendido dois terços em alegados projectos para a juventude, dando o terço de sobra ao desporto.
Se o nosso desporto se tivesse mantido amador, teríamos hoje mais desporto e menos mercantilismo desportivo. Como se possa depreender, o fenómeno da corrupção, que foi transversal no aparelho do Estado, transformou a maioria das associações desportivas em entidades algo opacas e habitualmente sem contas auditadas, generalizando aos poucos más práticas administrativas e de gestão.
Voltando às contas do Estado para 2019, para o desporto elas não incluem já os gastos adicionais previsíveis com as selecções e participações de obrigação. Habitualmente os recursos para isso advêm de uma rubrica do tipo de saco azul, pelo que na linha de partida aparecem as três competições prioritárias para Angola.
Como sempre e apesar de todas as condicionais e condicionantes, temos à frente o CAN de futebol sénior masculino, que não ficará até lá, em menos do que o equivalente a um milhão de dólares norte-americanos (em média a 380 kwanzas, o dólar, na banca comercial, taxas incluídas).
Seguem-se três campeonatos do mundo, em andebol sénior feminino e masculino, e basquetebol sénior masculino. No entanto, para além do hóquei-em-patins, os desportos náuticos e xadrez poderão ter alguma na manga, sendo despesas menores comparativamente aquelas primeiras.
E aqui estaria, numa gestão de crise, o primeiro critério para se sancionar as despesas desportivas do Estado, que vem agindo como os papás que castigam os filhos mandando-os viver para Londres, ou algures nos Estados Unidos da América. O lugar de quem não reforça o seu estatuto interno devia ser em casa, apenas; de outro modo continuaremos a premiar a mediocridade e o sofrível.
Agora já sabemos todos de cor e salteado que as selecções para essas competições vão voltar a esperar sentadas pelas dotações, habitualmente feitas em cima da hora, como se o dinheiro tivesse andado a render primeiro fora do circuito ou sido emprestado. E tais montantes chegam ainda abaixo do pedido ou devido, visto esse tal circuito propiciar que sempre alguém possa ficar com as aparas, por vezes carnudas ainda.
A isto só se pode chamar vício de forma e de conteúdo ainda não erradicado, apesar dos quase dois anos de consulado do novo Presidente, que parece pouco acompanhado na cruzada contra abusos, esbanjamento e descaminho.
Mas quando esses erros se repetem sistematicamente e entram para o catálogo do chamado novo normal angolano, é preocupante. Sempre esses ossos fáceis de roer como cordas, trazem atrelados um cortejo de chupa tutanos por ali onde transitam as ordens de saque. E isso já se tornou um modo de vida para os frequentadores desse circuito.
Os vícios de contabilidade e tesouraria são um dos cancros de difícil cura desta sociedade, até prova em contrário. A fiscalidade, que é igualmente tarefa do Estado, continua a ser branda com tais desvios éticos e crimes de colarinho branco.
O ‘habitat’ desportivo continua doente e contaminado, sendo difícil prever contas limpas já em 2019. Institutos como contas auditadas, apesar de exigidos pelas federações internacionais actualmente (a FIFA e a CAF, pelo menos) são letra morta para os agentes desportivos angolanos, embora um ou outro apenas, de melhor índole, façam esforços por andarem na linha, sem pisar em ramo verde.
A gestão mais transparente tem sido uma das falhas da fiscalidade do sistema e o desporto tem-se valido muito dessa cortina de fumo e opacidade nas contas. Tanto que tem sido frequente e já visto com normalidade, ter uma ordem de saque de X que chega ao destinatário como Y apenas.
Assim e sem indícios de melhores dias no ano que vai começar, rogamos que pelo menos aqueles primeiros três objectivos desportivos da safra que se segue, sejam cuidados, protegidos, se possível blindados, para que ao menos o país faça desportivamente bem aquelas 3 coisas, mais do que fazer tudo isso e o resto, deficitariamente.
A administração do Estado deve dar provas de estar a acatar os comandos do Chefe e o desporto é um dos canteiros predilectos para essa amostragem. Não é o sector onde corram mais rios de dinheiro, porém é aquele que fica mais visível aos olhos do público. Para isso vai concorrer a gestão financeira do MINJUD, o rigor das contas entre si e os agentes desportivos, e a fiscalidade que deve exercer a direcção nacional do desporto, devendo haver igual controlo sobre a despesa da juventude.
Se tal tivesse ocorrido antes, não teria a Secretária de Estado da Juventude denunciado recentemente, e se calhar por lapso, que no anterior exercício do Executivo fora o Estado defraudado com o descaminho de mais de 400 milhões de dólares norte-americanos despendidos em projectos jovens; caso para se dizer que em Angola aprende-se de tenra idade a delapidar o Estado...
Deste modo eu continuo muito céptico com a curva acentuada para menos, do nosso porvir desportivo. Passados dois anos de nova governação, falando mais política do que cronologicamente, é realmente tempo de começar a questionar a direcção do país sobre o rumo que quer dar ao futuro.
Uma coisa é dizer-se que faltam ao país quadros para se fazer mais e melhor; outra será convencer o país que o que vemos é o melhor que temos e que há. Porque o que há é uma total falta de projecto de país (desportivo). E só a isso se deve a minha inquietação.
Sem uma direcção nacional do desporto a enquadrar o desporto nacional municipalmente e a ditar regras, metas e objectivos para os agentes desportivos, será improvável dominar os egos e manias que grassam pelo arquipélago do desporto e que acabou tornando Benguela e Luanda principalmente, em duas ilhas do desporto nacional.
Não tarda deverá haver outro conselho nacional consultivo do desporto (e da juventude também?), mas eu me pergunto que relevância terá isso quando, ano após ano, o estado de coisas parece piorar?
Eu sei que a incompetência é uma consequência nacional e transversal do empobrecimento do ensino de base e consequentemente da formação social do indivíduo, mas se não for a equipa governativa a debruçar-se rigorosamente, cada um sobre o sector que dirige, então de pouco servirão esses conselhos, por se saldarem mais em despesa, do que inovação.
O desvio padrão e a independência da norma são as duas primeiras correcções que se deviam fazer nos apêndices do Executivo, nomeadamente as instituições do Estado, a partir do próximo ano.
Como sempre precisamos de um marco de referência para prometer que a nossa cabeça e más práticas vão mudar, e o discurso do Chefe parece não ter sido suficiente ainda para endireitar o que continua torto, é importante que se encoraje a mudança e a passagem do nosso País à conformidade.
Chega de nos quererem habituar ao tal novo normal, que só serve para acomodar no nosso seio a anormalidade. E a fazer fé nas promessas do novo Presidente que Angola tem, de que não haveria quem se sentisse acima da lei, nem imparável no balouço da desordem, então a ver, vamos, em 2019.
Arlindo Macedo


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