Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Afinal de quem so as seleces?

03 de Dezembro, 2018
Finalmente Angola lá chega, ao Mundial FIBA de basquetebol sénior masculino.
Após uma qualificação ganha com pouco à-vontade e que remete para 2019 ainda demasiada apreensão com a renovação do nosso “Cinco”, tal ficou relativamente disfarçado pelo apuramento conseguido. No entanto o que cá me traz é aludir ao cuidado que devemos voltar a ter para com os desportistas nacionais de elite e as selecções nacionais. E os objectivos desportivos nacionais, se é que ainda os temos ultimamente, terão que ter Pai.
A preparação de conquistas, ou mesmo de melhorias de classificação, não oferece hoje a mesma relevância e cuidado de outrora, quando o desporto era para nós questão cuja violação poderia ser vista como lesa-pátria, o que pode ter deixado de ser. Mudam-se os tempos, mas não deviam mudar-se virtudes. Hoje fico sem saber se estamos a desaprender, ou a deixar de nos importar com o desporto como sendo questão de Estado.
Daí eu me perguntar-me, afinal de quem são as selecções?
Trazer esta “V Janela FIBA” para Angola foi o motivo da minha interrogação. Então, já nem para se apurar O País a um evento desportivo mundial, dos poucos a que se pode aspirar, não é caso nem objectivo para mostrar um empenho consensual e reunir a unanimidade do País?
Por empenho do país eu entendo o empenho do próprio Estado, como nossa organização colectiva, e isso tem que ser à base de procedimentos e cuidados que sejam mais do que, por exemplo, mandar uma ‘SMS’ à frente da remessa de valores, para anunciar que a massa já aí vai...
Como todas as delegações do país, as selecções nacionais não merecem menos crédito, pior trato, nem preparativos atribulados. Há quantos anos já não vamos a tempo e organizados, às competições mais sérias em que nos metemos?
É um facto que o dinheiro do Estado acabou por ‘aparecer’, desta vez, a pouco mais de uma semana do evento, porém o mal maior para o próprio Estado é a massa crescente de trabalhadores e serviços do país desportivo que já se está começa a habituar ao ‘funcionamento’ algumas vezes ‘sui generis’ do MINJUD, cujo ‘modus operandi’ nem sempre é transparente para quem estiver de fora.
As remessas de verbas às federações sempre que não especifiquem a que se destinam, gera confusão para quem for organizado ou minucioso; ficam baralhadas as contabilidades dos agentes desportivos que não descortinam de que rubrique se trate, particularmente quando houvesse já algumas em atraso.
Após Angola ter disputado quatro janelas FIBA, entre 2017 e agora, sem este mesmo ‘engajamento’ do Estado, ou mais precisamente da tesouraria do Estado através do ministério da tutela, fica a Federação angolana de basquetebol (FAB) sem saber se aquela remessa, de 79 milhões de kwanzas, era o ‘bolo’ para a janela, ou uma mistura disso com atrasados, tendo o estado-maior da organização da janela ficado a presumir que a verba fosse para esse torneio do fim-de-semana, na Arena do Kilamba.
Se o Estado não fosse pessoa de bem, eu ainda perguntaria se aqueles 79 eram o bolo todo, ou só fatias...
Diz-se que em equipa que ganhe não se mexe, mas um pouco mais de transparência faria bem à gestão transversal do desporto nacional, partindo sempre do pressuposto de que tudo se normaliza quando os melhores exemplos vierem de cima. Sim, com parcimónia, mas também com rigor e transparência das contas sobretudo em alocação de verbas. Por mais dinheiros misturados que tenhamos nos bolsos, devemos saber qual é nosso ou daqui, e qual é deles e dali.
Isso faz-me pensar se a nossa aversão ao rigor não devia ser declarada questão de saúde pública em Angola.
Sim, rigor para nós é visto como o policiamento invasivo, intrusivo e incomodativo dos superiores, que alguns ainda acham assédio funcional, ‘bullying’, ou violência comportamental. Em repartições públicas muitos há que detestam contabilista e financeiro por estes exigirem contas certas, o que explica que os caixas arredondem sempre o troco em seu proveito. E onde já se viu isso antes?
Voltando ao papel do Estado no sector do desporto, particularmente das selecções nacionais, parto do princípio de que todo o evento organizado por uma instituição angolana conta também e sempre para a própria imagem interna e externa do país. Assim é curial saber-se enquanto em tempo, mas com clareza, como angola há-de promover o alardeado turismo de negócios e turismo cultural, no caso do desporto, se nós mesmos, angolanos, nos furtarmos a acolher eventos?
Angola, este país anunciado também como o futuro do turismo em África, e que até vai ter um aeroporto gigante só para atrair e pousar em nosso solo a maioria de voos longos internacionais que cruzarem este canto do Planeta, será que vai preferir uma estatística de visitantes anuais do país, ou simplesmente de passageiros internacionais em trânsito no tal aeroporto?
É caso para dizer que em alguns aspectos levamos a carroça na frente dos bois. Ainda me recordo de quando, em 2010, organizámos o primeiro CAN de futebol; a entrada de férias colectivas nos nossos consulados comprometeu a obtenção de visto para milhares e milhares de adeptos que viriam da África Austral, Central e do Oeste, mas que ficaram sem poder acompanhar aqui as suas selecções.
Das duas, uma, ou não nos interessava ter esses visitantes, ou as férias colectivas resultaram descabidas, dado o contexto nacional em que se estava e onde a
mobilização dos serviços do país tinha que se manter integral, embora se pudesse reduzir os efectivos nos postos. E o país só se pode dizer preparado para todas as suas megalomanias se realmente procurar realizá-las, mais do que vivermos de sonhos e promessas.
Assim e virando-se nos trinta, a federação de basquetebol valeu-se primeiramente das garantias recebidas de parceiros privados e logrou o seu objectivo, que era o de qualificar-se Angola para o Mundial. Agora resta saber até onde está disposto o Governo a subsidiar a recuperação do basquetebol nacional, mormente ao proporcionar à consolidação do novo “Cinco” os jogos que lhes hão-de dar as rotinas necessárias. E quem fala deste “cinco” fala dos “Palancas Negras” e das “Pérolas” de andebol, bem assim como do “Sete” masculino de Angola, que são as equipas nacionais de ponta no momento, ou sempre foram elas.
Ainda assim foi elogiado pelo comité organizador aquele acompanhamento sempre companheiro prestado pelo antigo craque do basquetebol e agora Secretário de Estado, Carlos Almeida, que ainda que telefonicamente, ia acompanhando os preparativos.
Mas ele não é a Mãe, clamam os mais prosélitos da modalidade; a mãe é a Ministra, não o Secretário de Estado, diz-se acerca do papel que também se espera de Ana Paula Sacramento Neto, a quem só viríamos a descortinar no segundo dia da competição, quanto o abacaxi já vinha sido descascado de véspera, porém a titular dos desportos não agraciara a FIBA com a sua presença na inauguração.
Recordo-me que recentemente o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, deu um bom exemplo -embora não fosse inédito, após o acompanhamento que Zédú fizera da preparação dos “Palancas Negras” para o Mundial FIFA da Alemanha. O nosso Vice-Presidente visitou a 9 de Novembro o ‘campus’ dos “Palancas Negras” e em pleno treino, antes do jogo com a Mauritânia, deixou aos atletas uma atmosfera refrescada para continuação do trabalho e da missão.
Aquilo era mais do que um sinal da governação, era um estimulante para a equipa; não se tratou de nenhum devaneio, nem visita para fazer notícia, apenas o gesto e a atenção exprimida diante das preocupações e interesses nacionais por se deve prezar um país. Além disso serviu para ilustrar um novo rumo e direcção para o país, sendo de estranhar posturas contrárias ou contrastante, resultantes de acções ou omissões de entidades subordinadas daquele.
Mas, apesar dos pesares, lá se fechou a janela de Luanda, com a República de Angola a ganhar um dos bilhetes em disputa para se estar no Mundial na China. O começo do “Cinco” revelou inicialmente pouco à-vontade, fruto da falta de suficiente preparação e principalmente de muitos, muitos minutos de jogos de controlo.
Quando defrontou os Camarões, na estreia, Angola parecia estar ainda a fazer o primeiro jogo de controlo. Sorte, a nossa, que o melhor conjunto apresentado pelos Camarões contrastou, no final, com o desempenho técnico do seu treinador e do Petro, o também camaronês, Lázare Adingono. Uma situação que, a princípio, havia causado dissabor aos dirigentes do basquetebol angolano.
Depois desse primeiro susto, os Angolanos entraram em modo mais displicente, a pontos de vencerem a um Chade bem dotado, mais ainda inexperiente e que recordou-me Angola quando começou, em 80 no Marrocos e em 81 na Somália. Tal e qual, com faltas de rotina e de sincronismo, além de muitas perdas de posse e por violação, sendo agora uma pena que desde então, ainda continuamos com preguiça em lançar mil bolas por dia ou semana, dependendo do empenho pessoal, mas que é tarefa de clube, não para a selecção.
Para tal têm contribuído duas situações: a pior delas é a desunião no seio da classe de treinadores e as alegadas figas feitas e desejos de uns quantos, para que o ‘invejado’ americano ‘perdesse’ a parada, mesmo perdendo Angola; mas, acima de tudo, o desgosto da FAB foi maior quando soube que o Petro havia dispensado o seu treinador camaronês para ir treinar o adversário de Angola(!).
Um debalde, no final de contas, já que Adingono não foi prodigioso e o seu plantel, embora superior, perdeu pontos para Angola. Para a FAB, essa foi outra fissura aberta no edifício nacional de modalidade, onde mal convivem os treinadores desempregados, os semi-empregados, e os empregados, o que dificulta a união e coesão da classe que deve dar o primeiro exemplo.
A segunda questão de facto levantada pela situação que acabamos de viver, aponta para o crescente amadorismo funcional, por vezes também institucional, que enreda o desporto nacional em praticamente toda a sua transversalidade, e de que resulta o fraco desempenho desportivo nacional nas últimas décadas.
Achei graça quando a FIBA perguntou à FAB quando é que voltariam a ver ‘aquela’ Angola, de novo a jogar? Sensatamente, acho, o presidente da federação, “Maneda”, respondeu que não haviam mais Victorino Cunha, nem Wlademiro Romero...
E como se diz-se que o que arde, cura, espero não ter ardido a ninguém, embora haja muitos e muita coisa a precisar duma cura radical em Angola, antes que tais males nossos se tornem em imbondeiro.
Arlindo Macedo

Últimas Opinies

  • Hoje

    Paradigma do nosso desporto no de palmadas nas costas

    Hoje, isto é, no nosso País (Angola) ocorrem judicialmente julgamentos de  questões futebolísticas mal cumpridas e mesmo sem cumprimento, por parte de clubes, federações, atletas, treinadores e dirigentes.

    Ler mais »

  • Hoje

    Citaes

    É com palavras singelas e honrosas que felicito, em nome do Estado, a equipa técnica e as atletas (da selecção de andebol, sénior feminina), que mais uma vez souberam honrar e com significado o nosso país. 

    Ler mais »

  • Hoje

    So Silvestre

    Apesar do atletismo ser das modalidades mais representativas do nosso mosaico desportivo não é menos verdade que a sua acção se faz sentir com maior impacto quando se chega a esta fase do ano, em que se coloca em funções a máquina organizadora da tradicional corrida de fim de ano, São Silvestre. 

    Ler mais »

  • 15 de Dezembro, 2018

    Um tributo para os ex-atletas

    Numa altura em que o país assinala mudanças profundas em vários domínios e, por conseguinte, fazendo ainda eco por cá o slogan “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”, que virou moda no seio dos nossos compatriotas, há-de todo a premente necessidade de se resgatar a verdadeira identidade dos angolanos

    Ler mais »

  • 15 de Dezembro, 2018

    Honremos as nossas glrias

    Afigura-se sempre pertinente falar ou escrever sobre ex-atletas, de qualquer modalidade, que num passado recente deram o seu melhor, contribuindo para a evolução da mesma e, também para que o País alcançasse glórias no contexto continental e internacional.

    Ler mais »

Ver todas »