Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Agora simpsio! Mais do mesmo?

08 de Novembro, 2017
O simpósio de futebol de amanhã e sexta-feira vai debruçar a sociedade do futebol e do desporto pela terceira vez sobre a mesma coisa: ‘a mula’ do futebol.

Sim, o que em 2004 e 2014 já havia sido apurado, depois reapurado, respectivamente, redundaram nas mesmas propostas e oxalá, à terceira seja de vez. O simpósio tal como agora é baptizado acabará por ser o terceiro nome dado ao mesmo boi. A comparação com animais resulta da tradição oral muito apreciada na nossa cultura comum.

Além do nome, a outra maior diferença neste terceiro puxão à mula a ver se arranca, é o embarque da AFA desta vez, na arca de Noé do futebol. Essa academia com apetites de futuro clube acumulou muito saber e experiência que deve partilhar nesta hora de reflexão, sob pena de permanecer um oásis no deserto.

A falta de rivais ao mesmo tempo que a academia deve aspirar a virar clube e a estar na federação em pé de igualdade com outros emblemas, vai sempre ser uma lufada de ar fresco no futebol, sobretudo ali onde falta mais atenção e investimento, na base jovem.

Se tornar-se clube, a AFA há-de enfrentar maiores exigências financeiras e criar desde já a dúvida com que fundos ela se irá manter a partir daí. Entre prós e contras que possa haver um dia, a verdade é que a AFA se tornou na maior referência de cartaz para o simpósio; e se o resto for verdade, também para o futebol.

A nossa crise remonta ao fim da campanha com o Professor Vesko à frente da metodologia do futebol e do projecto das camadas jovens, que parecia capitalizar maior importância, para além da primeira ida de Angola ao CAN, em 1996, com Carlos Alhinho e José Luís Prata, um talento dinamizador que o futebol não tem sabido aproveitar.

Desta forma, essas três figuras seriam importante no discurso do simpósio, pois, de resto, estamos cansados de discutir o mesmo e de perfurar o futebol até à rocha, pois, mais minério do que todo aquele que já foi analisado e equacionado pelos anteriores eventos do género do simpósio, vão acabar por aumentar a exigência sobre o discurso, a análise e reflexão final plasmadas nas conclusões a sair de mais este conclave.

As soluções de hoje serão, claramente, diferentes daquilo de se desfrutava em finais da década de 90 e também do passado século, quando Angola duma maneira geral – e o futebol não seria a excepção… - viveram o ‘boom de El Dorado’ que Angola teve, cruzou e atravessou, sem grandes evidências do fruto disso na actualidade.

Não são apenas custos monetários aqueles que o empanque ou teimosia da ‘mula’ nos causa; são igualmente custos morais, pelo desalento que se apodera da maioria, e ainda custos de imagem; a imagem de Angola e do seu futebol estão já descascadas. E o primeiro ‘basta’ que for preciso dar, deve ser à teimosia e persistência no erro, por um lado, e aos atrevimentos da ignorância resultantes na incompetência que recheia muitos agentes desportivos na actualidade.

Do exterior vêem-nos como inventores. Decerto nos viram destruir a base que criámos e dera certo, ao ponto de chegarmos a campeões africanos nas classes jovens dos principais desportos, algo hoje quase impensável e irrealizável, tirando um par de situações em que ainda vamos conseguindo brilhar.

E é nesse ponto em que o futebol, e duma maneira geral o desporto, ficaram e ainda estão. Um ponto que clama por inflexão, antes que se perca mais, pois, cada dia e mês a atrasar mais aquilo que o desporto precisa é duplamente penalizante em tempo e desperdício de demasiado potencial jovem e desenquadrado.

A direcção do desporto precisa de mostrar coerência e de saber extrair da forte combinação de novos titulares jovens e antigos desportistas, ilações das recordações que ainda trazem de como se vence e se chega ao que eles mesmos desfrutaram enquanto atletas.

Só me tem confrangido ouvir que a fórmula executiva no MINJUD poderá emperrar por haver um subalterno que é membro de maior realce no partido, que a própria ministra, advindo daí muitas pessoas se interrogarem como será o convívio de ambos fora das paredes do partido.

De volta ao simpósio, não partilho da mesma visão de muitos também, que acham que o simpósio vai ser a oportunidade que faltava para algumas pessoas virem a aparecer e se tornarem notícia; como havia dito antes, revisitar um tema e sub-temas como lugares comuns de uma discussão que se tri-repete, não deve retirar interesse, nem a expectativa naquilo que, à luz do presente e da nossa crise, restará concluir pelos painéis e participantes em geral.

Para uns e para outros, ou se corrige o que está mal, ou se melhora o que estiver bem, e agora não restará outra saída dessa máxima pela qual o país se quer reerguer e reconstruir. Quando aplicada ao desporto, tal vem implicar que ‘aquilo que está bem no futebol deverá ser, então, melhorado’.

Realçar o que actualmente precise melhorar no futebol sempre deve partir dos treinadores que houver – e que são infinitamente poucos e com cada vez mais fraca preparação técnica e teórica – sugere promover-se o refrescamento dos conhecimentos teóricos e práticos desses fazedores do futebol, ao mesmo tempo que se deverá dar mais atenção aos jovens, melhor preparação e pontaria aos seniores, e objectivos mais substanciais do que conseguir chegar a um CHAN.

Distorceu-se o modelo social que tínhamos, segundo dizem, próprio de uma sociedade de Mercado; a verdade é que a formula de Mercado do desporto e do futebol e basquetebol em destaque, persistem em querer igualar o resultado do irrealismo elevado ao quadrado.

É irreal repensar no futebol sem repensar primeiro na sua estrutura de custos e gestão, sem primeiro se partir de um imperativo de haver primeiro um redimensionamento económico-financeiro da realidade chamada de futebol angolano. É este o sindroma da inviabilização do desporto profissionalizado em Angola pelas regras sem regra com que o mesmo se tem procurado consolidar.

Numa altura em que o discurso oficial aponta para maiores constrangimentos orçamentais, é fatídico ver os clubes a viver como se apenas se tratassem de emblemas de futebol sénior, onde despendem a quase totalidade do clube. E ainda por cima sem resultados de realce.

E tal distorce o nosso modelo desportivo e parece que estamos a teimar que têm que ser os bois a empurrar a carroça, ao invés de a puxarem.
Se era na escola que se começava a tomar contacto organizado com metodologia para em breve chegarmos ao desporto, escolar ou num clube, então não é um mistério que assim se deva voltar a fazer.

Já bastaram os 20 anos em que os alunos estiveram sem educação física, nem desportiva, indispensável à formação do carácter e robustez da saúde que as crianças e os jovens merecem, ao invés de verem sonegado este direito capital do desporto para todos e desporto na escola.

E quando os clubes voltarem a caprichar na sua juventude para crescer e poder constituir sempre depois bons plantéis juniores e seniores, tal deve ser a direcção técnica do desenvolvimento do futebol e do desporto em geral em Angola. Mas, será que é assim que raciocinam hoje os homens do futebol?

Não é assim que hoje se raciocina no futebol. Qual será, desta vez, a opção mágica a ser utilizada nos tinteiros com que forem impressas sexta-feira as conclusões finais o simpósio. Realmente, o aspecto mágico deste simpósio só será se os animadores dos painéis prescreverem caminhos tangíveis e obtiverem dos órgãos reitores forte adesão às conclusões finais.

A verdade é que hoje devem estar a faltar ao desporto outra visão e discurso, mais do que apenas dinheiro, para o desporto em geral poder mostrar obra; está a faltar génio, capacidade visionária, conhecimento suficiente da matéria, e acima de tudo, uma vontade política determinada e determinante. Falta o senso e a voz de comando nisto tudo.

Esta referência deve-se ao facto de uma parte da receita do futebol estar nos bairros, vilas e aldeias, onde infelizmente parece que as associações provinciais não chegam em profundidade, nem as administrações locais apoiam significativamente qualquer esforço na direcção de implementar projectos locais. Não vou acreditar que seja por falta de empreendedores locais…

Ainda que tudo assente basicamente na escola, é no lar, por conseguinte no prédio e no bairro, que tudo precisa de começar a gatinhar.
Palestras nos bairros sobre a necessidade e vantagem da educação física e desportiva deviam ser dadas por activistas do desporto, que a Secretaria de Estado da Juventude poderia enquadrar, contribuindo para um bem comum do MINJUD. E de todos os angolanos.

O envolvimento desportivo da secretaria de estado da juventude é tão necessário, que o desporto pode resultar em um sector pródigo em criar modelos de exemplo de conduta para os mais novos, se os jovens mais espectaculares da nossa sociedade forem de facto um exemplo, e isto só sucede quando mudarem certas regras na sociedade conectadas ao respeito, disciplina e estudo, que é preciso difundir intensamente no seio dos mais novos.

Actualmente a maior parte dos nossos ídolos desportivos e outros, continuam a dar mostras de pouca ligação à escola e ao estudo, sendo por isso um mau exemplo para os mais novos, a criança e o adolescente. Pior , ainda, estão as raparigas, cuja percentagem de vida desportiva é infinitamente mais reduzida e menos expressiva que a dos rapazes. A bem dizer, somos cada vez mais jovem, mas com menos hábitos de exercício físico. E, logo, de práticas desportivas.

A escola, por seu lado, perdeu além da capacidade acolhedora, também o papel educador a partir do momento em que cada ano vem trazendo menos bons professores, incapazes de assimilar algum papel sério e responsável pela educação física dos alunos, ainda que a mesma não passasse de brincadeiras de recreio. E sem bons professores, nem bons treinadores, não haverá suficiente aprendizagem e nem bom aprendizado.

Assim descaracterizado, o nosso sistema de ensino não vai ser o melhor subsídio para os projectos que possam sair imaginados pelo simpósio. O estado não parece em condição de assumir maior facture, que a actual, no ensino e no desporto. Muitos agentes desportivos verão as suas vidas transformadas, mas era imperativo que transformassem também a sua mentalidade para mais humildes e sensatos.

Os clubes tornaram-se cada vez mais paradoxais ao pretenderem ser geridos como empresas, porém, empregando métodos de gestão e de contabilidade e tesouraria que não são ortodoxos, nem engenhosos ou inovadores, simplesmente são despesistas e mentalidade própria de camanguista, que nunca dá valor ao dinheiro pela facilidade com que obtém o mesmo. E os clubes têm que abandonar essa mentalidade de camanguistas semi ociosos.

Além disso, a esperança de que os clubes rendam mais se se profissionalizarem a nível de todo o seu quadro, é somente uma das premissas do sucesso, pois, a outra, está nas boas práticas de gestão e isso é ainda mais do que os números baterem simplesmente certos, no fim. É também ser-se seguro do seu modelo de gestão se por fim for auditado. E saber que se está a ser o mais possível um clube auto-sustentável. E sem estas três irmãzinhas sentadas juntas no colégio, adeus à boa gestão desportiva.

De facto, uma quase certa maioria de clubes são hoje mais geridos como empresas por conta dos interesses dos gestores, mais que do clube, e ainda por cima obter resultados que não mostrem suficiente ou significativo rendimento desportivo. Para que servirá gastar exorbitantemente e chegar a lago algum, a não ser em benefício pessoal? Infelizmente a persistência nesse estilo ruinoso de gestão deixa a todos poucas conclusões diferentes.

Ao não poder desfazer-se de um excessivo número de trabalhadores no seu quadro e sem as qualificações adaptadas suficientes, nem deixar de por isso ver comprometido o modelo profissionalizado da gestão, espera-se que os resultados desportivos sobressaiam, pelo menos, e estes costumam ter garantias na qualidade dos viveiros. Esta e outras conclusões são por demais evidências das conclusões finais que devam advir do simpósio, porém, duvido que recomendações mais radicais sejam atendidas e implementadas pelos clubes.

Aquilo que não se compagina com as modernas directivas dos organismos internacionais para os países em geral, organismos esses onde Angola tem igualmente assento, mas pouco cumprimento, é no mínimo a realidade mentirosa em que de certa forma vivemos. Porque nem aos jovens, ou ao género, ou à auto-sustentabilidade dos projectos e do país, damos o que realmente todos esses entes merecem. E por isso o desporto jovem e a mulher no desporto são casos cada vez mais minguantes cá em casa.

Acalento, por tudo isto, que o simpósio do futebol seja, pelo menos, uma boa lavagem da cara e couro cabeludo do chamado desporto-rei, não só pelo cuidado a ter com a caspa das ideias, como também por uma higiene mental de que o desporto precisa.

Reunir, sim, mas repetirmo-nos, não é o meu lema. E, antes que me esqueça, completo hoje um ano nesta coluna. De futuro, ela fará anos com o simpósio, sendo ma oportunidade para ambos poderem trocar votos.

Não sei o que poderá desejar à coluna, o simpósio, mas, sei que a coluna lhe deseja muita coragem para sair do mesmo.
ARLINDO MACEDO

Últimas Opinies

  • 19 de Março, 2020

    Escaldante Girabola

    O campeonato nacional de futebol da primeira divisão vai dobrando os últimos contornos. A presente edição, amputada face a desqualificação do 1º de Maio de Benguela, abeira-se do seu fim . Entretanto, do ponto de vista classificativo as coisas estão longe de se definirem. No topo, o 1º de Agosto e o Petro travam uma luta sem quartel pelo título.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Cartas dos leitores

    Estamos melhor do que nunca. A pressão é para as pessoas que não têm arroz e feijão para comer. Estamos sem pressão, temos todos bons salários e boas condições de trabalho. Estamos numa situação de privilégio e até ao último jogo tivemos apenas duas derrotas.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Jogos Olmpicos2020

    A suspensão de diferentes competições desportivas a nível mundial em função do coronavírus, já declarada pela OMS-Organização Mundial da Saúde como Pandemia, remete-nos, mais uma vez, a reflectir sobre a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Pelo menos até aqui, o COI-Comité Olímpico Internacional mantém de pé a ideia de realizar o evento nos prazos previstos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    FAF aquece com eleies

    Cá entre nós, o fim do ciclo olímpico, tal com é consabido, obriga, por imperativos legais, por parte das Associações Desportivas, de um modo geral e global, a realização de pleitos eleitorais para a renovação de mandatos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    Cartas dos Leitores

    Acho que o Estado deve velar por essas infra-estruturas.

    Ler mais »

Ver todas »