Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Ainda o caso Capita

10 de Outubro, 2019
Muitas das abordagens do que se convencionou chamar “Caso Capita”, têm sido marcadas por alguma paixão clubísticas, facto que reduz a profundidade que se requer na análise de um assunto como este, cujos contornos vão para lá da relação clube, jogador, família e agente.
O “barulho” que ainda se ouve é bastante elucidativo, para chegar-se a conclusão de que o assunto não foi completa e harmoniosamente tratado, facto que deixa mágoas e ressentimentos, que esperamos, não venham a provocar constrangimentos na carreira do jogador em causa.
A propósito, tenho apreciado os pronunciamentos de alguns colegas de profissão que, expressando a natureza do desgosto pelo desgosto em relação ao clube adversário, defendem até o atropelo da ética, enquanto norma de conduta com igual ou maior valor que qualquer comando, cuja obediência obriga o uso da coercibilidade.
Tais comportamentos são compreensíveis na base das paixões inflamadas que o mundo do desporto promove, ao ponto de suscitar dúvidas se o tão propalado “fair play” e os demais valores fraternos são mesmos evidenciados nas abordagens desportivas, na base dos princípios propostos por Pierre de Coubertin, tido como o pai dos jogos olímpicos hodiernos.
A considerar válidos os “conflitos” que, bom grado, não vão para lá dos discursos, podemos considerar aferir que no caso Capita, a verdade é apenas uma, mas que os que teimam aceitá-la, o fazem por razões que só eles conhecem, mas em verdade, longe da verdade, que só pode ser servida em dose única.
Porém, e como advogamos num texto que escrevemos nesta mesma coluna, sobre o caso Capita, - e vamos continuar a defender esse ponto de vista - alguém terá falhado em não observar o mínimo ético recomendável, para que o caso fosse resolvido a contento de todas as partes.
Aliás, o facto do atleta se ter posicionado na dianteira e dizer, que “não tem nenhuma mágoa contra o 1º de Agosto” evidencia, numa interpretação mais aprofundada, a existência de coisas mal resolvidas, que a seu tempo podem vir a ser conhecidas, como o azeite que sempre triunfa sobre a água. Por outro lado, ante as posições contrárias, a possibilidade do jogador integrar a lista dos convocados para disputarem o campeonato mundial de futebol em Sub-17, é mais uma prova bastante de que não foram esgotados os mecanismos de solução harmoniosa do assunto.
Isso porque, em rigor, se a selecção é para os melhores num dado momento, convocar quem não esteja no exercício pleno da actividade desportiva é uma questão que pode redundar em o próprio para os demais colegas, coisa que deve ser evitada sempre que possível, no quadro da coerência que se advoga como princípio basilar de gestão.
Se calhar têm alguma razão os paladinos da verdade que virão, em fila indiana, comparar este caso com muitos outros já ocorridos no nosso desporto, com todos os argumentos, cuja razão não passa de ratificação do banal, o que acima de tudo configura uma autêntica falta de respeito ao normal.
Não temos nada contra o Capita, aliás, desejamos o maior sucesso na sua carreira enquanto futebolista, mas há que convir, que para a história do futebol angolano, registar Capita como uma referência obrigatória, o referido jogador ainda tem uma longa auto-estrada para percorrer e uma história para contar, e com factos mostrar que o alarido em torno da sua transferência para o Trofense ou outro “ense” de qualquer canto da Europa, teve razão de ser.
Em relação ao seleccionador nacional, estará numa posição algo desconfortada, pois tem de gerir e quiçá agradar a relação que tem com os dois patrões, no caso 1º de Agosto (que é quem paga os seus salários) e a Selecção Nacional, que pode ser o tapete estendido para a visibilidade além-fronteiras, que uma montra do futebol a dimensão do mundial de Sub-17 pode promover.
Entre todas as ocorrências, e como acima já referimos, continuamos a advogar a manutenção da ética, que mais do que qualquer valor financeiro, é algo que eleva a personalidade da pessoa humana, que nunca deve esquecer que o jogador, para além de um activo desportivo, é um ser que deve ser formado integralmente. Carlos Calongo

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