Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Al CAN, estamos de volta

04 de Abril, 2019
Não me quero nem lembrar, mas foi feio! Feio como qualquer vitória imperativa, porém não a qualquer custo, excepto o custo da qualidade de futebol dado a ver, mas que valia na mesma 3 pontos e um ‘slot’ no sorteio do próximo CAN sénior, a coqueluche das competições continentais no geral. Mas com um amargo desfecho, tal como qualquer ruptura, divórcio ou duelo. Contudo, os Palancas Negras conseguiram...
Sim, os Palancas Negras, conseguiram! O terreno esteve pesado, o pé afundava demasiado e a bola pedia mais força que o necessário habitualmente, para rolar à velocidade dos lances, que falharam muito, para ambos os lados. Mais que três passes bem sucedidos, era pedir demais. No entanto, por detrás das paragens, muitas vezes era o pulmão a pedir. A mil metros do nível do mar, no dia mais quente desse mês, sorte foi eles escolherem a noite para jogarmos.
A marcar a estreia do novo Palanca Negra, que é doravante Wilson Eduardo (Sporting Braga), os nossos lá embalaram os 3 pontos e, mais que isso, o passe que nos interessava. Como em 1995, quando 2 golos de Paulão, aos Tswaneses, nos meteram no primeiro CAN da nossa história, coincidentemente na África do Sul, acabada de sair do apartheid e que era – e acabou por ser - uma óptima montra para Angola vir a público.
Pois, esses dois atletas trazem a lume duas gerações, a terceira (de Paulão) e quinta (de Wilson) respectivamente, libertando aquele perfume que já havíamos sentido antes com Fernando Peyroteu (Humpata), Joaquim Dinis (Luanda) ou Rui Jordão (Benguela), estrelando outrora em Portugal, nascimentos esses que precisamos de repetir, reproduzir e valorizar, salvaguardando para o proveito nacional, mesmo quando nasçam lá fora, de raízes que são nossas. Simplesmente natural e hereditário.
O lastro de tantos outros craques angolanos em potencia e em formação lá fora, e mesmo aqueles em estado bruto cá dentro, que o País – sim Angola! – tem e que não são infelizmente vistos ainda como sendo activos que o País tem, se acompanhar a evolução ao seu redor. Daí que casos como os mais recentemente de Bastos (Lazio de Roma) e Wilson (Sporting de Braga) sirvam para atrair a nossa atenção. Resgatarmos o afecto desse jovens e suas famílias, começando por ter um bom ambiente nas comunidades lá fora, é meio caminho andado para as instituições do país, vulgo embaixadas e consulados de Angola, no caso, saberem cativar o patriotismo desses concidadãos nossos, na diáspora.
Pensar sempre em País, primeiro. Segundo reza a história de Angola do período pós-colonial, portanto da independência do território em diante, sempre gostámos muito de alçar as nossas medidas com repercussão internacional, em seguir outros bons exemplos de África. Pois, actualmente, países fortemente tradicionais do nosso continente, como sejam Gana, Nigéria ou Senegal, ou até entre os árabes africanos, outrora radicais, como eram Argélia e Líbia, também eles buscam na Europa e Ásia, os seus talentos expatriados, que reúnem nos países onde estiverem, e a quem visitam e mobilizam.
Este, chamemos-lhe resgate dos valores nacionais, evidencia a nova visão aberta das nações que se reconhecem espalhadas pelo mundo ou principalmente por outro continente, as quais já vêem e pensam em banda larga, e numa escala planetária. E tudo o que tiver, nisso, valor nacional intrínseco, logo vale x!, porém, continuarmos a desperdiçar x aqui e ali, no fundo valias de que não nos sabemos apoderar como nação, será desperdiçar simplesmente, há-de se tornar uma forma de esbanjar riqueza e, em ultima análise, espelha arrogância política algures.
Não se deve desperdiçar os nossos jovens, quer nos conduzam a umas vitórias, ou outras, desde que Angola saia, com ética, a ganhar. Assim sendo, no rol dos ganhos da nação, o desporto não deve ser olhado de soslaio, nem com menos valia do que teve outrora, e reconquistará se o país investir nisso, porém, não se trata de nenhum investimento milionário, mas apenas de usar-se o bom senso. Afinal, se há desporto que tenha unido a nação, tem sido o nosso. E investir nisso nunca será desperdício.
Olhar para o desporto como incentivo económico é sagaz. Sim, hoje, no desporto, as vitórias já se contabilizam em valores dos ‘activos’ que o país tem por activar, portanto ainda sem contarem para a balança comercial nacional. E qualquer economia orientada para o desenvolvimento do seu PIB, creio que assim deve pensar, em valorizar os seus recursos de valor nacionalmente reconhecido.
O problema poderá ser também, o de um relativo atraso nosso, em relação ao realismo económico lá do resto, deixando-nos sempre a pensar só nos negócios de estado e das grandes corporações, descartando a importância material daquilo que possuímos e se pode exprimir também em números, como o talento. Prova disso é como um país-farol para os demais em matéria de fiscalidade, a Espanha, obtém para a Fazenda, ou Tesouro nacional, dezenas de milhões. E quando assim não parecia, resolveu com 3 processos ultra-mediatizados, o envio de um recado que calou fundo e não trouxe à tona novos evadidos fiscais. Mas só esses três apanhados, renderam ao fisco mais de 50 milhões de euros de multas.
O nosso País, que tem ainda uma política de impostos ajustada ao seu ritmo lento de desenvolvimento, só olha para o desporto como despesa pública, porém, devia ver nele uma potencial fonte de receita, se o desenvolvimento social e económico que se projecta para a sociedade, que não goza de grande empenho agrícola nem parque industrial, for valorizado para florescimento da micro e pequena economia, familiar que seja.
Mas sem essa teia familiar de negócio, facto só verificável pela abundância de micro crédito que nos falta, e à injecção na nossa economia, já se nos afigura difícil virmos a ver o negócios a ser explorado em sectores ou áreas menos tradicionais na nossa experiência económica, mas que haveria de representar, para inúmeras famílias, uma fonte de receita ou forma de rendimento, valorização e afirmação económica, capaz de as tirar da indigência.
Para o Estado, tratar-se de encarar como avaliar e, se ficar convencido, então desenvolver uma nova visão sobre a importância individual das pessoas, para além da igualdade e protecção que conferir ao cidadão, como sendo indivíduos considerados activos do País que merecem ser atendidos, quando qualificados como mais-valias, embora equacionados e relativizados sempre em função do seu potencial de capital.
Só para se ter uma ideia do que isto possa representar, em falando de futebol e negócio, a Argentina perdeu há uma semana 450 mil euros por não poder apresentar Messi num jogo sob contrato, contra o Marrocos, em casa deste. Como, por contrato, o craque devia jogar pelo menos 70 minutos, então o ter-se lesionado e ficado em casa, custou ao cachet dos Argentinos a módica redução, em relação a um cheque inicialmente estipulado em um milhão de euros, mas que acabou ficando em 550 mil euros.
Embora só nos tenha acontecido uma vez e no já longínquo 2005, Angola adquiriu conhecimento e noção do seu valor, como país do futebol. No auge da nossa campanha rumo à Copa FIFA de 2006, os Palancas Negras foram escolhidos em duas ocasiões como replica ideal do futebol africano, para dois países do continente amarelo, ambos já por uma vez co-organizadores dum Mundial, terem escolhido Angola para experimentarem o seu futebol, contra o dos africanos.
A princípio estavam todos satisfeitos e ninguém havia ainda feito contas. O seleccionador de Angola era, então, o professor Oliveira Gonçalves e os Palancas Negras estavam no seu esplendor, tendo feito contas e descoberto que o seu valor de cachet era da ordem dos 250 mil dólares, deduzida a parte da viagem e acomodação, em ambos os casos de 5 estrelas, e donde ia restar entre 80 mil e cem mil dólares, de luvas.
Era esse o nosso valor de ‘cachet’, quando em 2005 ocupávamos o top 50 da FIFA. Assim e graças aos dois gigantes asiáticos emergentes no futebol, Coreia e Japão, lá os “Palancas Negras” saíram da casca, entrando para o mundo do futebol como actores emergentes também. Primeiramente, a 16 de Novembro de 2015, fomos convidados do Japão, com quem perdemos por 0-1, no Estádio Nacional, em Tóquio. Aquilo havia sido quase um feito!
Perante os ecos positivos, outro país asiático meteu Angola no seu rol, e assim defrontámos a Coreia do Sul, em Seoul, em 1 de Março de 2016, após o CAN do Egipto, que perdemos igualmente pela contagem mínima. Mas os dados, haviam sido lançados.
Não tardaria, e já na rota para a Copa da Alemanha, os Palancas Negras foram sucessivamente convidados a novos amistosos, tendo defrontado em Palermo, na Itália, a Argentina (0-2); em Roterdão, na Holanda, a Turquia (2-3); e em Hamburgo, na Alemanha, os Estados Unidos da América (0-1).
Quer para a Copa FIA de 2006, como antes disso, para o CAN no Gana, em 2000, e depois disso, em Angola, em 2010, foram as ocasiões em que Angola estagiou como deve ser, em regime bi-diário e num training camp, tendo depois competido e chegado até onde nunca havia chegado, fossem em mundiais (3 jogos, 2 empates, 1 derrota, 2 a favor e 3 contra, goal-average -1, total de 2 pontos), como em campeonatos africanos (passar da fase de grupos e jogar os ¼ de final).
Quer isto dizer que, em pela fase de reconstrução do que se pode já chamar de selecção nacional, após a equipa de repescagem levada ao CHAN, no Marrocos em 2018, ter dado chão à reconstrução duma equipa a quem possa assentar o fato de selecção nacional.
Os jogadores mal se conhecem, ainda, e têm de ter espaço e tempo juntos, para criarem hábitos, rotinas, apuro técnico e de sentido táctico, etc. Ora, isso requer um meso-ciclo desportivo competitivo, de pelo menos 3 semanas ou micro-ciclos, para manutenção de condicionamento, prevenção de lesões, aprimoramento táctico e endurance! No nosso caso, ainda, ganhar-se verticalidade, deixando de refugiar-se a meio campo, a jogar para os lados e para trás, como é próprio da falta de força futebolística, que para o golo e para a frente.
Mas não é tudo, pois, uma das principais razões do meso-ciclo será a aclimatação, treinando e competindo na mesma faixa de meridianos, que o país oficial da competição, o que mais uma vez – e que não será novamente descoberta – recomenda entre algarve e Málaga, para os Palancas Negras se prepararem e terem adversários em abundância para jogos de controlo, antes de rumar para o CAN no Egipto.
Com sorteio dia 12, nem tudo são conjecturas certas, pois, além de terminar em primeiro no grupo, importa ter um registo de assiduidade e de força competitiva, ou sejam resultados, compulsados entre uma dúzia de países, pelo menos, com esse coeficiente bem acima do nosso. Não obstante, o cruzamento com países segundos classificados dos grupos e outros que foram repescados como melhores segundos, já teremos sensatamente a previsão de encontrarmos ossos duros de roer.
Por último e mesmo para terminar, resta, para fecho destas contas e vaticínios, saber que vontade de êxito tem actualmente o País, na figura do Executivo, quando se falar de futebol. E de novas conquistas... Arlindo Macedo

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