Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Algum viu o Carlitos Romo?

22 de Janeiro, 2016
Desde os primórdios da Independência Nacional, em 11 de Novembro de 1975, que os diversos elencos directivos da Federação Angolana de Futebol (FAF), os dirigentes do Ministério da Juventude e Desportos, elegem como uma das principais prioridades no desenvolvimento dos seus planos de acção, a materialização de trabalhos sérios nos escalões de formação, assentes em planos estrutural e cientificamente elaborados.

Esses programas, no caso do futebol, devem ser acompanhados por técnicos especializados que devem beneficiar de condições de trabalho condignas, como infra-estruturas adequadas e o correspondente material de trabalho, como bolas equipamentos e balneários condignos.

Trata-se de projectos bonitos elaborados na base da cientificidade, que constituem as principais bandeiras nas campanhas eleitorais para a direcção do futebol nacional, mas que nem sempre são materializados. É evidente que os escalões de formação, no âmbito da pirâmide desportiva, devem merecer a atenção devida e o apoio de quem de direito, o que nem sempre acontece.

As entidades de direito, devem, das mais variadas formas, fazer com que os clubes, principalmente os da primeira divisão, façam constar nos seus organigramas, os escalões de formação. A articulação de políticas que devem ser materializadas com a área do desporto do Ministério da Educação, é outro assunto que deve constar como preocupação dos organismos competentes.

O que acima está explícito, não pressupõe que tudo o que foi feito em prol do futebol de formação, prima pela negatividade. Recordamos, por exemplo, que nos anos oitenta, na fase em que o país se encontrava submetido ao confronto militar de triste memória, alguma coisa foi feita neste domínio. Não obstante as dificuldades próprias da época, clubes como o ASA (Atlético Sport Aviação), Petro de Luanda e Petro do Huambo, numa primeira fase, e depois o 1º de Agosto, Interclube e Progresso do Sambizanga, desenvolveram projectos que assentavam na pesquisa e formação de atletas que depois deram cartas no seniores.

Neste particular, e sem desprimor para os demais, merecem destaque, Carlos Queirós “Man Queiras”, o principal mentor do projecto dos “petrolíferos” da capital e Carlos Romão (alguém o viu?), que desenvolveu idêntico projecto nos “aviadores”. Em meio a todas as dificuldades que se faziam sentir, os projectos dos dois Carlos, procuravam já naquela altura, a identidade do futebol angolano, facto que hoje se encontra desencontrado ou esquecido.

O futebol que aquelas equipas apresentavam nos séniores, com Carlos Silva, António Clemente e Semica (Petro de Luanda) e Chico Ventura (ASA), começava a ser delineado a partir dos infantis. Uma boa parte desses atletas que despontavam na rua e nos bairros, eram levados para esses clubes, pela mão de “olheiros”, que então existiam um pouco toda a cidade e que, infelizmente deixaram de desenvolver essa actividade. Naquela época, em quase todas as províncias, havia atletas saídos das “canteras” do Petro de Luanda e do ASA, que não obstante a política de partido único, que se opunha a saída para o estrangeiro dos desportistas, alguns fizeram furor no estrangeiro, fundamentalmente em equipas portuguesas. Seria fastidioso enumerar aqui a quantidade de atletas, com qualidade formados naquela época.

Nesse diapasão, não se deve esquecer a equipa do Petro do Huambo, cujos integrantes eram considerados por muito boa gente, como os intelectuais angolanos da bola. Mona, Saavedra, Picas, Muluzi, Aníbal, Avelino Lopes, Almeida, Luís Bento, Carlos Pedro e Zacarias, eram alguns dos que espalharam a arte de bem tratar a bola, envergando a camisola dos “petrolíferos” do planalto central. Carlos Bonacho, filho do então treinador do Sporting de Benguela, Emílio Ventura (no “Arregaça” ninguém passa) e cronista do saudoso Suplemento Desportivo “Sulple” do Jornal de Angola, escreveu um dia que “Carlos Pedro, para muitos o jogador mais inteligente que surgiu em Angola, depois do 11 de Novembro de 1975, “ trata a bola como se estiver a filosofar”.

É de bom grado saber-se, que, embora de forma ténue, alguns clubes e pessoas colectivas e individuais, começam a materializar alguns programas sérios no que diz respeito ao futebol de formação, isso em função da extensão territorial do país, e a quantidade de homens e meios que a modalidade movimenta. Referimo-nos a Academia de Futebol de Angola (AFA), 1º de Agosto, Interclube, Petro de Luanda, Progresso Sambizanga, Escola do “Ti Nandinho” (Zango), Académica do Lobito, e Escola do Rasgado (Benguela), vão dando o ar da sua graça. Uns com mais ou menos dificuldades, vão desenvolvendo os seus programas, em prol da melhoria do nível e da qualidade do futebol nacional. É reconfortante o facto de o 1º de Agosto, numa altura em que foi autorizado a utilização de cinco estrangeiros em partidas do Girabola, na época passada, ter apresentado na sua equipa principal, sete atletas saídos das suas escolas.

O certo é que se deve criar condições para o desenvolvimento de políticas de massificação e desenvolvimento do futebol de formação em todo o território nacional. É confrangedor saber-se que mesmo na capital, há juniores, juvenis, iniciados e infantis de alguns clubes, que treinam sem a quantidade de bolas desejadas e equipamentos, assim como em campos rodeados de lixo que servem de pasto para animais (cabritos e porcos), onde as galinhas vão debicar a procura de alguns alimentos, assim como servem de ponto de passagem para as pessoas.
Leonel Libório

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