Jornal dos Desportos

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Opinio

Algum "viu por a"! o futebol feminino?

06 de Dezembro, 2016
Quem não se recorda das equipas da PM ( Polícia Militar), Mártires do Kifangondo, Expresso, Progresso, Terra Nova e outras tantas que a memória não ajuda a pôr em dia, ligadas ao movimento futebolístico feminino que no fim da década de 90 e princípio da de 2000, emergiu no país?

Quase que se tornou uma "febre bem-vinda", os pelados da capital eram "massacrados" por toques arrojados das meninas que começavam por via do futebol, a reforçar o princípio do género a fazer o gosto ao pé, numa intromissão pacífica do que até então era matéria de reserva masculina, passe-se o machismo.

Contra todos os epítetos negativos, com os quais se adjectivaram várias jogadoras, o futebol feminino começou a ganhar corpo e passou a estar na agenda semanal de muito boa gente que se divertia com o facto, para além de outras coisas que envolviam efusivamente os amantes da modalidade.
Por mais caricato que parecesse, o referido movimento foi sempre uma aposta das chamadas equipas pequenas, ante à " recusa" dos chamados clubes grandes que nem deram cavaco à iniciativa das equipas como as citadas, no parágrafo de abertura da peça jornalística.

Assumimos, por nossa conta e risco, afirmar que a parte não conseguida pelo futebol feminino terá sido por culpa dos clubes que não quiseram gastar alguns tostões para este segmento do futebol, mesmo a viver no tempo das vacas gordas, com o Estado como o fiel doador do dinheiro gasto no desporto, de um modo geral.

Ainda assim, como que satisfeitos com o existente possível, o futebol feminino deu um ar da sua graça, até mesmo a nível de selecção, mostrou a ginga da mulher angolana que não é apenas significativa no passo e compasso da beleza que tem o seu espaço, e lugar na face da terra. Aliás, não é por mero acaso que este segmento do futebol figurou como factor de campanha da lista de Justino Fernandes, que tinha como vice- presidente para a área, a conhecida Eufrazina Maiato que dispensa apresentação do ponto de vista da sua folha de serviços político-social.

Lembra-me a memória, que uma das " promessas" feitas pelo elenco de Justino Fernandes relacionava-se exactamente com a intenção de revitalizar o futebol feminino, que momentos antes, já tinha deixado a marca na arena do futebol continental, com laivos de boa execução e resultados considerados positivos, dado o arrojo com que as coisas eram feitas.

Porém, da promessa ao seu cumprimento, verdade é que a diferença foi abismal e com toda naturalidade, como que num excelente exercício de ver a caravana passar, enquanto os cães ladram, assistimos o " funeral" do futebol feminino, ante a falácia própria dos tipos que vivem do "faz de conta que"...

Hoje por hoje, quase mais nada se fala desta parte do futebol, o que denota falta de preocupação e ou interesse(?) que os nossos dirigentes desportivos deixam transparecer em relação ao futebol jogado por senhoras, que sem dúvidas e à maneira delas, há alguma coisa a dizer. E, porque se está em período de campanha eleitoral para a presidência da Federação Angolana de Futebol, os candidatos têm o assunto na lista das coisas que pretendem ver alteradas caso vençam as eleições, o que levanta em mim certas dúvidas, sem que isso seja como um pessimismo exacerbado.

Apesar de ser obrigado a conceder o benefício da dúvida aos concorrentes, sinto-me confortado por ter presente as hipotéticas dúvidas, porquanto, por via do que até agora se ouviu dos candidatos ao cadeirão máximo do órgão reitor do futebol angolano, há quase que uma referência surda sobre o assunto.

E, bom seria que se aproveitasse o momento para a devolução da alegria de quem se deleita com o futebol feminino, seja na condição de praticante ou assistente, e assim evitar-se lamúrias como as que ouvimos no fim de semana, promovidas por Irene Gonçalves, uma das maiores referências do futebol feminino angolano.

Dentre várias coisas, a antiga estrela reclamou de tudo que não se fez, e nem se faz em torno da modalidade, fica a impressão de que alguém que não elas, serviu-se do futebol feminino para outros fins nada apetecíveis aos olhos dos que vivem e respiram o futebol na sua plenitude, o que é de todo mau e condenável, deitar tudo o que até aqui foi conseguido, com destaque para um terceiro lugar no CAN da especialidade, numa altura que o combinado angolano era orientado por Miller Gomes, salvaguardando a traição que a memória pode provocar.
Carlos Calongo

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