Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Aliado diplomtico

12 de Novembro, 2018
Mágico e célere o tempo correu, e remete-nos hoje a uma data que, há 43 anos, foi de todas as palpitações, de todas as emoções, de todos os sonhos, de todos os sorrisos, de todos os cantares e de todas as danças. Nesse dia, Angola soltava o grito da liberdade e desprendia-se das amarras e dos ditames do colonialismo. Abria uma nova página na história, começando um período em que pelos próprios punhos traçava, com ou sem recurso a instrumentos geométricos, as linhas orientadoras do seu destino.
Para trás, e para esquecer, ficavam cinco séculos de triste memória, em que o indígena foi subjugado, explorado e espoliado dos seus haveres, em própria terra. A independência, era, a bem dizer, a compensação do sacrifício e esforços conjugados, daqueles que, sem medirem as consequências da sua determinação, deram inclusive a própria vida, na árdua tarefa de inverter o quadro que se vivia, para que as gerações seguintes, não mais tivessem a desdita de nascer no mesmo clima funesto e lúgubre.
Será, no entanto, importante não perder de vista, que o desafio à independência representou, igualmente, uma acção arrojada dos seus artífices. Pois, sabia-se à partida, que tudo tinha de começar da estaca zero. Afinal, o colonizador ao entregar o país levou consigo o \"know how\", obrigando as novas autoridades a um exercício hercúleo, para revitalizar as principais estruturas e torná-las funcionais.
Adaptando-se, timidamente, à nova realidade, o país precisava de um escape para o tédio e para a monotonia resultante de um novo começo. O Desporto, logo à partida, foi reconhecido como elemento que ia desempenhar o papel fundamental neste particular. Além de mais, em face das circunstâncias em que se dá a independência, com o país ainda dividido pelos Movimentos que lutaram pela descolonização, havia a necessidade de encontrar um denominador comum.
Só por via do Desporto, os angolanos podiam se reencontrar e se expressarem na mesma língua. Entretanto, a situação que se viveu ao longo do ano que se seguiu ao da independência(1976), não facilitava a execução de um plano desportivo de abrangência nacional. Mas, em alguns centros urbanos, principalmente em Luanda, notava-se uma certa vitalidade desportiva, com a realização de alguns torneios amistosos.
Pode-se dizer, que a verdadeira explosão desportiva, remonta ao ano de 1977. Com a libertação de todas as províncias, cuja saga culminou a 27 de Março com a expulsão do último \"carcamano\", pensou-se na definição de uma política desportiva sólida e consentânea. Nessa altura, em Luanda, por exemplo, os amantes do futebol já se deleitavam com as primeiras emoções do \"Torneio Experimental\".
As Célebres Jornadas de Amizade Angola e Cuba, bem como o \"Torneio Ano de Agricultura\", a nível do futebol, serviram de \"balão de ensaio\" àquilo que veio a ser a primeira edição do campeonato nacional de futebol da primeira divisão, disputado de 8 de Dezembro de 1979 a 14 de Março de 1980, então sob o signo da política da Unidade Nacional.
Na época, ensaiavam-se vários passos a nível de outras disciplinas. No basquetebol principalmente, a 12 de Março de 1976, através do departamento gimnodesportivo da JMPLA, convocou nas suas instalações, na antiga sede da Mocidade Portuguesa, uma importantíssima reunião, que traçou as linhas essenciais para o relançamento da modalidade.
Em resumo, separando a Defesa e a Educação, não deve ser nenhum desatino dizer-se, que o Desporto acabou por ser o sector mais activo ao longo destes 40 anos. As cores da nossa bandeira começaram a ser conhecidas pelo mundo, por via de actividades desportivas, por via de torneios internacionais de amizade, promovidos com alguma regularidade quer em Angola, quer por outros países que partilhavam a mesma linha ideológica. Não cabe, neste exíguo espaço de jornal, a descrição da função exercida pelo Desporto nos 43 anos em que o país se viu assente em novos alicerces, que ontem completamos.
No campo da nossa política diplomática, foi um verdadeiro aliado do governo, desenvolveu acções vistosas dentro e fora do país, mesmo em plena \"guerra fria\". Serviu, em muitas ocasiões, como bálsamo ao sofrimento do \"heróico povo angolano\". Chegados aos 43 anos, é longa a estrada percorrida pelo nosso Desporto, percurso ao longo do qual conquistamos, a nível de algumas modalidades, a África; desfilamos em campeonatos do mundo, onde agora somos campeões do futebol para amputados, título ainda fresquinho, acabado de conquistar em Guadalahara.
Portanto, há motivos de sobra para os fazedores do nosso Desporto, alguns dos quais já na outra dimensão da vida, exibirem algum sentimento de orgulho, por deixarem para trás feitos de realce, que a História tratou de registar.
Matias Adriano

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