Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Amanh um "tudo ou nada

21 de Março, 2019
Amanhã é uma espécie de Dia D, para nós, e tal fica a dever-se aos ‘’Palancas Negras’’. A nossa selecção joga uma cartada que pode fazer história, quando amanhã defrontar a do Botswana, numa partida que se joga exclusivamente para a vitória, mesmo sendo em campo adversário. E só isso pode garantir o apuramento dos “Palancas Negras” à fase final do maior torneio continental, a Taça de África das Nações, vulgo CAN, em Junho e Julho, no Egipto.
A primeira vez que Angola chegou ao CAN, em 1996, havia sido coincidentemente, após arrancar a vitória no terreno deste mesmo adversário, graças a um golo de Paulo António Alves “Paulão”. Desta vez, o antigo craque volta a Gaborone como convidado especial da FAF, na categoria de talismã. Ele havia começado o futebol tardiamente, já com 23 anos, coincidentemente a idade média dos actuais “Palancas Negras”, que amanhã podem fazer do velho goleador, a inspiração na caravana da selecção nacional.
Mas se Angola esteve em 2018 no CHAN, o mesmo não se pode dizer em relação ao CAN, onde não se apurou em 2015, depois de o ter conseguido em 2010 (aí porque éramos organizadores), 2012 e 2013, na Guiné Equatorial e África do Sul, respectivamente. Feitas as contas, já lá vão seis anos...
De lá, para cá, o futebol angolano, em particular as selecções, comeram o pão que o diabo amassou, como se costuma dizer. De resto, há seis anos fora dos CAN é um dado sintomático das dificuldades que havia, sobretudo a nível de plantel de “Honras”. Parecia que não havia ponta, por onde pegar na selecção sénior, quando a nova direcção da federação chegou.
Num momento em que o descrédito sobre as possibilidades dos “Palancas Negras” se misturavam, com o reacender da questão “seleccionador nacional estrangeiro”, estava-se em finais de 2017, quando o Presidente da FAF puxou da cartola um coelho e assim aterraria em Luanda, o técnico sérvio Srdjan Vasiljevic, que havia sido técnico adjunto da selecção sérvia campeã mundial de Sub-20, em 2015.
O momento foi quase recambolesco, tendo o seleccionador chegado a um mês da competição e encontrado uma equipa para montar, visto nem todos os clubes se mostrarem disponíveis para liberar atletas. E como quando faltam ingrediente ocorre ser-se criativo e obter-se milagres, o CHAN acabou por ser a ressurreição dos “Palancas Negras”, à base de atletas que um ano antes nem teriam o seu nome na pré-convocação.
E para tal contribuiu sobremaneira a experiência do treinador a lidar com o futebol jovem. Em se tanto três jogos do CHAN, era óbvio que não se havia ganho para o susto, mas lá estava Angola a caminho dos oitavos-de-final e com boas perspectivas de futuro, que é isto que hoje estamos a viver. Claro, muito contribuiu a solidez do novo combinado nacional para os resultados animadores e, jogo a jogo, aumentar de interesse estar na selecção, mesmo entre os angolanos a jogarem no estrangeiro.
Assim e para concluir, importa sublinhar que foi feito muito em pouco tempo e com menos de metade das condições, pois, ninguém desconhece os cortes drásticos que sofreram os orçamentos públicos das modalidades, não havendo excepção no futebol. Ainda assim, têm estado activas as selecções de Sub-23, Sub-20 e Sub-17, em particular estas duas, a última das quais saiu para um torneio na Turquia, a convite conjuntamente da CAF e da UEFA.
Hoje já se pode dizer que se refez a selecção, e que temos selecção!
Mas o trabalho destes últimos 14 meses – contados a partir da chegada de Vasiljevic – foi primeiramente o passajar de uma manta de retalhos, de que se fez a selecção improvisada para o CHAN, que se havia mostrado sólida, resistente e competitiva, factores esses que haveriam de apressar o encerramento do ‘dossier rejuvenescimento’ em relação à selecção sénior.
Fora a segunda mais radical rendição da guarda, por que o plantel passou, após aqueles primeiros episódios com a selecção campeã africana de Sub-20, em 2001, e que já se havia começado a desfazer em 2003-4, a tal ponto que a maioria não chegaria ao Mundial, em 2006, na Alemanha. Saídos dali, os ‘’mundialistas’’ começaram a pendurar as chuteiras e a selecção nunca mais seria a mesma.
Como se sabe, os sinais do empobrecimento do futebol sempre começam pelos resultados dos clubes. Analisando os mesmos, ver-se-á que os emblemas angolanos só voltaram a dar cartas nas fases de grupos da Liga dos Campeões e da Taça NELSON MANDELA (da Confederação), ultimamente, em 2017-8. E se os jogadores domésticos não eram ainda em número e quilate suficiente, a verdade é que isso também não aliciava os expatriados a virem servir a selecção.
Se o andamento dos clubes, no trabalho diário, é que dita a potenciação da selecção, então, em 2017-8, a evidência deixada pelos principais emblemas e fornecedores do “Onze” nacional, de estarem mais competitivos e fortes em África, faz com que essa nova expressão dos clubes embaixadores angolanos, se venha a reflectir na equipa nacional. Mas infelizmente, nem as equipas técnicas dos clubes são abertas a uma interacção com as datas da pré-selecção, nem a competição e suas rotinas são trabalhadas ao longo da temporada, como seria o ideal.
Quando a federação deixar de reger a competição doméstica, para se dedicar exclusivamente às selecções, logo que entre em vigor uma Liga angolana de clubes de futebol, então acredito que será pior, ainda. No entanto, isso seria uma epidemia à escala planetária se todos os países fossem difíceis e caros como o nosso, para se fazer desporto.
Em países ‘ligueiros’ existe também um maior profissionalismo e os padrões dos procedimentos são firmes e eficazes, a tal ponto que os espaços se conseguem para as datas FIFA e o trabalho vai sendo melhor feito, quando ambas as partes interessadas nos jogadores, colaboram. É que fica difícil chamar a uma liga de anti-patriótica e lesa-pátria quando assim não acontecer, pois, de nada vale o brio dos clubes se ele não se reflectir no trato com a sua própria selecção. Daí a necessidade de haver um protocolo que, no caso dos outros países, parece que funciona e resulta, porém, há uma diferença mínima, mas decisiva a nosso desfavor.
Com a maioria dos países africanos a produzir safras riquíssimas de jogadores, hoje há países, só para citar meia dúzia deles, como sejam Argélia, Marrocos ou Tunísia, por um lado, depois Côte d’Ivoire, Gana, Nigéria ou Senegal, por outro, que têm tantos jogadores bons fora, que quem se desloca é a equipa técnica e, assim, treinam em Londres, ou Paris, dentro de timings que nem parece ter havido uma mudança de regime e de treino.
Já, nós, temos realmente jogadores fora, porém, ainda vai sendo mais razoável virem eles, do que irmos todos de casa estagiar fora em datas FIFA. No entanto, ano após ano, o menor aproveitamento dessas datas acaba quase determinando o maior rendimento desportivo dumas formações nacionais, relativamente a outras, quando comparamos as suas respectivas evoluções. No entanto, o nosso anfitrião, Botswana, é que não tem boas razões para estar demasiado confiante, apesar de jogar em casa. Fez ontem um mês que pareceu que o céu havia desabado sobre a equipa.
Com efeito, a 20 de Fevereiro último foi sacado o seleccionador, David Bright, por alegadamente não haver logrado nada substancial com a selecção, nem sequer passar dos quartos-de-final da última Taça COSAFA, numa altura em que já haviam sido dados por perdidas as eliminatórias para o CAN.
\"Fizemos uma avaliação completa do desempenho da equipa. A introspecção dependia de muitos aspectos”, explicou Mfolo Mfolo, Director executivo da Associação de Futebol do Botswana, o equivalente a presidente da direcção. O treinador tinha como meta a qualificação para as finais da Taça das Nações Africanas de 2019; foi um dos motivos.
\"Também era esperado que ele aumentasse o perfil da equipa, melhorando o nosso ranking da FIFA em 15 lugares. A oportunidade estava lá, para se qualificar para a Copa das Nações. Estamos agora, na classificação, na posição 145, por isso é certo que nos separamos amigavelmente com o treinador\", disse Mfolo.
Bright disse que a associação não conseguiu apoiá-lo totalmente na preparação da equipe para a maioria das tarefas, o que levou ao declínio nos resultados. Mas Mfolo contestou as alegações de Bright.
\"Você deve saber que as equipes nacionais têm o seu tempo durante a semana da FIFA. Alguns países só se reúnem no país anfitrião, para o jogo. Mas, desde que cheguei ao escritório, sempre garantimos que as “Zebras” estivessem envolvidas durante as semanas da FIFA\", defendeu-se o máximo dirigente da AFB.
Mfolo anunciou que toda a equipe técnica, sob Bright, foi dissolvida, e que um processo para recrutar novos membros começaria em breve. E este hiato veio sobremaneira a favor da corrente angolana, no torneio. As “Zebras” estarão sob um técnico interino para a próxima partida.
\"Não há um calendário para quando vamos contratar um treinador de peso, mas esperamos que isso seja feito em Junho. Enquanto isso, deve haver alguém para preparar o time para o jogo de Angola\", explicou.
Bright, que sucedeu o inglês Peter Butler como técnico do Botswana, acertou em cheio depois de não conseguir passar dos quartos-de-final da Taça COSAFA regional, em 2018, antes duma corrida estéril nestas eliminatórias da Copa das Nações. O Botswana está no Grupo I ao lado de Burkina Faso, Angola e da Mauritânia, mas até agora conseguiu apenas um ponto em cinco jogos. E quanto a Angola, para os “Palancas Negras” amanhã é um tudo, ou nada. Arlindo Macedo


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