Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Ameaa de malria no futebol

05 de Junho, 2015
Ponto prévio: alguém viu por ai Geoveth Barros? Quando este antigo secretário-geral da FAF veio a público dizer "ipsis verbis" que o futebol angolano era uma mentira, ninguém lhe deu ouvidos, nem mesmo a fingir. Alguns até acusaram-no como alguém que estava em desequilíbrio mental, ou se preferirem, à beira da demência.

Geoveth Barros era na época um homem que se movimentava, como peixe na água, nos corredores da FAF, e que devia estar a par de alguns dossiers ou de algumas embrulhadas típicas do nosso futebol. Ao alerta fez-se ouvido de mercador e a nossa vida futebolística tocou para frente, continuou o seu percurso dentro da normalidade.

Hoje volvidos vários anos, um outro dirigente desportivo, não federativo, mas de clube, veio à terreiro denunciar manobras que campeiam no mesmo futebol. Entretanto, Mosquito, fazendo jus ao seu nome, picou forte e feio, e disse mesmo que ele próprio já fez parte da orquestra. Isto é, já pagou serviços à árbitros, alguns ainda no activo e outros retirados para concederem facilidades a sua equipa.

Bom, fazemos fé que tal como se chegou a dizer de Geoveth Barros, Horácio Mosquito também tenha deixado cair algum parafuso. Mas caso esteja a falar dentro da sua sanidade mental, estaremos perante um caso que configura tamanha gravidade, capaz de pôr em causa muitos, dos títulos conquistados no nosso campeonato nacional.

Pois, a ser verdade que não existe presente sem futuro, pode cada um de nós fazer um exercício de consciência para tentar compreender quando é que esta máfia teve início. Quantos títulos do Girabola foram, ao longo das 35 edições, conquistados com mérito e justiça sem recurso ao tal "servicinho" que hoje, como quem arrependido dos seus pecados, levam Mosquito ao altar para se confessar.

Sabe-se que o desporto, o futebol em particular, nunca foi um espaço pejado de rosas, teve sempre espinhos. Aliás, olhemos para as convulsões dentro da própria FIFA. Nunca se pensou que fosse um antro de corrupção generalizada. A "picada" do Mosquito deixou subtendido que nos clubes há dirigentes identificados à partida como vice-presidentes para a Área Social, quando na verdade são vice para falcatruas.

Insistindo, a "picada" de Mosquito deixou ainda subtendido que é verdade quando se diz que a primeira volta do Girabola é do treinador e jogadores e a segunda é dos dirigentes. Afinal temos uma competição nacional com duas designações: Girabola no primeiro turno e Girabatota no segundo.

Talvez por aqui se possa agora entender por que razão a prova tem de observar uma pausa de 40 dias, a separar a primeira da segunda volta.

Poupem-se ao esforço aqueles que ainda estavam a discutir este aspecto. Está explicado: os maestros do nosso futebol, os tais que em face da sua condição financeira jogam no seguro, precisam de tempo suficiente para negociar os jogos que consideram mais difíceis da segunda volta e de arrumar os valores a envolver. Esta tudo claro: este ano como a banca no respira ~boa saúde, achou-se que é preciso mais tempo.

Mas, a sociedade apanhada de surpresa com esta revelação, aguarda por algum pronunciamento do órgão que superintende o futebol nacional. Que medidas serão tomadas? Será instaurado um inquérito que leve a apurar a verdade? Suspende-se a presente edição do Girabola? É que sobre o caso não pode pairar um tumultuoso silêncio, como que uma assumpção da cumplicidade.

Se há máfia, os órgãos de Justiça tem e devem intervir no caso. Aliás, o mesmo Mosquito semana antes, na primeira picadela, já havihá muito a inventar é só seguir o exemplo da Justiça internacional sobre os implicados nos escâncalos que sacodem violentamente os pilares da FIFA.

A "picada" do Mosquito também furou, pelas costas ou pela barriga, o colete de lona do jornalista. Aqui, honestamente falando, não percebemos o papel dos membros da nossa classe na influência de resultados. Funcionam como intermediários entre dirigentes e árbitros?

Sabemos da existência daqueles que, sem pedir, podem beneficiar de uma oferta deste ou daquele dirigente de clube ou de federação no quadro do relacionamento que possa existir entre ambos. Isto do ponto de vista jurídico não configura crime.

A confusão está instalada. Aguarda-se por outras "picadas",com a provável divulgação da lista dos implicados. Ai é que serão elas. Conhecendo como conhecemos o efeito nocivo de "picadas" de Mosquito, advinha-se um terrível surto de malária no futebol. Os serviços nacionais de saúde que estejam sob aviso, e fazemos apelo as Organizações Não Governamentais a providenciar mosquiteiros que chegam, de preferência impregnados. A coisa pode ficar feia....
Matias Adriano

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