Jornal dos Desportos

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Opinio

Amor camisola

29 de Junho, 2017
No basquetebol norte-americano, os patrões das equipas pagam salários estonteantes a jogadores nucleares de diversas equipas, para conseguirem os melhores resultados e chamar a si a conquista de títulos.

Hoje, na maior parte dos países do Mundo pratica-se desporto com espírito profissional, e por isso, o princípio de jogar ou praticar desporto por amor à camisola, está fora de questão.

Em Angola, depois da independência em 1975, o Estado assumiu a responsabilidade de “oxigenar” o desporto, por ser o principal patrocinador das equipas das províncias, e das seleções nacionais.

Assim, surgiram equipas como 1º de Agosto, Petro de Luanda, Inter de Angola, Construtores do Uíge, 1º de Maio de Benguela, Sagrada Esperança e outras que eram como “filhinhos mimados da mãezinha” que não deixava que faltasse nada.

À medida que o tempo passava, e com isso as dificuldades em termos financeiros que ia aumentando, o Estado viu-se obrigado a “desmamar” a maior parte dos filhinhos que na verdade já eram adultos, o suficiente para andar pelo próprio pé.

Pelo que estamos a observar, o facto do Estado assumir o papel de principal patrocinador do desporto no país, serviu de faca de dois gumes, pois, trouxe aspectos positivos como também negativos.

O lado positivo foi, que com a ajuda do Estado formaram-se grandes atletas, especialmente no basquetebol, como Jean Jacques, Aníbal Moreira, Baduna, Vítor de Carvalho, José Carlos Guimarães e outros, que se tornaram grandes estrelas em África, e não só conquistaram 11 títulos continentais, de forma quase ininterrupta. Podemos também falar do andebol feminino, que com ajuda do Estado, formou jogadoras como Palmira Barbosa, Nair Almeida, Isabel Kiala e outras, que continuam a “colonizar” o Andebol Africano.

Por outro lado, em sentido negativo, o facto do Estado “amamentar” a maior parte dos clubes, fez com que grande parte dos dirigentes adormecessem debaixo da sombra da bananeira, e fossem intelectualmente preguiçosos.

Naquele tempo, ainda alguns dirigentes viam os clubes como um mar, onde cada um pescava o que quisesse. Por isso, a maior parte dos dirigentes não tem “cérebro”, para idealizar formas de conseguir activos, para manter os seus clubes.

Segundo comentários de Paixão Júnior, ex - Presidente do Conselho de Administração do BPC, na TV Zimbo, no programa desportivo prolongamento de há duas semanas atrás, pelo andar da carruagem, com a crise económica que assola o país, somente três equipas têm condições de se manter de pé no Girabola, a partir de 2018.

As três equipas são: o 1º de Agosto, o Interclube e o Recreativo do Libolo. O Libolo está nesta lista, entre aspas, porque segundo o antigo homem forte do BPC, somente os militares e polícias têm activos reais para se manterem, porque têm sócios “obrigatórios”, e outros patrocínios.

Este indicativo, que vem de um homem com conhecimento de causa, faz arrepiar a cabeça dos amantes do futebol nacional. O que será do Girabola de 2018 e dos Palancas Negras? Surge uma outra questão: como é que o clubes eram financiados, antes da Independência?

O registo histórico diz, que os dirigentes dos clubes, eram criativos e engenhosos. Por isso, criavam activos para os seus clubes. Assim, além de angariar sócios, uns construíam quintas onde produziam produtos para a venda, outros construíam cinemas, persuadiam empresários locais a ajudar, e assim por diante.

Entretanto, se olharmos para os grandes clubes da Europa, como Barcelona, Benfica de Lisboa, Porto e outros, os sócios contribuem com a maior fatia para a sobrevivência da equipa, além de outros activos, construídos ao longo dos anos.

Então, o mesmo pode ser feito aqui. O 1º de Agosto, por exemplo, está no bom caminho, neste sentido, pois segundo dizem, mobilizou mais de cem mil sócios, além de militares. Além disso, estão a construir infra-estruturas, entre um Estádio com capacidade para cerca de 30 mil espectadores. Tudo isso, constitui um grande activo para o clube. As demais equipas, também podem seguir o mesmo caminho. Um exemplo, que aconteceu com um jogador que militou no desportivo da Eka, do Dondo, ensina-nos que o dinheiro não são só as notas, ou as moedas.

O referido jogador assinou pelo clube do Dondo, por uma época, e em compensação recebia dez caixas de abacate, quando estes estivessem maduros! Um outro jogador assinou pelo Mambrôa, do Huambo, por uma época, e recebeu uma Yamaha.

No entanto, a maior parte dos jogadores representaram os seus clubes, ou selecções nacionais, por amor à camisola. Portanto, o mais importante é ter cuidado, para não dar um passo maior que a perna.

Os dirigentes dos clubes devem planificar a vida das suas agremiações com realismo, e em função do que realmente têm, e não com o que podem vir a ter. Devem procurar parcerias, para transformar os seus clubes, em grandes fontes de aquisição de receita.

Enquanto os clubes ou selecções nacionais não criarem condições de financiamento condigno, para manter as suas agremiações desportivas, a solução deve ser jogar por amor à camisola.
Augusto Fernandes

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