Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Andar direito por linhas tortas

03 de Maio, 2018
Após reflectir cheguei à conclusão que o desporto começa a mostrar o seu lado mais servil e político. E a ministra da Juventude e Desporto, Ana Paula do Sacramento Neto, não se tem poupado a dar mostras disso. Assim por junto e atacado como se diz quando se quer meter numa só frase todos os considerandos, está identificado que para o poder, a maior base eleitoral do desporto é o futebol e portanto é nos clubes que se poderá centrar a acção política do governo no desporto. Afinal, são os clubes que representam a maior base social desportiva politicamente falando, grande parte dela só ‘falando futebol’, sinal de que os demais desportos poderão vir a ser lembrados se por ventura forem ‘medalheiros’. Terei percebido mal? Em um dos seus primeiros actos de impacto a ministra convocou os clubes, mas basicamente falaram de futebol e sem precisar das federações; este pulinho ético não deixou boas referências, nem marcas. Até onde seria a ministra capaz de ir na sua exibição de força, poder e querer? Ficou-se na expectativa e ainda se está.
Certo dia, a ministra recusou receber cumprimentos do enviado do presidente da CAF, não tendo sido nada simpático para alguém que é da nossa própria região. Bem, à priori, não se poderia dizer que a ministra, antiga jogadora internacional de andebol, tivesse subestimado a importância política e económica do futebol, até para Angola, ou os clubes e o futebol não teriam sido o primeiro ‘gesto’ da nóvel ministra e antiga andebolista. Pelo meio ficou um ciúme imenso e justo, quer das federações até ali ignoradas, quer das outras modalidades que se jogam sem o pé ou com bolas de outro tamanho, e não era para menos tratando-se de primeiros sinais. E assim vamos reter por momentos as palavras andebol e futebol para repescarmos pontas para conclusões adiante. Entretanto, para o pior e para o melhor, não direi a nova equipa do Minjud – é cada vez mais evidente que a ministra é quem manda, até, nos secretários de estado –e direi mesmo, a ministra foi acertada no momento em que escolheu de volta o título de director nacional dos desportos, em vez de director das políticas desportivas. Primeiro porque não temos mesmo essas tais políticas. Segundo porque o desporto está sem referente e o director nacional do desporto costuma ter esse papel formatador do desporto nacional, porém, o escolhido da ministra não parece tarimbado para isso. Entre outras valências, deveria ser um técnico desportivo capaz e diligente na transversalidade. Só não pode é mandar recadinho para se apoiar clubes aflitos, deve-se é trabalhar noutra vertente e plantar também em Angola um desporto amador. Neste particular e somando detalhes, o Presidente da República, João Lourenço, recebeu um ‘presente envenenado’ quando foi persuadido de que o desporto escolar ia arrancar e resolver os nossos problemas; na realidade, o desporto escolar perdeu quase todos os seus pressupostos e vai levar tempo ainda a reaparecer como deve ser. E como já estava até ser morto em 1994. E vai demorar até dez anos para poder imitar... Ana Paula Neto lembrou que ela mesma é produto do desporto escolar e que em 1979 foi pela primeira vez convocada para uma selecção escolar, dizendo conhecer bem o valor disso, até no melhoramento da saúde e da assimilação da matéria escolar. Foi então quando voltou a contar que o seu ministério e o da educação têm trocado encontros onde foram distribuídas tarefas para a reactivação e desenvolvimento desta componente social nas instituições de ensino em todo o país, e que Deus a oiça. A primeira curiosidade é saber se o reajustamento a fazer no Orçamento Geral do Estado, para a educação e saúde, chegarão mesmo aos 33 por cento; e se chegar, quanto poderá haver para a tal reactivação. No desporto escolar reactivar significa ter um programa, professores, material e equipamento para, no mínimo, milhares de escolas e Angola na sua condição depauperada poderá reunir tudo isso quando? Chegou Março e fim do primeiro trimestre do ano, metade do novo ciclo olímpico e demasiado perto para sonhar com futebol nos próximos Jogos Olímpicos... No entanto, o futebol teve ali dois novos momentos épicos para recordar marcadamente a nossa actual ministra. Caso o futebol se apurasse para um campeonato do mundo, pela segunda vez, ou aos Jogos Olímpicos, \"o desporto, em termos gerais no país, não seria o mesmo\", disse Ana Paula do Sacramento Neto, a titular actual da pasta da juventude e desportos. Convém ler duas vezes e interpretar acertadamente.
Quando falava para uma rádio, aquela antiga internacional do Petro e da selecção, disse que o ministério está a trabalhar no sentido de melhorar o posicionamento do desporto “rei” no ranking da FIFA. Não sei se já pensava assim quando recusou receber cumprimento do enviado da CAF, que é prima como irmã da FIFA. E após longuíssima romaria pela posse dos aposentos alheios, que levaria o presidente do Comité Paralímpico a pedir ao último ministro as instalações da FAF na Cidadela, tendo este respondido que tais, como o hotel, eram produto de um investimento próprio da federação, embora com meios do estado, eis que a nossa ministra, não sei se para homenagear ou brindar a sua antiga modalidade, passa por cima da ‘jurisprudência’ da casa e dá as instalações ao presidente da sua modalidade do coração. Mas, como isto é Angola..., são coincidências apenas. Assim e com paradoxos pensamos em chegar longe e pode ser até que, porém, convém ir já reflectindo no que nos poderá esperar, que é sempre melhor ser esperado acordado, que adormecido. Se a ministra reiterou na mesma ocasião que “caso o futebol melhorasse a actividade desportiva no geral estaria em outro patamar pela sua importância social”, a culpa não é do atraso do futebol, mas da falta de um projecto. O desporto teve um projecto e rumo até ao advento da segunda república (1992-93), quando começou a fase histórica da desmontagem do colectivo e erecção do individual. Quando os clubes viraram empresas. Quando o lado social das políticas da política e económicas mudaram de natureza, carácter e essência de muita coisa a começar pelas organizações. Quando a nova geração também quis pegar no leme e estragou o que encontrou, continuando a estragar. A ministra acredita ser possível melhorar o desporto nacional mobilizando o empresariado para um trabalho conjunto na quantidade para encontrar a qualidade, e essas são palavras bonitas e bem elaboradas quando conjugadas com compromisso, pois daqui nasce o empenho e, antes de tudo, o projecto. E para projecto, dizer isso é encorajador, mas muito pouco. Como poderei achar muito se se dirigir ao empresariado, antes de apertar pelos colarinhos quem nas administrações tornou normal descaminhar fundos de subsídio a uma cultura de educação física e recreação nas comunidades! A resposta mais rápida aos estímulos sociais do desporto provém da comunidade, não do sponsor. Esta postura interpretativamente assimétricaem momentos diferentes do mesmo dilema - o desporto - e do mesmo debate - o futebol ou o resto – leva-me a concluir que há realmente um tom mais político na actualidade, do que gerencial, do todo desportivo. E deixar algumas partes da infra-estrutura do Estado ser levadas por antigos servidores seus, fará parte ou de um acerto, ou ajuste de contas. Não é fácil para os atletas deixar de se ter, a pensar que algum outro dia voltarão a construir. Por isso, em toda a sua extensão de dor, o desporto angolano carrega um estigma do ADN do novo ser angolano, não podem mudar sem primeiro estirpar o mal que se quer continuar a carregar junto com tudo e com os demais.
O meu maior receio é que esta nova era do Minjud nos traga de volta tudo aquilo de mau que havíamos estirpado do desporto angolano, a começar pela incompetência dos quadros técnicos, a falta de ideias, objectivos e saberes colectivos. Quem não tem um instituto sequer em condições para formar professores, não pode estar a falar de reactivação de qualquer actividade circum-escular física, desportiva ou o que for sob tutela do estado, sem a certificação técnica do estado, e é consabido que no estado actual é ridículo esperar que o INEF trate de dar ‘professores-treinadores’ para o desporto escolar. É de todo impensável que o futuro do futebol esteja nos grandes clubes, enquanto estes forem os primeiros a não fazer sementeira e a preferir contratar treinadores e atletas estrangeiros por haver cá dentro preguiça de ‘fabricar’. Basta ter os clubes a fazer a sério futebol jovem e o problema reduz drasticamente. Mas quem pode regularizar isso é quem deve fiscalizar e se o Estado é pessoa de bem, o ministério deve ser organizado para velar pelo bem do Estado, que tratando-se de desporto, é uma obra com uma pirâmide de pessoas que o estado não está a conseguir erguer, ou não se importa de ver que continue invertida. É preciso além da vontade discursiva engajar a vontade executiva e saber responsabilizar, usar ferramentas modernas de organização como diligência, conformidade e responsabilização, coisas de que a organização desportiva detesta por nela se querer viver de vários modos.
Todo o edifício desportivo está com fissuras e problemas estruturais e nada resolve tapar o sol com a peneira e mobilizar os clubes para não para o ‘Girabola’, pois, raciocinar por estes termos é politicamente bom, mas desportiva e culturalmente desvantajoso.
Além de se ficar com pior desporto por incúria, tende a só se pensar em futebol quando se ouve falar em desporto, ou ainda, ficam muitos milhares de crianças e adolescentes sem poder praticar desportos de que mais gostam por terem encontrado um país formatado em futebol, aos poucos.
As coisas são claras e os estados das coisas têm nome e não é ofensa dizer o que se vê se for a verdade.
A cultura desportiva é um momento importante, que existirá mesmo antes da própria prática desportiva, é que fornece os valores e princípios com que se deve abraçar e fazer o desporto. Sobretudo os campeões costumam saber disso e recordar-nos...
Qual é, afinal, a nossa cultura desportiva?Qual o nosso projecto comum desportivo sob a bandeira do Estado angolano?Qual a nossa estratégia de desenvolvimento desportivo, a de pedintes, ou de empreendedores?
Não era melhor sentarmo-nos e fazer uma conferência nacional para começar a tratar disso tudo? Ao menos falar-se-ia direito por linhas tortas, contudo, conclusivas.
ARLINDO MACEDO

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