Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Andebol campeo nacional

20 de Dezembro, 2018
O andebol é o campeão angolano de fim-de-ano, mas este é apenas um prémio de qualidade. Ao contrário do basquetebol, o andebol angolano mantém-se firme no firmamento desportivo nacional (e até africano), conquistando o ceptro ano após ano, mas também reconquistando o mesmo, mudança após mudança do efectivo da selecção nacional. Em suma e arredondando, um exemplo de formação de jogadoras e de qualidade desportiva.
Inversamente, o nosso basquetebol está ainda a sair das suas próprias ruínas, após uma safra quase zerada de novos talentos formatados pela nova geração de treinadores angolanos da bola ao cesto, que não lograram criar um acervo equivalente de atletas, àquele donde os próprios provieram e isso não é só reflexo da qualidade de treinadores que são, mas do contexto que vivemos.
Sim, Angola tinha bases desportivas que o colonialismo não levou, pelo contrário, criou e deixou; o problema que tivemos foi manter o nível e isso não se deve apenas aos graus de aproveitamento, investimento e investigação dos novos técnicos, mas a um contexto sócio-económico novo em que o desporto popularizado representa pouco ou quase nada, aos olhos do orçamento do estado.
Bem que o Presidente da República prometeu o rápido regresso do país a um sistema de desporto escolar que, como outras promessas, ficará pendente por falta dos pressupostos na maioria, senão mesmo em todo o país. Aliás, quando olhamos para a paisagem desportiva do país dói verificar que a maioria do território não pratica e nem faz desporto, na óptica do associativismo. Somos isso mesmo, um caso absurdo, após mais de 40 anos de independência.
Com a politização do sector desportivo, derivada da combinação estéril, até aqui, da juventude com o desporto no regime em que o estado parece continuar a apostar, com a parte da juventude a engolir dois terços do orçamento para esse casamento, pasma-me não só não ver resultados, como ainda ouvir da nova Secretária de Estado da Juventude, que as nossas amostras de empresários jovens e empreendedores devorou e desviou para fora do país mais de 400 milhões de dólares nos últimos anos.
De facto, a melhor forma de se conseguir que nos assaltem a casa ou arrombem os cofres é deixarmos as chaves disso à mão de semear, que é como quem diz, não se trancar nada, deixar evaporar tudo, engrandecendo um banquete que até foi pouco nacional, para a delapidação do erário público e o sumiço de magotes de recursos financeiros do país desviados por aprendizes de adulto com ligações pessoais e familiares aos esquemas organizados de saques das contas públicas do estado que deveriam ter servido para financiar desenvolvimento.
O tão falado génio criativo ou empreendedor da juventude angolana vai continuar um caso indecifrável até provas em contrário; se se investe no sector juvenil é para libertar o génio criativo dos mais jovens com dotes e visão prometedores, mas não era de criatividade nem de promessas de talento para o crime que se queria, mas de jovens empreendedores honestos e comprometidos com o desenvolvimento do seu próprio país, ao invés de virem ajudar a delapidar o mesmo. Ainda assim, a culpa é sempre de quem abre as torneiras para estas sangrias à economia que ficam sem culpados, nem detidos.
Agora, que não tarda a chegar 2019 com novos rodos de verbas para a juventude demolir aos poucos aquilo que poderia ser o sonho de muitos mais jovens do resto do país, mas que se derrete na capital principalmente e sob a promessa de se estar diante das mais faraónicas e sonhadoras promessas de êxito assegurado, é o capítulo que se há-de seguir nesta saga de uma Angola só para tanta discrepância.
Se quisermos acreditar em algo mais palpável e concreto nesse sector dominado pelo Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD), assim como fundos e associações ditos para jovens, então teremos de nos voltar para o desporto, que é onde fica mais difícil roubar e exportar, pois, dava-se conta mais rápida e claramente, quer dos lobos com pele de cordeiro, quer dos gatos por lebres. Ainda assim, o desporto não é sector tão sacro que não cometa deslizes financeiros e de gestão, senão não haveria tanta luta para se guindarem a dirigentes no desporto angolano.
Vir aqui descarregar fel não é meu lema, pois gosto de ser um facilitador, mas apontar feridas e culpados é algo que ainda consigo fazer sem a necessidade de óculos. Ao contrário do que pareça, o sector do desporto não escapa ao olho do grande irmão ou ‘big brother’ que anda mais atento aos esquemas de defraudação que nos deixaram praticamente de tanga como país, assim como divididos entre muito ricos e muito pobres como nação.
Meu propósito final, hoje, é elogiar o instinto de sobrevivência vencedor do andebol angolano, um verdadeiro embaixador do real desporto angolano na actualidade, que contrasta cm praticamente tudo o resto, e devia servir de exemplo, mas não é imitado pelos demais. E não é um caso que mereça muito estudo, pois, é apenas um caso de perseverança de umas pouquíssimas escolinhas que principalmente em Benguela, mais que em Luanda e resto do país, adquiriram um ADN preservado e, mesmo sem desfrutar das melhores merendas, levam anos a formar jovens e mais jovens, para felicidade do jogo de Sete e alegria nacional.
A favor do meu julgamento concorre também o crescimento do andebol masculino, actualmente no Top 4 de África, ou seja, reis da África sub-sahariana e bons imitadores das suas irmãs campeoníssimas. Mérito dividido nas duas classes com todos aqueles que dão oxigénio ao andebol a partir das camadas jovens e muito em especial, juvenis e juniores. Claro que ninguém vai querer imitar o andebol, pois isso dá muito trabalho.
Também o clima de irmandade entre os treinadores não é excepção, quando comparado com o das outras modalidades.
Assim e para conclusão, o nosso maior e primeiro adversário, somos nós com a característica desunião angolana, egoísmos e pretensiosismos que nos revelam um povo com muito ainda para aprender, na vida, na moral e no desporto.
Ou seja, falta muito para restaurar as bases do desporto angolano e edificar uma sociedade que veja no desporto não apenas saúde e lazer, mas também e sobretudo, um sector que pode engrandecer o mercado de trabalho, proporcionar o ‘fabrico’ de muitos e diversos campeões, além de dar ao país boa reputação, menos desemprego e mais orgulho nacional, pois o desporto cria laços e estende pontes, além de alimentar corações com o espírito de conquista e de missão.
Numa só palavra, 2018 deve terminar com o dedo premindo o botão de ‘reset’ de tudo quanto efectivamente persiste em andar mal no desporto, ou é bom e então deve deva ser melhorado. Só que não vai ser com ajuda da escola, pois esta, nem para as crianças iniciarem, nem para os técnicos se formarem ainda.
Sim, as escolas vão continuar sem bolas, saltos e corridas, enquanto o INEF vai continuar sem importância. E a soma destes factores costuma dar zero vírgula qualquer coisa, que mal dá para se notar ou ver. E isso costuma ter um nome feio que é mediocridade, coisa em que ninguém deveria gostar de se ver, menos ainda o quase todo nacional.
Vai daí, espero que em 2019 haja uma mesa-redonda sobre o desporto que temos e as suas perspectivas como factor desportivo, social e económico; mas para ser mesmo um novo ano de mudanças mais claras, rogo ao nosso Executivo para se libertar de uma chumbada pesada na ponta da linha de pesca que segura, trocando o MINJUD por uma alta autoridade do desporto, mais técnica e competente, deixando o sector da juventude para quem vive de ludíbrios, desfalque de sonhos, muitas parras e poucas uvas.
Arlindo Macedo

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