Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Andrangheta do desporto

07 de Junho, 2017
O presente do nosso desporto, e que nos persegue desde começo do novo milénio, é o termo-nos tornado reféns de práticas outrora criminalizadas, mas actualmente correntes e que, no final das contas, mantém o desporto refém de uma autêntica ‘ndrangheta’, ou seja uma gamela de novos usos e práticas que nos conduzem a cenários outrora banidos e a práticas antigamente dolosas, mas que se repetem em coro e procissão no presente que estamos a viver.

Os tempos são de crise agravada, desde 2015, e vamos em meados de 2017; era crível que de algum lado, mas sobretudo do ministério, saltasse a iniciativa de seminariar os clubes e mesmo associações provinciais e federações, sobre modelos de gestão e administração particularmente em tempo de crise e por todo o novo ciclo olímpico, ou seja até 2020, o que parecemos longe de encarar, parecido que estamos todos com olhos postos apenas em renovar o mandato governativo em Agosto. E apagar todas as más contas do passado…

Os agentes de base do sistema desportivo que vêm sendo os clubes e associações recreativos e desportivas municipais e comunais, de que jeito vêm enfrentando a crise, gerindo as dificuldades e sobrevivendo? Não serão eles merecedores de mais cuidado enquanto constituintes do sistema desportivo em que depois todos mergulhamos incluindo portanto críticos treinadores de bancada e adeptos-não-sócios? Não seria providente – e empreendedor neste caso – realizar uma conferência metodológica do desporto, na óptica de exemplos de gestão e administração da crise?

Eu venho querendo abordar isto há cerca de um mês e hoje congratulei-me ao receber um ‘post’ da Associação da Imprensa Desportiva Africana (AIPS –África), de que é membro dirigente o presidente da Associação Angolana da Imprensa Desportiva ‘AIDA’, António Ferreira ‘Aleluia’; o post noticia que a FIFA está a realizar estágios de administração e gestão(!) e nós não precisamos da FIFA para tal, embora o seu subsídio desse jeito, mesmo que fosse para pagar os ‘coffee-breaks’ da formação, embora, ao que se possa imaginar, o fundo FIFA cabimentou muito mais, tudo incluindo a sala, o equipamento usado, até os intérpretes quando seja o caso, porém, o que não tem preço, é o intercâmbio e experiências que se trocam. E por falar em AIDA, eis um bom exemplo dos gestores desportivos que nos faltam, os quais devem ser primeiro juramentados com as inerências do cargo, mas não em relação ao seu umbigo e , sim, ao centro do umbigo de todos, portanto, ao colectivo. A associação não tem feito assembleias electivas, como e a coberto das carências e insuficiências, os jornalistas não fazem massivamente o seu cadastro na associação nacional, ou pagam alguma jóia ou quota, porém, os poucos inscritos, em torno de uma centena, auferem regularmente de um cartão AIPS internacional e proveniente em mão do presidente da AIDA, que paga bi-anualmente três mil dólares para a posse de tais cem cartões, sem que jamais cada beneficiários tenha sido pedida a pagar quinze dólares anuais ou trinta bianualmente, pelo cartão de que tem usufruído.

E graças a isso têm franqueadas inclusivé portas e fronteiras em qualquer aeroporto civilizado que respeite as convenções internacionais, conferidas pela AIPS e as Nações Unidas, vantagens que se estendem à preferência para a acreditação em eventos das federações internacionais e confederações, ou mesmo o Comité Internacional Olímpico, sempre que se é elegível para tal fim.

Pois, todo esse privilégio da filiação internacional, obtenção e impressão pagas do cartão AIPS, quota individual não paga à AIDA, enquanto o presidente desta assume a quota internacional paga à entidade-mãe, são há anos assumidas pessoalmente pelo meu afilhado, que é um magnânimo por natureza, e só por isso é meu afilhado, pois o dirigismo precisa de gente com ombridade, generosa, por isso capaz de ser devote, além de demonstrar ser gente dirigente inteligente, e não apenas gente astuta e esperta conquistadora de momentos e de oportunidades apenas, mas sem inteligência nem perspectivas.

Os rumos do desporto não são os da esperteza, mas da inteligência. Daí que a coexistência de um movimento colectivo e nobre, como é o desporto, com gestos e actos da esperteza, seja pouco harmoniosa e pouco pacífica com os que comem tudo de entrada, ou ainda com os que só comem. Assim e em tempos de crise, os nossos clubes ficaram entregues a índoles menos positivas e, nas contas, fazem tudo menos ‘expôr a riscos’ o futebol, sacrificando os demais entes do orçamento e espalhando a crise pelas outras modalidades do emblema, com uma super-onda de choque e de restrições que baixa até às camadas de formação, comprometendo o futuro. E é sobre este futuro que o desporto tem que ter a sua pedra de toque, mais que mirabolâncias e obsessão com milhões na massificação, pois esta é um conto de vigário enquanto não houver monitores suficientes e nem clubes para depois absorver e empregar os eventuais talentos, sendo de concluir que no sector do desporto anda alguma coisa de patas para cima, por endireitar.

Ora, um sistema tem sempre que ter uma lógica positiva e o desporto não deve ser excepção.

Os fundos públicos conferidos em duodécimos aos agentes desportivos têm uma finalidade social, que deve ser mais do que dar entretenimento, e por isso deveria haver uma verificação da utilização desses fundos e por isso existem as inspecções do estado, dado que é óbvio que o desporto não só gera despesas, como receitas, e a inspecção financeira do estado devia andar atenta a isso, pois a colecta fiscal não se tem ali homologada nem procedente.

Os finais de mandatos costumam fazer eco de quem foi quem, e de quem fez o quê, pelo que não será por descrédito, nem mau agoiro sobre os actuais mandatários, mas somente uma referência se disser que os antigos mandatários do desporto não deixaram ainda de estar implicados na necessidade de fazerem, também eles e a si próprios, um exame de consciência, por exemplo, que lhes permita antes de partirem desta para outra, testemunhar com honestidade sobre a sua contribuição efectiva ao desporto, à modalidade e associação ou clube em que serviram e onde, desejosamente, deixaram desenvolvimento relativamente ao estado em que haviam ascendido ao cargo entretanto exercido.

Assim e voltando ao cerne da questão, a crise e o seu efeito na gestão dos clubes e associações, é um tema deveras importante alumiar isto pelo facto de o investimento depender de como se gere a crise, e o investimento não ser uma condição negociável em nenhum processo que visa desenvolvimento. E por outro lado, as conquistas preparam-se de cá de trás, na gestão e administração, para poder haver primeiro as condições logísticas, operativas e operacionais, administrativas e gerentes de vários processos e áreas imbuídos de um mesmo objectivo e querer, desportivo e não pessoal, focalizado em organizar-se para vencer. Foi assim a conquista da ida de Angola ao Mundial FIFA Alemanha 2006, foi assim e continua a ser assim a conquista de vários títulos Africanos de Angola em andebol, basquetebol, desporto paralímpico, judo, natação, ou simplesmente xadrez, que são ocasionalmente ganhos. Mas não sistematicamente…

Assim sendo e procurando olhar com seriedade para a tortuosa gestão que tem sacrificado os clubes na base em vez de corrigirem os excessos no topo, vem justificar a regressão em números e a debandada quase generalizada nas classes jovens a praticar oficialmente e portanto registados nas federações e associações provinciais, assim como acarreta a descida vertiginosa da filiação feminina e até em certos casos uma proximidade do zero, senão mesmo da extinção temporária, situações estas nem sempre ponderadas, mas resposta de um instinto básico e de futebol e de ‘Girabola’ que ofusca muito do resto da missão do dirigente desportivo e do clube, graças a estes erros de postura e de forma de gestão no desporto.

Quem nos clubes e associações, até mesmo nas administrações municipais e comunais provedoras de subsídios, vir o desporto de formação como despesa e não como investimento, comete um severo dano de gestão desportiva e até social. Uma parte próxima de um-terço ou até mesmo dois-quintos do orçamento do clube ou associação deve estar focalizado para a promoção do desporto jovem, pois ele é o garante do desenvolvimento, do ter-se atletas em juniores competitivos e ainda com margem de progressão, quem sabe, um dia, formadores de uma forte selecção nacional.
Experiências recentes, como o andebol masculino do Primeiro de Agosto, culminaram um processo que hoje posiciona Angola entre os quarto países de topo Africano em masculinos, para já não falar na mesma receita de que o Ferroviário foi um dia pioneiro, depois o Petro foi seguidor e hoje o Primeiro de Agosto parece o successor, estando a viver dos frutos das suas experiências de academia em andebol feminino, primeiramente, depois também em masculinos.

Actualmente os nossos endinheirados criam cavalos e vacas e até animais só para cobertura, porque gostam de multiplicar qualidade e de certificar-se que verão um dia nascer bons bezerrinhos para a manada, porém, alguns deles, já dirigentes outrora, ou apoiantes de novos dirigentes, são incapazes de partilhar a receita da criação de bezerros raçudos, com os seus sucessores desportivos, incapazes de fazer uma colheita de talentos como deve ser, pois começa por não terem ou viveram que deveriam. E assim tá-se mal.

Os mais imediatistas trouxeram receitas: comprar fora, mandar vir ‘mercenários’, lutar por ganhar o ‘Girabola’ sem a mesma aspiração de competir forte nas ligas africanas de clubes, nem sensibilidade em promover juniores nacionais para engrandecer a selecção, então, o país desportivo tem sofrido um pouco com os dirigentes ‘fast-food’ que ocasionalmente se vão apoderando de uma modalidade, associação ou clube. E a atipicidade do nosso desporto tem raízes aí.

Os clubes não cultivam a auto-sustentabilidade, talvez porque isso dê trabalho, e então a primeira careca que os novos dirigentes e apregoadores destapam, é o seu próprio ‘empreendedorismo’, pois, se houver os duodécimos, qual é a maka de esperar só a massa cair?

A seguir, eu gostaria de falar das contas sem auditoria e que não se quer auditor, o que impede, por exemplo, de estipular – e controlar – que percentagem estipulada para despesa de investimento, foi alocada e/ou executada. Entre outras medições que os dirigentes associativos não querem..., e assim a luta contra os \'ndrangheta\' continua!

Ndrangheta é uma associação pouco benfeitora da Calábria, sul da Itália, onde todos comem calados.
Arlindo Macedo

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